Tuesday, June 23, 2009

Índice de entrevistas

Ano 2009

Mario MILANO - 23/06

Pasquale FRISENDA
- 30/04


Mauro BOSELLI - 02/04

Moreno BURATTINI - 10/03

Alfonso FONT - 04/03

Gonçalo JUNIOR - 23/02

Ano 2008

Sergio BONELLI - 30/12

Marco TORRICELLI - 23/12

TIZZIANA Giorgini Crudeli - 08/12

Corrado MASTANTUONO - 25/11

Fabio CIVITELLI e Marco BIANCHINI - 15/11


Marco BIANCHINI - 31/10

Sergio BONELLI - 07/10

Rossano ROSSI - 03/10

Giancarlo BERARDI
- 07/09

Stefano ANDREUCCI - 04/07

Marco SANTUCCI - 27/06

Paulo GUANAES - 30/05

Pasquale DEL VECCHIO - 15/05

Marcos MALDONADO Rodrigues - 25/04

Gianfranco MANFREDI - 07/02

Claudio VILLA - 23/01

Dr. José Maria Prazeres PÓS-DE-MINA - 10/01

Ano 2007

Carlos RICO - 28/10

Ernesto Garcia SEIJAS - 23/09

Fabio CIVITELLI - 19/09

Miguel Angel REPETTO - 11/09

Fabio CIVITELLI - 28/05

Fabio CIVITELLI - 12/04
  

Posted by Autores do blogue in 23:59:33 | Permalink | No Comments »

Entrevista exclusiva: MARIO MILANO

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, Mário João Marques e  Sandro Palmas na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex e Mágico Vento para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.



Mario Milano, bem-vindo ao blogue português de Tex, que está aberto para a sua apresentação.
Mario Milano:
Antes permitam-me agradecer pela oportunidade desta entrevista e agradecer antecipadamente a todos os que a lerão. Obrigado! Eu nasci em Foggia, na Itália, em 8 de Setembro de 1968, e é aqui que moro e trabalho. Sempre considerei o desenho como uma expressão fundamental da alma humana, e nos quadradinhos eu descobri que podia expressar uma parte de mim mesmo, apesar de me considerar um desenhador de BD um pouco anômalo.

Que lugar ocuparam os quadradinhos na sua infância?
Mario Milano:
A minha infância foi meio agitada. Eu desenhava de tudo, em tudo e usava de tudo: eu pegava pedaços de giz no lixo e, com eles, desenhava enormes figuras nas calçadas, qualquer folha de papel era boa para desenhar, fosse a margem branca de um jornal ou o verso de uma fotocópia jogada fora. Depois eu descobri a caneta hidrocor e com ela eu “decorei” as casas de banho e as salas de aula das escolas que eu frequentava. Eu li algumas revistinhas, mas na verdade não me recordo de ter desenhado personagens como Tex ou outros.

Quando você percebeu que sabia desenhar, como se tornou um desenhador?
Mario Milano:
Eu comecei a interessar-me seriamente pelos quadradinhos depois dos vinte anos. Quando eu ainda frequentava a academia alguém observou que os meus desenhos tinham um estilo meio de BD. Em seguida (por acaso ou por destino, não sei) um amigo aficionado e grande coleccionador sugeriu-me tentar desenhar quadradinhos e emprestou-me as suas revistas. Eu logo senti uma forte atração pela BD de autor. Foi ali que tudo começou.

Você teve uma formação artística? De que tipo?
Mario Milano:
Eu frequentei o instituto de arte e a academia de belas artes da minha cidade, mas a prática com os quadradinhos foi independente dos meus estudos artísticos. Quero dizer com isso que se hoje eu desenho quadradinhos, isso não depende do facto de ter frequentado a academia.

Quais são os desenhadores italianos e estrangeiros a quem você se inspirou durante a sua carreira? Há algum que, mais que os outros, você considera seu mestre ideal?
Mario Milano:
Na verdade não há desenhadores que me inspiraram. Quando trabalho, eu estudo atentamente o desenho de poucos grandes desenhadores para entender como eles resolvem problemas análogos aos meus e, em seguida, desenvolvo o desenho com um método pessoal e independente, a visualizar a imagem e a olhar-me no espelho. Há muitos bons desenhadores, poucos grandes desenhadores. É difícil dizer, mas entre esses últimos o maior de todos é sem dúvida Jean Giraud, por muitos conhecido com o pseudónimo de Moebius. Ele é o meu mestre.

Quais foram as suas experiências antes de entrar na Bonelli?
Mario Milano:
Desde a adolescência eu trabalhei como gráfico publicitário e ilustrador e fazia maquetes para estudos de arquitectura. Depois, durante a academia, desenhei e montei muitas cenografias para o teatro e para estúdios de TV. Em seguida, quando descobri os quadradinhos, manifestou-se dentro de mim uma espécie de revelação, foi como abrir uma porta de um mundo misterioso e fascinante a explorar, no qual eu sentia que poderia me expressar em total liberdade. Quando comecei a me interessar seriamente pelos quadradinhos fiz algumas histórias curtas no estilo “linha clara” (estilo que eu apreciava e ainda aprecio muito) que foram publicadas em fanzines; eram histórias surreais e fantásticas que, num certo sentido, também eram um exercício de estilo no qual eu podia experimentar as minhas ideias sobre a BD.

A sua entrada na Editora da Via Buonarroti aconteceu com a série Zona X. O que pode nos dizer dessa experiência?
Mario Milano:
Em seguida eu mudei o meu estilo e contactei a Bonelli. Depois de poucos dias comecei a minha primeira história para Zona X. Essa primeira experiência foi muito importante sobretudo porque compreendi a importância da aplicação ao trabalho: desenhar todos os dias durante muitas horas, realizar qualquer tipo de coisa e sempre do jeito certo, a seguir um roteiro escrito por outra pessoa. Para mim, tudo isso foi (e ainda é e sempre será) uma verdadeira escola.

Depois você colaborou - se bem que apenas em uma edição, a n° 149 - com Nick Raider. Você esperava ficar mais tempo na série criada por Claudio Nizzi?
Mario Milano:
Desenhar Nick Raider foi muito divertido, eu gostei muito. Mas antes de começar eu já sabia que desenharia apenas um episódio, foi uma edição “de passagem”, digamos assim. Eu precisava soltar a mão e adquirir elasticidade no desenho.

Antes de medir armas com o faroeste tradicional do Tex actual, você adquiriu experiência com o Oeste inquieto de Mágico Vento. Como aconteceu a sua entrada na série?
Mario Milano:
Uma personagem esplêndida, talvez aquela de que mais gosto entre todas as da Bonelli. Uma vez consolidado o meu estilo, recebi a proposta de passar para Mágico Vento, e foi uma coisa natural, vista a minha propensão estilística para o género faroeste. Em seguida, a trabalhar nele, pude desenvolver ainda mais o meu estilo.

Dos quatro episódios desenhados para Mágico Vento, de qual você se recorda com mais satisfação e qual lhe deu mais dificuldades?
Mario Milano:
De todos os quatro eu recordo satisfações e dificuldades. As histórias de Mágico Vento são bastante complexas e em cada uma delas os desenhadores são chamados a vivenciar situações que exigem um notável empenho criativo, mas na substância, apesar do suador, foi tudo muito divertido.

Como você chegou a Tex?
Mario Milano:
Creio que essa coisa de me propor desenhar Tex já estava no ar há algum tempo. Um dia, quando eu estava na redacção para alguns ajustes a fazer no meu quarto Mágico Vento, Sergio Bonelli, uma pessoa muito simpática, chamou-me à sua sala e me propôs desenhar Tex.

Houve alguma preparação para entrar na personagem?
Mario Milano:
Eu desenhei apenas alguns esboços da personagem.

Quais foram as principais dificuldades?
Mario Milano:
Na verdade eu não tive dificuldades em desenhar Tex. Ao contrário, de todas as experiências que tive, foi aquela em que desenhei com maior serenidade. Também no estilo eu senti maior coerência comigo mesmo e com a minha visão dos quadradinhos. Claro que tive de prestar mais atenção a alguns detalhes, mas ao desenhar Tex eu senti-me totalmente à vontade, tudo transcorria tranquilo.

O seu Tex sofreu alguma influência?
Mario Milano:
Certamente eu não podia deixar de considerar um grande autor como Ticci, mas o desenhador que me influenciou foi Giraud. Para o resto, como já mencionei antes, desenvolvi o desenho de modo totalmente pessoal.

Entrar para o time de Tex representou para si algo de especial ou foi só um trabalho como qualquer outro?
Mario Milano:
Desenhar Tex Willer é uma experiência que deixa marcas, é uma aventura inesquecível! Ao desenhar Tex eu senti-me verdadeiramente um desenhador de quadradinhos, e ver publicada uma história desenhada por mim dá aquela alegria e aquelas emoções interiores que duram para sempre.

O que você pensa desta personagem com 60 anos de vida e de sucesso?
Mario Milano:
Tex é uma personagem que vai bem além do próprio conceito de quadradinhos. A vastíssima produção de páginas e de edições feitas por desenhadores extraordinários são um monumento da cultura que deve ser preservada no tempo. A sua força e a sua profunda humanidade fazem dele um grande mito do panorama da BD mundial que, aos 60 anos de vida, ainda pode nos presentear muitas aventuras.

Na única história de Tex desenhada por si (O Povoado Assediado, Tex italianos 552 e 553), a acção, num certo sentido, é dominada pela natureza selvagem. Como você encarou a história?
Mario Milano:
Com liberdade total, a usar o pincel de modo fluente e consistente para arte-finalizar o ambiente natural, o que inclui Tex e todas as outras personagens da história. Eu gostei muito de desenhar os cavalos, sobretudo nas cenas mais dinâmicas.

Poderemos voltar a ver uma história de Tex desenhada por Mario Milano?
Mario Milano:
Porque não? Seria belíssimo reviver a aventura.

Como foi a experiência de trabalhar com Claudio Nizzi?
Mario Milano:
Nizzi é um profissional experiente e responsável. Em seus roteiros eu encontrei o equilíbrio perfeito entre texto e desenho que só um grande roteirista pode oferecer. Com ele eu tive total liberdade de expressão.

O Oeste é um género que, excepto por Tex, chama pouca atenção actualmente. Isso também vale para os novos desenhadores?
Mario Milano:
Creio que não. Na minha opinião o género faroeste ainda é um mito também para muitos jovens desenhadores, e Tex é um exemplo.

Falemos do seu trabalho. Como Mario Milano encara os detalhes e quantas páginas faz por mês?
Mario Milano:
Eu procuro desenhar de modo detalhado mas não muito, a buscar o justo equilíbrio na página entre o desenho de base e a arte-final. Com Tex eu desenhava mais ou menos 10 páginas por mês, mas para o mercado francês levo mais tempo.

Você busca documentação? É ajudado pelos roteiristas?
Mario Milano:
Sim. Para a narrativa da história é fundamental a ambientação certa. O leitor deve acreditar que está mesmo ali. Com os roteiristas o relacionamento sempre foi óptimo e sempre me deixaram livre para interpretar o roteiro do meu jeito; às vezes eu modifico a descrição das imagens, e desde que trabalho para o mercado francês, por vezes acrescento quadradinhos aos definidos pelo roteiro para melhorar a narrativa.

Qual o género e tipo de ambientação que você prefere?
Mario Milano:
Acima de tudo os que têm a ver com natureza. Eu sinto uma paixão profunda pela natureza, e isso certamente influencia muitas de minhas escolhas de vida. Mas eu também gosto de situações surreais, oníricas, onde tudo pode acontecer.

Você já escreveu roteiros ou, quem sabe, pensa em escrever para depois desenhar ou entregar a outro desenhador?
Mario Milano:
Eu escrevi alguma coisa no passado, e tenho algumas ideias para escrever e desenhar actualmente. Eu gostaria de escrever para um desenhador sensível e atento - porque não? - mas sobretudo espero no futuro poder desenhar uma história aos quadradinhos escrita por mim.

Você prefere trabalhar sozinho ou em equipa?
Mario Milano:
Se é para desenhar, certamente prefiro fazer isso sozinho, mas para todo o resto eu gosto muito de trabalhar em equipa.

Ao ver as páginas do seu último trabalho para o mercado francês, não há como deixar de admirar a maestria ao realizar figuras femininas - são fantásticas! - que, aliás, são um assunto preocupante nas histórias de Tex.
Como você elaborou a personagem de Liza?
Mario Milano:
Agradeço bastante pelo elogio. Eu pensei em Liza da maneira mais livre e espontânea possível: imaginei e desenhei a personagem do modo que li a sua descrição. E é dessa forma que ajo sempre que devo criar uma personagem, eu sempre busco dar espaço à intuição e às primeiras sensações que sinto dentro de mim, sem pensar muito. Também fiz o mesmo com Tex.

O mercado francês parece ter um público mais exigente e acostumado às cores. Como see adaptou a isso? O trabalho de colorização é seu, de um colorista ou você recorre à informática?
Mario Milano:
Como eu disse antes, o meu estilo inicial costumava ser de “linha clara”, que voltei a usar com base na experiência adquirida na Bonelli. Com esse estilo o meu desenho aceita bem a cor, e o resultado é uma BD muito rica e detalhada nas ambientações e nas personagens, além de ser muito bem colorizada. A colorização é feita por coloristas externos com os quais sempre estou em contacto. No caso do primeiro episódio feito para as edições Humanoides Associés a colorização das páginas foi feita por uma profissional canadense: ela me enviava as páginas colorizadas e eu enviava a ela eventuais correcções e modificações a serem feitas nas cores para ter mais uniformidade com o desenho, coisa que aconteceu também com o segundo episódio que recentemente terminei de desenhar e que acabou de ser publicado.

Para um desenhador quais são as principais diferenças entre o mercado italiano e o francês?
Mario Milano:
Desenhar para o mercado italiano e para o francês são duas experiências fantásticas; aliás, mais que de diferenças, eu falaria de características: no italiano há muita paixão pelo mundo da personagem. Tex, por exemplo, tem um conteúdo de vida sem igual. Tex é uma personagem que cresceu e continua a crescer sempre a se consolidar cada vez mais graças à extraordinária paixão do editor, dos roteirisras, dos desenhadores e dos leitores que nutrem a personagem e dela se nutrem. O mercado francês é mais criativo e experimental, as histórias são muito diversificadas e oferecem situações mais variadas, é dado mais espaço e destaque ao autor, e isso para mim, como desenhador, é bom porque permite ao profissional expressar-se de maneira mais completa e pessoal.

De onde vem mais pressão para respeitar os prazos de entrega?
Mario Milano:
Cada um dos lados, Itália e França, tem exigências diferentes a respeito de prazos de entrega. Certamente tanto eu quanto o editor queremos que a história seja completada dentro de um prazo razoável, mas é sobretudo a alegria de ver o trabalho publicado que te leva a trabalhar em ritmo forçado!

Na Itália os quadradinhos ainda são considerados uma arte menor. Como foi trabalhar para a Bonelli e como você julga a sua experiência francesa?
Mario Milano:
Trabalhar com a Bonelli foi uma experiência belíssima que espero repetir, seria fantástico desenhar Tex novamente, fazer os enquadramentos, os traços, a personagem. Se é verdade que os quadradinhos são considerados por alguns uma arte menor, penso que para um desenhador de BD ambicioso seja absolutamente fundamental fazer todo o possível e contribuir para que os quadradinhos se tornem uma arte para todos os efeitos, porque eles são arte! Trabalhar para o mercado francês está a dar-me muitas satisfações e as perspectivas são óptimas: já comecei a colaborar também com outra editora francesa, a Glénat, e a história que comecei a desenhar é muito bonita. Futuramente posso lhes mostrar alguma antecipação.

Você divide-se entre quadradinhos e ilustração; qual será o futuro de Mario Milano?
Mario Milano:
O de tornar-me um grande desenhador de BD, e buscar aproximar-me o mais possível dos grandes autores como Moebius, Manara… e paro por aqui! Repito que, para mim, os quadradinhos são uma extraordinária forma de arte e eu quero contribuir ao máximo para o seu bem e para o bem de todos os aficionados como vocês do blogue e como todos os leitores. É muito importante que todos nós que amamos os quadradinhos contribuamos para mantê-lo sempre vivo e forte como fazem vocês, que são grandes na sua paixão pelo grande Tex.

Como você vê o futuro da BD numa época em que os leitores são assediados por tantos outros instrumentos estimulantes como computadores, televisão, jogos, DVD, etc.?
Mario Milano:
Tenho plena convicção de que a BD sempre terá o seu lugar. O prazer de folhear as páginas, sentir o aroma gostoso do papel impresso, apaixonar-se pela história, apreciar belíssimos desenhos são uma experiência sem igual e sempre existirão legiões de aficionados que manterão vivos os quadradinhos. E entre esses com toda a certeza estaremos nós!

Sempre haverá um lugar para Tex?
Mario Milano:
Absolutamente sim! Certamente, como acabei de dizer, também depende de todos nós contribuir para mantê-lo vivo e forte! Tex é um autêntico monumento, é um herói perfeito que vai muito além das páginas de uma revista, um herói de verdade, sem mancha e sem medo, um homem que sempre sabe dizer a coisa certa no momento certo. É o amigo, o pai, o filho que todos gostariam de ter. É um óptimo exemplo de humanidade, dotado de todas aquelas qualidades de que todos nós precisamos para sermos melhores. Já imaginaram se Tex existisse de verdade e estivesse aqui conosco neste momento?

Como você se vê do outro lado da barricada, isto é, como leitor? Você lê BD ou ela só significa prazer de desenhar?
Mario Milano:
Não sou um leitor que lê por distracção. Eu leio BD não só por paixão mas também para estudá-la: praticamente analiso a história e como ela foi ilustrada pelo desenhador para captar o seu estilo e quais foram as suas escolhas e, certamente, para apreciar os seus desenhos. Um desenho bonito é fundamental numa história aos quadradinhos. E claro que fazer os desenhos é um prazer insuperável.

Além de BD, você lê livros? De que tipo? E quais são as suas preferências nos campos do cinema e da música?
Mario Milano:
Eu aprecio romances proféticos e provocadores como “1984” de George Orwell e “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk, como também livros de espiritualidade e filosofia. No cinema eu prefiro filmes surreais e fantásticos como “Clube de Combate” (“Clube da Luta“, no Brasil) e “Brazil, o Filme“; na música italiana, gosto muito de De Andrè e acompanho jazz e assemelhados.

Caro Mario Milano, em nome do blogue português de Tex agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Mario Milano:
E eu agradeço muitíssimo a vocês por esta esplêndida oportunidade que me concederam para me expor nesta entrevista. Se alguém desejar contactar-me para dar sua opinião pode fazê-lo directamente no meu sítio Internet, que actualizo periodicamente com a evolução dos meus trabalhos. A página é www.mariomilano.it
Um abraço a todos e boa aventura com Tex!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 01:40:51 | Permalink | Comments (7)

Friday, June 12, 2009

Tex desembarca na Argentina: Entrevista com Pasquale Frisenda

O blogue do Tex apresenta na nossa língua, uma interessante entrevista feita recentemente pela Sergio Bonelli Editore no seu site, ao desenhador Pasquale Frisenda que irá se estrear oficialmente como desenhador de Tex este mês através da edição 23 (Junho 2009)dos Texoni, numa história intitulada “Patagonia”, escrita pelo argumentista Mauro Boselli.

O Verão aproxima-se e é de novo tempo do Texone (Tex Gigante). Um duo inédito apresenta a aventura deste ano, a vigésima terceira, à venda nos quiosques italianos, a partir de 20 de Junho: se Mauro Boselli não  é por certo a primeira vez que pisa os empoeirados territórios do Oeste texiano, para Pasquale Frisenda trata-se de uma estreia absoluta. Para a ocasião, Boselli confeccionou uma história verdadeiramente especial, com o Ranger empenhado numa missão que o porta muito longe da sua amada reserva navajo… na  Patagónia! Fala-nos o desenhador que, nos últimos três anos, suou nas mais de duzentas páginas de que é composta a aventura…

Um desafio à frente do qual se encontram os desenhadores que contactam com Tex pela primeira vez diz respeito à definição gráfica de Águia da Noite e dos seus pards. Como foi a tua pesquisa? De que modelo partiste?
Procurei ter presente vários modelos e referências que os diversos desenhadores que têm alternado na série podiam oferecer, mas a ideia da personagem que desejava corresponder (aquela de um homem conhecedor e sábio, mas também decidido e com garra, e com quem é melhor não brincar demais) tomei em especial a partir do trabalho de Giovanni Ticci e Claudio Villa. Mas sem omitir alguns elementos do modelo de Galep, que para mim são importantíssimos para definir graficamente Tex.

De Ken Parker a Tex, passando por Mágico Vento: como foi a tua aproximação a estes westerns tão diversos entre eles?
A abordagem foi sempre a disponibilidade em direcção às personagens e suas características específicas. Pertencem todos os três, é verdade, ao género western, mas são universos autónomos e com diferenças substanciais, que temos de aprender a compreender e gerir bem para trabalhar de forma eficaz,  colocando sempre que possível algo de pessoal.

A história escrita por Mauro Boselli leva o Ranger à longíqua Patagónia. Imaginamos que esta escolha insólita te tenha obrigado a trabalhar com una ampla documentação referente à terra dos gaúchos…
Sim, e mesmo muito! E nem sempre foi fácil encontrar material. Em parte foi-me fornecido por Mauro Boselli (que, por seu turno, tinha sido ajudado pela paixão que Mario Fagella nutria pela Argentina), e também por Sergio Bonelli em pessoa, mas estou habituado a fazer esse árduo trabalho que a mim me diz respeito: a ambientação em que coloco personagens e situações, para mim, é muito importante a definir graficamente, “como se fosse una personagem também”, citando um famoso director… A pesquisa dura até ao fim do projecto, pois há sempre modo de corrigir ou melhorar o próprio trabalho.

Conta-nos o teu método de trabalho. De quais elementos partes no definir de uma página? E quantas vezes retornas atrás para adicionar detalhes ou para ajustar o tiro?
Procedo sempre em ordem cronológica, e após ter lido as páginas de uma sequência que constem do guião, por exemplo, começo com a pesquisa da documentação apropriada (vestuário, objectos de género variado, ambientação, armas, etc.) e depois então começo a desenhar. Acontece por vezes de retornar ao que já está desenhado, sempre que na minha opinião, o trabalho possa ser aperfeiçoado ou para remover qualquer erro… O trabalho jamais chegará aos quiosques como temos em mente no início… um desenhador com um mínimo de sentido crítico verá sempre defeitos, mas pode todavia empenhar-se para aproximar-se daquele objectivo e, mal que vá, é um exercício que leva quase sempre a um resultado melhor no trabalho seguinte…

E após o Texone, um esforço que te empenhou por diversos anos, no que estás a trabalhar agora?
No presente estou a realizar uma história breve de Dylan Dog. Variar de personagens e géneros tem sido desde sempre um dos meus interesses específicos. Alternar entre as diferentes interpretações do Oeste, da sua visão mais crepuscular a uma ideia de aventura mais clássica (se bem que a história do Texone tenha sido bastante incomum) é um belo desafio, agora com  Dylan haverá uma pequena incursão no seu mundo, mas gostaria de confrontar-me, mais cedo ou mais tarde, também com o noir e com a ficção-científica, esta última a minha verdadeira paixão.

Material apresentado no sítio da Sergio Bonelli Editore.
Copyright: © 2009, Sergio Bonelli Editore S.p.A.
 

Tradução e adaptação de José Carlos Francisco.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 00:14:04 | Permalink | Comments (2)

Thursday, April 30, 2009

Entrevista exclusiva: PASQUALE FRISENDA

Entrevista conduzida por  José Carlos Francisco, com a colaboração de Angelo Palumbo, Giampiero Belardinelli e Mario Latino na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex e Mágico Vento para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Caro Pasquale, bem-vindo ao blogue português de Tex. Onde você nasceu e em que cidade mora?
Pasquale Frisenda: Eu nasci no dia 8 de Janeiro de 1970 em Milão, na Itália, cidade onde moro e trabalho.

Que lugar tiveram os quadradinhos, sobretudo os Bonellis, na sua infância?
Pasquale Frisenda: Um lugar importante, com certeza. Tex, Zagor e, depois de alguns anos, Mister No, Ken Parker e Martin Mystère foram personagens a quem fiquei muito ligado, e que me acompanham constantemente no decorrer do tempo, junto à BD Marvel, principalmente no período dos anos 70 e 80, até a descoberta das revistas que foram chamadas de “BD de autor” e muito além, porque os leio ainda hoje.

Como você chegou a se tornar desenhador de quadradinhos? Vocação ou acaso?
Pasquale Frisenda: Os dois. O desejo de seguir esta carreira sempre esteve presente em mim, bem ou mal, mas os passos feitos para concretizar este desejo foram realmente incertos e, muitas vezes, casuais.

Você teve uma formação artística? De que tipo?
Pasquale Frisenda: Eu frequentei o curso de quadradinhos do Castelo Sforzesco de Milão. Uma experiência útil sobretudo para entrar em contacto com outras pessoas interessadas no canal de comunicação representado pela BD e poder fazer comparações com elas. Quanto ao resto, eu considero-me autodidacta. De forma concreta, o papel mais importante na minha formação inicial foi representado pelos componentes do Estúdio Comix e, obviamente, Berardi e Milazzo.

Quais foram os desenhadores italianos e estrangeiros aos quais você se inspirou durante a sua carreira? Há algum que, mais que os outros, você considera seu mestre ideal?
Pasquale Frisenda: Bem, os desenhadores são muitos, e continuam a aumentar ou a ser “substituídos” com o passar do tempo. Apenas para citar alguns nomes, na Itália minhas referências constantes foram (e ainda são) autores como Gino D’Antonio (que tive a sorte de conhecer), Dino Battaglia, Renzo Calegari, Sergio Toppi, Gianni DeLuca, Attilio Micheluzzi, Giorgio Trevisan, Roberto Diso, Magnus, Ferdinando Tacconi… e obviamente Ivo Milazzo que, com o início da colaboração com a Ken Parker Magazine, certamente representou o momento da virada na minha carreira. Mas é impossível citar todos. Do exterior, eu gostaria de citar Moebius e Breccia (tanto Alberto quanto Enrique), Hermann e Juan Jimenez, Juillard e Font, Muñoz e Bernet, Mandrafina, Altuna, ou os autores norte-americanos tipo Toth, Caniff, Eisner, Richard Corben, David Mazzucchelli, até Bill Sienkiewicz. Aqui também a lista tem lacunas. Em todo caso, a influência que tive de cada um deles, por vários motivos, foi essencial para a formação de uma “minha” visão das coisas e de um eventual “estilo” pessoal.

Você começou sua carreira profissional a colaborar com a revista “Cyborg”, da editora Star Comics. O que se recorda dessa experiência?
Pasquale Frisenda: Foi uma experiência importante. Muito difícil, por várias razões, sobretudo pela minha inexperiência, mas sem dúvida importante para ao menos começar a deparar com o mundo dos quadradinhos em nível profissional.

Quanto foi importante ter tido mestres como Carlo Ambrosini e Giampiero Casertano?
Pasquale Frisenda: Para mim, com pouco mais de dezassete anos, o contacto - na verdade muito ocasional com Carlo Ambrosini, Giampiero Casertano e Enea Riboldi no Estúdio Comix (contacto que tive graças a Pasquale Del Vecchio que há pouco frequentava o estúdio), foi uma ocasião valiosa. Acho que nunca disse isto, mas para mim todos eles foram um forte impulso para continuar neste caminho.

Passemos ao período da “Ken Parker Magazine”. Como você entrou em contacto com Berardi e Milazzo?
Pasquale Frisenda: Depois do encerramento da revista Cyborg, eu soube do projecto de Berardi e Milazzo de realizar uma revista dedicada a Ken Parker, e simplesmente mandei a eles umas páginas de teste. Hoje, ao olhar para aquelas páginas, acho que foi uma loucura, mas na época pareceu-me uma coisa óbvia a fazer. A inconsciência dos vinte anos, que às vezes ajuda.

Ter trabalhado ao lado de um mestre como Milazzo sem dúvida influenciou o seu desenho. Depois disso, como e quando você chegou ao estilo invejável mostrado nas páginas de Mágico Vento?
Pasquale Frisenda: Eu agradeço pelo juízo sobre o meu desenho, mas de volta à pergunta, a influência de Milazzo foi naturalmente muito forte, e não só de um ponto de vista gráfico, mas talvez ainda mais de um ponto de vista narrativo. Quanto ao estilo, creio seja filho das infinitas influências que me chegaram dos vários autores que citei antes, a quem acrescento os nomes de ilustradores e pintores de quem me aproximei justamente no período em que eu frequentava Berardi e Milazzo e trabalhava com Ken Parker. A tudo isso também deve-se acrescentar a grande sugestão que tem sobre mim o cinema e a fotografia.

Os episódios de Mágico Vento com a sua assinatura são - também graças à direcção habilidosa de Gianfranco Manfredi - um exemplo perfeito de como se pode fazer quadradinhos de autor nas páginas de um produto em série. Você não acha escandaloso que certos trabalhos - seus e de outros colegas - sejam ignorados pela crítica não ligada à BD?
Pasquale Frisenda: Sim, mas a arrogância de muitos críticos ou jornalistas de opereta não é nova, e os quadradinhos não são sua única vítima. Nos últimos anos, com o florescer dos “filmes de quadradinhos”, nós lemos coisas delirantes sobre os quadradinhos de onde se originaram esses filmes, e muitas vezes escritas por “respeitáveis” jornalistas. Às vezes a coisa irrita-me por demais, às vezes passo por cima. Também é verdade que hoje a situação melhorou bastante em relação a alguns anos passados, e isso é significativo.

No ápice da experiência com Mágico Vento você também cuidou das capas (do n° 32 ao 75), ao substituir Venturi. Que técnicas você usou e por que depois deixou esse trabalho?
Pasquale Frisenda: As técnicas de colorização utilizadas eram várias, entre as quais aguarela, pastel (crayon), guache e ecoline. Eu deixei de fazer esse trabalho motivado, principalmente, pelo facto que eu não conseguia mais conjugar uma qualidade constante nas páginas ao produzir também as capas. Em todo caso, lamentei deixar de fazê-las.

Segundo Gianfranco Manfredi, uma das causas da eliminação de Mágico Vento em 2010 é a dificuldade que os desenhadores mais jovens sentem com o faroeste em geral, o que obviamente não é o seu caso. Como consegue desenhar tão bem cavalos, diligências, cidades, aldeias, ou seja, o faroeste no seu todo?
Pasquale Frisenda: O curioso é que não me considero um desenhador de faroeste! Autores como D’Antonio, Ticci, Milazzo, Serpieri ou Giraud, só para citar alguns, souberam representar o Oeste com uma capacidade mais única que rara. O porque talvez seja ligado a uma questão de geração. Em todo caso, cada um deles conhece muito bem o que está a desenhar, um conhecimento do género que vai muito além de um simples discurso sobre documentação.
Eu creio que consigo representar o género sob um ponto de vista apenas “emotivo”, eu gosto muito do género faroeste e das características e atmosferas que lhe são próprias. Mas sob um ponto de vista de gerações, meu imaginário foi “colonizado” sobretudo pela ficção científica. Um certo tipo de ficção científica, aquela mais ligada a um filão “humanístico” da literatura e ao cinema desse género, surgida lá pelos anos setenta/oitenta, ou seja, mais próximo de “Blade Runner” que de “Guerra nas Estrelas” (filmes que aprecio demais). Em cada história de Mágico Vento, depois de trinta páginas inevitavelmente eu começava a desenhar alguma astronave a aproximar-se de algum estranho planeta ou ameaçadores ciborgues. Mas eu sei que, assim que tiver a chance de desenhar uma história de ficção científica, depois de trinta páginas começarei a esboçar um homem a cavalo numa pradaria sem fim!

Na sua óptica, existe alguma ligação, no mínimo em nível conceitual, entre as histórias de Ken Parker e Mágico Vento?
Pasquale Frisenda: Mais de uma, eu diria. Mágico Vento não poderia existir sem a visão do Oeste narrada anteriormente em Ken Parker, ou no enorme trabalho feito por Gino D’Antonio na História do Oeste. E hoje eu creio que a personagem de Manfredi pode vir a ser um novo ponto de partida para quem desejar enfrentar o género no futuro.

Passemos ao Ranger que dá nome a este blogue: como você chegou a Tex? E quais foram os seus objectivos nesta série?
Pasquale Frisenda: Eu cheguei a ele por desejo de Bonelli e Canzio. Eu havia expressado a Sergio Bonelli a vontade de mudar de personagem e de género, eu queria trabalhar com outras coisas e atmosferas, mas como resposta veio a proposta de fazer uma história de Tex e, sobretudo, de ser inserida na série dos Tex Gigantes, algo para mim impensável e, por isso, uma chance imperdível. De objectivos, por ora só tenho um: conseguir fazer bem.

Quais foram as suas dificuldades para entender o mito e dar a ele seu toque pessoal?
Pasquale Frisenda: As maiores dificuldades foram as de aprender os “tempos” narrativos de que Tex necessita. A proximidade de Mauro Boselli (o roteirista da história) foi um suporte enorme. Com muita atenção e pronta disponibilidade ele permitiu-me corrigir a mira onde era preciso, eu lhe sou muito grato por isso, mesmo porque o trabalho ganhou muito. As primeiras páginas, a abordagem da personagem em geral, foram muito difíceis, mas alguns conselhos de Sergio Bonelli ajudaram-me muito a poder desenhá-lo como “eu o via”, a começar a soltar a mão e adquirir familiaridade página após página.

Desenhar Tex comporta alguma diferença em relação a Ken Parker e Mágico Vento?
Pasquale Frisenda: Sim, cada uma dessas personagens tem uma dimensão bem definida e exigências narrativas bem precisas e muito diferentes entre si. Deve-se aprender a administrá-las correctamente para não desnaturar as várias personagens, mas também para poder encontrar um modo de realizá-los “e fazê-los seus” na medida do possível.

Pode nos antecipar alguma coisa sobre a sua história do Tex Gigante, quem é o roteirista, a ambientação, etc.?
Pasquale Frisenda: O roteirista, como eu disse antes, é Mauro Boselli, que não precisa de muitas apresentações. Para mim foi uma experiência extremamente importante e trabalhosa. A história será bastante incomum, seja no aspecto dos “tons” narrativos, seja como ambientação, e desenvolve-se nos pampas argentinos. Quanto ao resultado final, espero realmente que possa satisfazer todos os texianos que nos “ouvem”.

Você ficou satisfeito com seu trabalho em Tex?
Pasquale Frisenda: Agora sim, depois de ter revisto algumas sequências das quais eu não estava muito convencido. Mas sei que, assim que o vir publicado, eu me darei conta de muitas coisas que poderia ter feito melhor. Sempre me acontece!

Se pudesse expressar preferências entre as várias tipologias de histórias texianas, preferiria desenhar aquelas mais típicas de faroeste, com espaços amplos, índios, etc., faroeste urbano ou histórias de magia e mistério?
Pasquale Frisenda: Não, eu não tenho preferências particulares, sou atraído tanto pelas histórias de faroeste mais clássicas como por aquelas mais oníricas e misteriosas. Um dia eu gostaria de desenhar a personagem de El Morisco, esse sim.

Pelo que sabemos, você está a desenhar uma nova história de Tex: pode nos antecipar alguma coisa sobre a sua segunda história?
Pasquale Frisenda: Não, ainda não comecei a minha segunda história de Tex, e ainda antes farei uma história curta de Dylan Dog.

Em 2007 tivemos em Portugal uma antecipação mundial de quinze novos desenhadores de Tex, como é o seu caso, por exemplo. Como você vê essa entrada de tantos novos elementos na equipa de Tex? Isso poderia ser um novo rumo na vida da série?
Pasquale Frisenda: Sim, creio que é muito provável. Tex tem tudo a seu favor, e é provável que as novas gerações de autores possam ligar-se a novas gerações de leitores.

Também houve um reforço em nível de roteiristas. Acha que isso era algo inevitável? E com tantos roteiristas, você não acha que há o risco de se ver Tex desnaturado?
Pasquale Frisenda: Desnaturado eu acho difícil, e creio que ninguém está a desejar algo assim. Tex tem características bem definidas e que são essenciais para o sucesso da personagem e da série. Faço votos para que os novos roteiristas consigam contar as suas histórias de diversos ângulos, isso sim, que espera-se sejam novos e inéditos.

Você sente falta de fazer capas? Como faria uma capa de Tex?
Pasquale Frisenda: Nunca pensei nisso. O empenho de capista de Tex está coberto pelo nome que mais merece esse papel. Às vezes sinto falta das capas, sim, mas quiçá no futuro haverá outra chance.

Na sua carreira na Bonelli você trabalhou com vários roteiristas, entre os quais Berardi, Manfredi e Boselli. Como vê os vários modos de trabalhar? Com quem se sente melhor?
Pasquale Frisenda: Não gosto muito de fazer classificações desse tipo. Digamos que me considero extremamente sortudo! Cada um deles tem exigências bem definidas, cujos motivos são fazer a melhor história possível, exigências que sempre busquei respeitar, às vezes a conseguir mais e outras menos. Mas na medida do possível sempre tento colocar algo meu.

Quando Sergio Bonelli o apresentou aos leitores texianos (Tex italiano Nuova Ristampa n° 176) você disse que depois de Mágico Vento tinha a intenção de mudar de género e passar talvez a Dylan Dog ou Dampyr. Ainda nutre esse desejo?
Pasquale Frisenda: Sim. Como eu disse, para Dylan Dog logo farei uma história, mas se houver a possibilidade, colaborar com outras personagens é uma coisa que eu gostaria mesmo de fazer.

Como é trabalhar para Sergio Bonelli?
Pasquale Frisenda: Para mim foi uma verdadeira surpresa, à qual acho que ainda devo me habituar. Passar de um cumprimento ocasional na redacção a ter um contacto directo com ele foi muito importante para mim, a descobrir também e sobretudo a pessoa por trás do editor. A ele e a Decio Canzio, por várias razões que levaria tempo para resumir, eu devo muitíssimo.

A BD da SBE sempre foi seu objectivo ou você preferia fazer a chamada “BD de autor” como Pratt, Battaglia, Toppi, Manara?
Pasquale Frisenda: Posso entender que nas várias produções haja intenções e motivações variadas, mas essa distinção tão clara eu nunca aceitei. Realizar essas personagens (Ken Parker, Mágico Vento, Tex e Dylan Dog) sempre foi meu objectivo profissional. Se chegarei a desenhar algo mais ligado a mim aos meus (outros) interesses, veremos, mas isso em nada diminui o valor desse tipo de personagens, de quadradinhos e de produções.

Já pensou em fazer algum tipo de trabalho independente no género faroeste? Em caso positivo, você escreveria o roteiro ou se apoiaria em alguém? Quem e por qual razão?
Pasquale Frisenda: Eu tenho algumas ideias, mas tudo ainda está em alto mar para poder falar com exactidão.

Nas suas páginas prefere deixar espaço apenas à sua fantasia ou também usa material de suporte como fotografias, livros ou outra coisa? Você usa Internet para documentar-se?
Pasquale Frisenda: O suporte da documentação é absolutamente prioritário. Livros de ilustração, cinema, fotografia, pintura e outras coisas constantemente ocupam a minha mesa de trabalho, e a Internet há alguns anos também tornou-se uma ajuda valiosa. Mas isso tudo, na minha opinião, sempre deve ser filtrado através da própria visão das coisas e, desse modo, o elemento ligado à fantasia do desenhador ou do roteirista é prioritário.

Como é o seu processo de criação? Você faz uma página completa e depois passa para outra? E quais instrumentos de trabalho utiliza?
Pasquale Frisenda: Eu sempre parto da primeira página e sigo em ordem cronológica. Os instrumentos são os mais clássicos: lápis, caneta hidrocor e pincéis.

Quanto tempo leva para desenhar uma página? Segue horários? Como é uma jornada padrão entre trabalho, leituras, manter-se informado, ócio, vida familiar?
Pasquale Frisenda: Cada página é um caso, obviamente depende do que se deve desenhar, mas em média faço uma página a cada dois dias. Eu busco fazer de tudo um pouco em cada dia, além de trabalho, interesses pessoais e culturais, mas quase nunca consigo!

Quais são seus projectos futuros? Pode nos antecipar alguma coisa?
Pasquale Frisenda: Por ora os projectos mais imediatos são ligados às personagens de Tex e Dylan Dog. Há outras coisas, mas eu falarei quando houver o espaço adequado.

Que quadradinhos você lê actualmente? Com quais mais se identifica?
Pasquale Frisenda: Eu leio vários, de personagens Bonelli a algumas BD Marvel ou DC, e evidentemente tudo o que acho interessante nas várias lojas de quadradinhos, produções ligadas aos tantos autores que aprecio até novas descobertas que enriquecem a minha biblioteca, como por exemplo os incríveis trabalhos de Thomas Ott, conhecido há pouco tempo.

Além dos quadradinhos, que livros você lê? E quais são as suas preferências no campo do cinema e da música?
Pasquale Frisenda: Também aqui os meus interesses são variados, busco não me “fossilizar” e não rejeito qualquer tipo de leitura. Às vezes os interesses até se sobrepõem e começo a ler vários livros ao mesmo tempo ou vejo mais de um filme no mesmo dia. A música, também de vários géneros, está sempre presente no dia a dia, de Bach a Pearl Jam, por exemplo.

Caro Pasquale Frisenda, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Pasquale Frisenda: Eu é que agradeço, sinceramente, pela atenção!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 00:12:15 | Permalink | Comments (5)

Thursday, April 2, 2009

Entrevista exclusiva: MAURO BOSELLI

Entrevista conduzida por  José Carlos Francisco, com a colaboração de João Miguel Lameiras, Mário João Marques e Nilson Pires Farinha na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex e Zagor para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Mauro Boselli, bem-vindo ao blogue português de Tex. Comecemos com os seus dados, como data e local de nascimento, estudos e profissão.
Mauro Boselli: Eu nasci em Milão no dia 30 de Agosto de 1953, que também foi o dia em que o grande ciclista Fausto Coppi venceu o título mundial. Milão foi e ainda é uma cidade de imigração, para onde vão todos os italianos em busca de trabalho. Minha mãe era piemontesa e meu pai emiliano, daquela região da Emilia que se chama “La Bassa”, em razão da sua planície chata, perto do rio Pó, a terra de Giuseppe Verdi e de Giovanni Guareschi, o autor de “Dom Camilo”. Eu gosto muito daquela terra (e da sua comida), mas talvez por uma reacção à planície, quando era criança e andava sozinho de bicicleta pelas margens do rio, eu sonhava em me tornar explorador e alpinista, em atravessar florestas e escalar montanhas.
Na verdade, alguns dos sonhos de infância se realizaram e passei metade da juventude a subir em montanhas de todo tipo (e cheguei até a “voar”: eu caí umas quatro vezes, mas sempre com consequências mínimas). Mas já na época estava claro que a verdadeira realização dos sonhos estava na imaginação, e eu via meu futuro como um Salgari, a criar aventuras na escrivaninha. Por um certo período, como fazia estudos clássicos, eu bandeei-me para o estudo de letras e corri o risco de tornar-me um perito em Gongora e no século do ouro espanhol, ou em algum outro autor meio esquecido. Nesse caso, as minhas eventuais publicações teriam saído em revistas de cultura profunda, lidas por poucos e seleccionados eruditos. Mas graves problemas pessoais interromperam os meus estudos universitários a um passo da formatura. Eu retomei-os há pouco tempo, mas agora não corro mais o risco de abandonar os quadradinhos.

Que lugar teve a BD, principalmente Bonelli, na sua infância?
Mauro Boselli: Eu comecei a ler sozinho aos quatro anos de idade, a folhear as revistinhas italianas de “Mickey Mouse” em formato livreto, e a me apaixonar principalmente pelas grandes histórias de Romano Scarpa, de quem na época eu não sabia o nome, claro (na época os quadradinhos populares não indicavam o nome dos autores), mas cujo estilo eu identificava de imediato, tanto desenhos quanto roteiros. E as histórias de Scarpa eram complexas, aventurosas, ricas de golpes de cena. Foi amor à primeira vista.
Na época eu também devorava as histórias feitas por Bottaro, Rebuffi, Chendi. Nos quiosques havia “Pecos Bill”, havia o “Corriere dei Piccoli” que publicava os Sobrinhos do Capitão (“Katzenjammer Kids”) e os quadradinhos de Sergio Tofano (“Signor Bonaventura”). E ainda havia as reedições de Flash Gordon, Mandrake, Fantasma, Príncipe Valente. Quando eu tinha dez anos, na Itália chegaram as BD da escola franco-belga: Michel Vaillant, Professor Mortimer, Blueberry, Asterix, Tintin. Quando eu tinha doze, nasceu a revista “Linus”, que me fez conhecer Peanuts, Popeye, Jeff Hawke, Li’l Abner. Eu sempre li quadradinhos de todo o tipo (mas não deixava de lado os romances, já havia descoberto Dickens, Dostoievski, Buzzati, os policiais, a ficção científica, Don Quixote e Ludovico Ariosto!). Dou um passo atrás: aos cinco anos tive em mãos as minhas primeiras revistinhas em tiras de Tex e aos seis encontrei na escola o filho mais novo de Giovanni Luigi Bonelli, Giorgio. Eu ainda me lembro do cheiro da tinta daquelas velhas revistinhas.

Como você se tornou escritor de quadradinhos? Foi por acaso ou por vocação? Por quem ou por o que foi influenciado?
Mauro Boselli: Ao ler alguns dos vários quadradinhos que povoavam os quiosques italianos de então, muitas vezes eu “sobrepunha” às imagens e aos textos novas aventuras imaginadas por mim. Fantasia total. Aos onze anos eu era um prolífico improvisador de histórias. Eu guardava várias folhas com os nomes dos vários protagonistas, um pirata, um caubói, um astronauta, um agente secreto, além dos títulos das aventuras de cada um deles. Verdadeiras “séries” que só existiam dentro do meu pequeno e delirante cérebro. Nas tardes tediosas, enquanto eu e os meus amigos andávamos à toa pelas ruas da periferia, nas matas ou às margens dos rios, alguns deles escolhiam um título e eu, a partir dessa ideia, improvisava complexas narrativas aventurosas com um golpe de cena atrás do outro. Eu sabia que seria escritor, e queria me tornar o novo Salgari ou o novo Fleming, mas creio que direccionei-me para os quadradinhos só depois de conhecer pessoalmente G.L. Bonelli e a sua enorme personalidade. Quando cresci, trabalhei dois anos em seu estúdio. Bem, trabalhar não é bem o termo! Nós ficávamos a cavaquear; ou melhor, eu ficava a ouvir as suas histórias. O percurso em direcção à BD não foi linear. Depois da universidade - que abandonei quando faltavam dois exames para o final, por razões à época muito válidas - fiz um sem-número de outros trabalhos (professor, vendedor, tradutor, bibliotecário, director de “quadradinhos na TV”) e só tornei-me argumentista profissional “no meio do caminho da nossa vida”.

Como e quando você entrou para a SBE e qual foi o seu primeiro trabalho? E como passou a fazer parte da equipa de Tex Willer?
Mauro Boselli: Depois de vários pequenos trabalhos para a Editora, depois da experiência no estúdio de G.L. Bonelli (o “Tex Willer’s Den”) e da versão televisiva dos quadradinhos Bonelli feita em conjunto com Giorgio Bonelli e Ferruccio Alessandri, minha primeira colaboração continuada com a Bonelli começou na época em que Sergio Bonelli começou a publicar na Itália as revistas da Dargaud com a marca Bonelli-Dargaud, em 1982, e a Tiziano Sclavi foi confiada a versão italiana da revista “Pilote”, com o nome “Pilot” (sem o “e” final). A edição italiana de Sclavi e do editor de arte Maggioni foi uma obra-prima pós-moderna de criatividade gráfica aplicada aos quadradinhos. Eu era um dos redactores e, quase no final daquela experiência, tornei-me o único redactor!
Aliás, durante alguns meses eu fui o único redactor e faz-tudo tanto de “Pilot” quanto de “Orient Express”. Eu fazia a paginação, corrigia, traduzia e escrevia textos redaccionais em metade do expediente. Na outra metade, na sede central da Bonelli, eu escrevia outros textos (a secção de cartas de Martin Mystère, os artigos de TuttoWest), corrigia avalanches de páginas em quadradinhos e começava a escrever ou reescrever (de forma anónima) as minhas primeiras histórias (e à noite eu era bibliotecário numa biblioteca pública de Milão, mas isso não conta!). A primeira história de Tex nasceu de um argumento idealizado junto a Giorgio Bonelli, e fiz o roteiro de umas cem páginas antes de passar a G.L. Bonelli em pessoa. Ele manteve intactas as páginas já escritas e concluiu a história, sem levar em conta o meu argumento por demais complicado, e a história foi passada a Letteri. Dois anos depois, Tiziano Sclavi passou-me a história para que ela fosse alongada e para que o final (muito rápido) fosse arrumado. Eu acrescentei umas vinte páginas, reescrevi outras, mas sem poder manter a versão original. “A Ameaça Invisível” foi só um acidente de percurso. Não se podia ter a pretensão de escrever Tex sem acumular uma experiência prévia. Por isso, após escrever “River Bill” a partir de uma ideia de Nolitta, pensei em criar experiência com Zagor, e consegui convencer o severo Decio Canzio de meu valor, porque, algum tempo depois, por ocasião de uma “crise” de Nizzi, Canzio pediu-me para tapar um buraco e escrever uma história com Marcello (que havia desenhado alguns dos meus primeiros Zagor). Procurei escrever a melhor história que eu tinha em mente e foi “O Passado de Carson“. A partir dali eu me tornei, por acordo tácito, o “vice” de Claudio Nizzi.

O que significa para si escrever histórias de uma lenda dos quadradinhos como Tex que, no ano passado, completou 60 anos de vida editorial, uma das personagens mais longevas?
Mauro Boselli: A primeira coisa que me vem à cabeça é que trata-se de uma honra! E de uma responsabilidade. Além de um sonho realizado, é claro! Busco manter alta a bandeira de Tex e, ao mesmo tempo, procuro divertir-me. Se a cada vez eu pensasse “o que G.L. Bonelli diria?” ou “o que os leitores dirão?”, então eu não conseguiria me divertir e tampouco os leitores. Digamos que a minha visão de Tex já está englobada no meu imaginário e que deixo correr a caneta e a imaginação. Creio que cada um dos leitores tem uma PRÓPRIA visão de como Tex deveria ser; e eu - que fui e sou um leitor de Tex - também tenho uma bem definida. Também creio que a minha visão tenha uma boa margem de crédito, vista a aproximação de anos ao criador de Tex, ao seu editor e à Editora. Mas não estou a colocar-me sobre um pedestal! Digo apenas que eu seria pouco profissional se não encarasse a tarefa como profissional. É óbvio que confio na minha capacidade de administrar a personagem, ainda que seja objectivamente difícil, e espero não trair os votos de confiança que até agora os leitores me deram.

Como se definiria como autor de Tex? Você identifica-se em algum modo com G. L. Bonelli, Guido Nolitta ou Claudio Nizzi, os outros três grandes argumentistas de Tex?
Mauro Boselli: Não creio que seja possível “identificar-se” com outro autor. Cada um tem seu estilo diferente, e nem pode ser de outro modo. Mas é óbvio que, ao escrever Tex, o principal autor de referência deve ser G. L. Bonelli. Por ter passado bastante tempo com ele, e por ser ele uma versão “mais real que a real” de Tex Willer, parece-me ter conhecido Tex pessoalmente e, por isso, posso falar dele com conhecimento de causa! À parte as frases feitas, é a personagem que não pode ser traída. Ele sempre deve ser o herói duro e sem hesitações que G. L. Bonelli criou e espero que seja assim também nas minhas histórias.

Seus roteiros sempre impressionam por uma grande construção psicológica das personagens. Porque dar tamanha importância aos actores de cada aventura?
Mauro Boselli: As histórias - refiro-me à ideia de base, à trama, ao modo de montar as cenas e juntar tudo - têm muita importância para o sucesso de uma BD e eu sempre busco torná-las emocionantes e pouco previsíveis. Mas no fundo, como dizem os estruturalistas, todas as histórias escritas e impressas, a partir de Homero, baseiam-se em poucas tramas-base, sempre as mesmas. Eles estão cobertos de razão. Para esses mesmos estruturalistas as próprias personagens são simples funções narrativas, todas se equivalem. Mas aqui eles são desmentidos pelos factos. Há personagens que, aos leitores, parecem mais vivos que os vivos! Ulisses, Polifemo, Sherlock Holmes, Os Três Mosqueteiros… Tex!
O que se recorda de uma trama sempre são as personagens, por isso é fundamental que uma história tenha “actores” com personalidade forte. E não só os protagonistas mas também os actores coadjuvantes. Meus romancistas preferidos - e cito um por todos, Dickens - deram alma e carácter ou, de todo modo, uma migalha de vida a cada mínimo figurante! Os quadradinhos são diferentes de um romance do Século XIX, mas também na breve duração de uma revista as criaturas de papel devem atingir o leitor com algo de característico e único (no nosso caso, o desenhador ajuda!). E acrescento que meu modo de escrever não é cerebral, mas sim espontâneo e quase “automático”. Ou me vem ou não me vem. Mas como escrevo de modo “quente” e não “frio”, tenho tendência a pensar nos actores das minhas histórias como pessoas de verdade, eu me preocupo com elas, eu me emociono se morrem. Talvez eu consiga comunicar um pouco disso aos leitores. Os vilões de uma BD, por exemplo, não podem ser banais.

Suas personagens não costumam ser maniqueístas. Às vezes os bons não são de todo bons e os maus nem sempre são de todo maus. Você acha que o ser humano não é bom nem mau, que cada um de nós possui ambos os lados, sempre a meio termo entre os dois componentes?
Mauro Boselli: Como se deve dar a ilusão de realidade, ainda que seja estilizada, as personagens lapidadas e ambíguas dão mais facilmente essa ilusão; além disso, criam mais atenção e participação emotiva. Na história da BD italiana, Guido Nolitta e Giancarlo Berardi foram mestres em criar personagens desse tipo. Mas nem todos os meus “characters” são ambíguos. Particularmente em Tex, eu também uso muitos mocinhos e bandidos maniqueístas ao estilo dos velhos faroestes dos anos Trinta!

Como Boselli vê o nosso Ranger? Um homem com uma conduta honrada, sempre a lutar pela justiça, mesmo contra a lei, decidido e duro na medida certa, ou também um homem sensível e que sofre?
Mauro Boselli: Tex nunca hesita, esse é o problema. Ele AGE. Para ele, o pensar é ultrarrápido, pré-racional. Ele não pode parar quando alguém está em perigo, mesmo se naquele momento Tex está desarmado, mesmo se está sob a mira de uma arma. Ele pode errar, mas nunca por ter sido idiota ou mesquinho. E não pode - quase nunca - errar sobre as pessoas. Ele SABE quem é bom e quem é mau e em qual percentual. Foi assim que, em minha opinião, Bonelli-pai o descreveu. O sofrimento está dentro dele e raramente vem à tona, senão em casos esporádicos. Tex é um HERÓI forjado como aqueles míticos e deve-se ter isso em mente. Talvez alguém se espante, por não ter entendido direito as minhas histórias, mas eu sou contra a humanização de Tex (eu humanizo as personagens secundárias). Tex não é como nós. Ele nos fascina porque é algo maior.

Seus roteiros também costumam dar maior destaque a Kit Willer. Você acha que o filho de Tex sempre viveu à sombra do pai ou você apenas imagina um crescimento pessoal para a personagem?
Mauro Boselli: Eu não o uso mais do que G.L. Bonelli usou. Eu simplesmente o uso de vez em quando, como deve ser. Os pards são QUATRO, não DOIS. E também não é mais fácil escrever só para Tex e Carson. A repetitividade me entedia. Por isso, se tenho uma boa ideia, adequada a eles, coloco Tigre ou Kit ao lado de Tex. Kit, por exemplo, será o único a acompanhar o pai a um País distante, num próximo Tex Gigante (de Frisenda).

Pode nos contar como se desenvolve todo o processo de criação de uma história de Tex, todos os passos, até que a edição chegue às mãos do leitor?
Mauro Boselli: São poucas as perguntas fáceis, hein? Eu poderia falar durante HORAS! Mas limito-me a dizer que a ideia pode chegar de qualquer lugar e a qualquer momento. Eu digo “chegar” porque uma ideia “procurada” é muito menos interessante e natural que uma “achada”, se me fiz entender. E para Tex é muito mais difícil que para Zagor ou Dampyr. Existem muito mais características precisas e o mundo do Oeste DELE é muito mais consolidado. Além disso, depois de quinhentas e cinquenta edições, as ideias novas rareiam. Mas uma sempre chega. E quando chega eu escrevo meia página para Bonelli e Canzio.
Aí começo a trabalhar e ESPERO que me cheguem (não sei de onde!) as novas ideias em fase de desenvolvimento e desenrolar da trama. Eu escrevo diálogos e indicações para o desenhador, uma cena de cada vez. Espero que ele os estude, faça o esboço a lápis, discutimos, depois o artista faz a arte-final (n.t.: a passagem de tinta sobre o lápis) e manda as páginas definitivas. Uma cena de cada vez, não toda a história junta, visto que escrevo umas quinze histórias ao mesmo tempo. Quando a história está concluída (TODA, agora), eu a releio, ajusto os diálogos e passo ao letrista. Feito isso, mando corrigir os erros de letreiramento e outros eventuais erros de desenho. Aí vêm as matérias, as provas de impressão e a impressão. Dos artigos, o trabalho redaccional, eu cuido pela manhã, e escrevo à tarde.

Para desenvolver bem um roteiro, você acha melhor escrever argumentos mais detalhados ou não importa se são só poucas páginas?
Mauro Boselli: Praticamente eu não escrevo os argumentos. Ou, para ser mais exacto, quando se trata de séries controladas por mim, como Zagor (se bem que o editor actual é Moreno Burattini!) e Dampyr, como não sou obrigado a fazê-lo, não faço! Eu creio que, ao manter a rédea solta, a história sai melhor, mais criativa, livre, imprevisível, administrada pelo acaso e pelas próprias personagens e pela necessidade imperiosa de fazer os eventos se relacionar. A mim basta uma ideia inicial, uma linha-mestra, as encruzilhadas narrativas a escolher no momento oportuno e com o estímulo daquele instante. Isso também vale para Tex, mas neste caso - como é justo - submeto a Sergio Bonelli uns argumentos bem curtos, nos quais estão todas as mencionadas linhas-mestras, as personagens, os pontos aventurosos de destaque. Depois solto de novo as rédeas da fantasia e a deixo galopar. Não preciso de esquemas rígidos. Eu os acho limitadores.

Qual é a sua técnica para desenvolver uma história com um número exacto de páginas, como por exemplo uma edição única de Tex em 110 páginas?
Mauro Boselli: Quase todas as histórias Bonelli têm 94 páginas. Dampyr, por exemplo. Tex costuma ser em duas ou três edições, 220 ou 330 páginas actualmente - também nesse caso há um número fixo de páginas. Bem, é só observar e começar a calcular os tempos com atenção quando se chega aos dois terços da história. É questão de experiência. Em dezenas de milhares de páginas escritas eu devo ter me desviado umas duas vezes e cortado uma ou duas páginas já escritas (mas NÃO já desenhadas) em vinte anos de actividade!

Gradualmente você está a tornar-se o autor que mais escreve para Tex. Você planeja alterar algo na personagem?
Mauro Boselli: Calma! Tex deve continuar a ser ele mesmo. Não se pode efectuar alterações no padrão bonelliano! Pode-se e deve-se escrever histórias cativantes. Ponto. Assim, não haverá irmãos separados no nascimento, filhos, netos e noivas! Mas em algumas ocasiões nós nos inspiraremos em algum episódio menor da verdadeira história do Oeste, para lhe dar uma versão aventurosa e romanceada, como em algumas aventuras decididas com Sergio Bonelli - aquela recém-publicada dos Soldados Búfalo, por exemplo, ou uma de próxima publicação sobre os guerrilheiros do Kansas e do Missouri.

Qual foi seu melhor trabalho em Tex, na sua opinião? E o mais difícil?
Mauro Boselli: A minha história preferida, no sentido da que mais me satisfaz como sucesso profissional, muda de acordo com os períodos da minha vida. Por certo a minha história texiana de estreia, “O Passado de Carson“, com Marcello, serviu muito bem ao objectivo de me lançar como autor e de me fazer ser apreciado pelos leitores. Outra história que me parece bem feita, porque em linha com a personagem, épica mas também com referências aos filmes de cavalaria de John Ford, é “Rumo ao Forte Apache“, feita com José Ortiz.
Eu tenho uma predilecção pelo Tex Gigante “Os Assassinos” porque se tratava de uma trama muito entrelaçada e, por isso, difícil de escrever, com investigações paralelas e muitas trocas de cenários para divertir Alfonso Font em sua estreia. Sim, tudo somado, as histórias das quais fiquei mais satisfeito são as que mais me mantiveram ocupado, aquelas com linhas narrativas que não podiam ser “perdidas no caminho”. Para Tex eu ainda citaria a complexa “Os Invencíveis” e “Em Território Selvagem“, para Zagor histórias como “O Explorador Desaparecido” e a saga na Escócia, “O Clã das Ilhas“. Para Dampyr histórias com flashback entre passado e futuro, como “Os Lobisomens” ou “A Maldição de Varney“. Mas às vezes a simplicidade também satisfaz, porque ainda mais difícil de ser obtida. A minha história “curta” de Tex feita por Andreucci, “Herói Por Acaso“, é um desses exemplos de simplicidade, e foi obtida a partir de uma pequena ideia administrada com atenção. Outra desse tipo é a “história de fantasmas” “A Dama do Colorado“.

Seus roteiros para Alfonso Font são escritos em italiano ou espanhol?
Mauro Boselli: Eu roteirizei as primeiras páginas de “Os Assassinos” directamente em espanhol. Ainda bem que Font me disse que conhecia o italiano, e por isso todas são em italiano. Já para Seijas, Ortiz e os outros, mandamos para uma tradutora profissional, mas antes de enviar os roteiros traduzidos eu sempre faço um controle pessoal.

Estamos a nos aproximar rapidamente da edição n° 600 de Tex. Na SBE já se está a pensar nesta edição histórica? Pode nos confirmar se será uma história escrita por si, como espera a maioria dos texianos?
Mauro Boselli: Já a estou a escrever e Ticci começou a desenhá-la. Será uma história aventurosa e misteriosa, mas optamos por não fazê-la particularmente comemorativa. Queremos que seja uma história típica e clássica de Tex, com muita acção e situações adequadas ao colorido. Nada de nostálgico ou de comemorativo, por uma escolha precisa do Editor, que idealizou comigo o argumento durante uma conversa informal no seu gabinete.

Sabe-se que você desenvolveu uma sintonia especial com Marcello e com Letteri, autores infelizmente já falecidos. Como se desenvolve hoje o seu trabalho com os desenhadores?
Mauro Boselli: Marcello, com quem trabalhei de forma esplêndida em Zagor, foi o colaborador natural para a minha estreia texiana e juntos fizemos algumas de nossas melhores histórias. Um dia aquele grande cavalheiro da cidade de Ventimiglia disse-me que a sua esposa NUNCA havia lido uma de suas BD’s, antes de eu começar a fazer os roteiros! Um grande elogio, não acham? Letteri foi o segundo a trabalhar comigo quando me tornei ajudante do argumentista oficial de Tex, Claudio Nizzi. Fiquei orgulhoso, porque eu havia crescido com os quadradinhos do grande Guglielmo (que também havia sido o desenhador de “A Ameaça Invisível”, a minha primeira história parcial texiana). Falar agora de outros artistas e preferir um deles seria errado com os outros. Também seria falso, porque cada um tem suas características e eu acho estimulante e diferente trabalhar com cada qual.

Você sempre sabe para qual desenhador escreve ao começar uma nova história e a idealiza de acordo com suas características, ou este factor é indiferente?
Mauro Boselli: Eu sei que Sergio Bonelli, por razões práticas, diria que a coisa é indiferente, mas no fim não é sempre assim. Para o citado n° 600, por exemplo, levamos em conta uma preferência ambiental de Ticci. Sabemos que ele e Fusco preferem espaços abertos e outras coisas, mas são detalhes pequenos, não se trata de escolhas complicadas. Pergunto por exemplo a Mastantuono: “Você prefere índios ou bandidos para a próxima história?”. Se ele diz “bandidos”, fazemos a história com bandidos! Mais ponderada é a escolha para uma série mais complexa como Dampyr, na qual darei histórias oníricas e fantasiosas a autores não-realistas como Luca Rossi e Michele Cropera, aventuras dinâmicas aos desenhadores mais realistas e aquelas de terror a quem sabe fazer melhor os monstros!

Tivemos em Portugal uma apresentação mundial de quinze novos desenhadores de Tex. Como você vê essa entrada de tantos novos artistas na equipa de Tex? Esse facto pode representar o início de uma nova fase na vida de Tex?
Mauro Boselli: É uma fase necessária. Tex precisa de milhares de páginas por ano. E todos os novos artistas são óptimos e apaixonados.

Ultimamente houve um reforço em nível de argumentistas. Você acha que isso era inevitável? E, com tantos argumentistas, não há o risco de Tex não ser mais Tex?
Mauro Boselli: Bem, não somos tantos assim. Além de mim e Nizzi, só houve a chegada efectiva de Faraci e aquela - por ora ocasional - de Manfredi e Ruju. Óptimos escritores. Não há o que temer sobre a qualidade. Ao contrário! Dá para esperar muita coisa.

Hoje que Decio Canzio, responsável editorial pela personagem Tex, aposentou-se, Sergio Bonelli assumiu esse encargo. Você ambiciona chegar a esse posto?
Mauro Boselli: Nem um pouco! Como eu poderia escrever com esse excesso de responsabilidade? Na verdade, Canzio pediu dispensa do cargo, mas continua no seu lugar a trabalhar, porque não pode abrir mão disso. E nem nós! Para mim Canzio é uma figura de referência importante.

Qual será o futuro de Tex? E o de Mauro Boselli? Você se imagina daqui a 10 ou 20 anos ainda a escrever histórias para o Ranger ou um dia gostaria de tentar algo novo?
Mauro Boselli: Nós sempre nos vemos a mirar o futuro para fazer a programação dos anos seguintes, mas nunca assim tão distantes! É certo que gosto de escrever e quero sempre escrever quadradinhos. Mas eu ainda gostaria de trabalhar num romance de terror ou de aventura, só que Tex, Dampyr e Zagor não me dão tempo.

Quantas histórias de Tex está a escrever actualmente? Pode nos dizer algo sobre elas ou sobre alguma em particular?
Mauro Boselli: Estou a escrever oito ou nove. São histórias de Piccinelli, Seijas, Font, Mastantuono, Leomacs… uma hora dessas vocês a lerão.

Como consegue escrever tantas histórias ao mesmo tempo, ainda mais quando se sabe que também escreve para Dampyr e Zagor? Que método você usa e como consegue ter inspiração para 3 personagens tão diferentes?
Mauro Boselli: Ao escrever histórias eu nunca fiquei sem inspiração porque, quando não tenho ideias para a história X, passo à história Y, que naquele momento me estimula mais. Assim dou-me o tempo para achar ideias. Enquanto escrevo uma história, o inconsciente também trabalha para as outras, que naquele momento estão “adormecidas”. Em todo caso, sempre que me sento à máquina de escrever para retomar uma história interrompida, RELEIO e penso em tudo que escrevi daquela história até aquele momento, para não perder o fio da meada e para “reentrar” na atmosfera da aventura em questão. A diferença de géneros entre as três personagens é outro factor que ajuda.

Qual é a importância de Tex, Zagor e Dampyr na sua vida?
Mauro Boselli: Bem, por sorte a vida, a real, não é feita só de quadradinhos! Mas se estamos a falar da vida profissional e das satisfações que pode dar, Zagor foi - como eu esperava que seria desde anos antes de começar a escrever - a verdadeiro primeira personagem com quem me envolvi com sucesso; Tex é a personagem a quem sou mais ligado em absoluto, também pelos já citados entrelaçamentos com a vida real e com os afectos reais; e Dampyr é a primeira personagem criada por mim (com Maurizio Colombo) que consegui fazer com que fosse publicado!

Zagor renasceu consigo e com Moreno Burattini. Como aconteceu essa sinergia?
Boselli: Na época (era 1989) o editor de Zagor era Renato Queirolo, meu colega de redacção já nos tempos de Orient Express. Ele também acompanhava Mister No e Nick Raider (realmente um supertrabalho!) e, para ajudá-lo, também trabalhei um pouco com os dois títulos, mas os argumentos para Nick nunca se tornaram roteiros. Para Mister No eu escrevi uma única história e, como eu já sabia há anos que aconteceria, dediquei-me a Zagor..
Meu primeiro roteiro publicado foi “A Chama Negra”, de um texto de Ferri, e depois veio a minha colaboração com Marcello que me levaria à minha estreia em Tex. Eu e Queirolo idealizamos um renascimento zagoriano a partir de uma “viagem” cheia de imprevistos para o Espírito da Machadinha. Pareceu-nos óbvio que, além de mim, as histórias também seriam escritas por Burattini, que já havia estreado na série regular com aventuras muito clássicas e apreciadas pelos leitores. O ciclo de histórias todas ligadas entre si (uma novidade parcial, mas também um retorno ao estilo do Zagor de Nolitta) teve um grande sucesso, que pôde ser verificado no inesperado aumento de vendas. No início da experiência, Bonelli passou-me a editoria de Zagor, e Queirolo concentrou-se em Nick Raider. Burattini tornou-se o meu braço direito zagoriano, até que, anos depois e com o crescimento de meus compromissos com o nascimento de Dampyr, aos poucos eu lhe passei todas as árduas tarefas e agora o editor de Zagor é, com toda a competência, ele! Entre nós nunca houve uma rusga sequer, e ele é seguramente o autor que menos “maltratei”. Quase nunca pedi a ele para reescrever uma cena. Os outros roteiristas passam mal, porque para eles é uma experiência quase diária!

Passemos a Dampyr: a história “O Marido da Vampira“, cuja acção desenrola-se em Portugal, tem como ponto de partida o romance Ines de la Sierra, de Charles Nodier, ambientado no castelo de Ghismondo, peto de Barcelona. Porque você decidiu transferir o cenário da história para Portugal?
Mauro Boselli: Porque eu conheço Portugal, mas não conheço a Sierra Morena! E porque eu quis fazer assim!

Nesta história há um grande realismo na representação do povoado fictício de Riba Preta. Você já esteve em Trás-os-Montes? E qual foi o povoado real que serviu de base para Riba Preta?
Mauro Boselli: Eu usei várias paisagens e povoados da região, mas como misturei as fotos, não saberia dizer quais, desculpe.

Você pensa em outra aventura de Dampyr em Portugal?
Mauro Boselli: Se eu tiver uma boa ideia. Quem sabe vocês possam me sugerir.

Dampyr chegou ao número 100. Qual é o futuro desta personagem que nos surpreende a cada número?
Mauro Boselli: É bom saber que vos surpreende. Se é assim, então é melhor não revelar nada, excepto um detalhe: será surpreendente!

Quais quadradinhos você lê actualmente? Com quais mais se identifica?
Mauro Boselli: Eu conheço bem a história da BD mundial, mas actualmente quase não leio mais quadradinhos, porque prefiro dedicar o meu tempo a ler outras coisas. De tudo! Mas releio, isso sim, os grandes clássicos da BD do passado.

Além de BD, que tipo de livros você lê? E quais são as suas preferências no campo do cinema e da música?
Mauro Boselli: Para esta resposta um volume não bastaria. Aprecio muitos tipos de música: clássica, lírica, jazz, rock e folk… Billie Holiday, Django, Verdi, Mozart, Charles Trenet, Creedence… E também no campo das leituras, tanto ficção quanto não-ficção, não tenho muitos limites… leio no mínimo uns cem livros por ano. Quanto ao cinema, prefiro o clássico, sem qualquer dúvida.

Mauro, em nome do blogue português do Tex, agradecemos muito pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 00:12:15 | Permalink | Comments (6)

Tuesday, March 10, 2009

Entrevista exclusiva: MORENO BURATTINI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Enzo Pedroni e Sérgio Sousa na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex e Zagor para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Moreno Burattini, bem-vindo ao blogue português de Tex. Vamos começar com uma autoapresentação e um breve percurso da sua carreira.
Moreno Burattini:
Eu nasci em 7 de Setembro de 1962 em San Marcello Pistoiese, uma pequena cidade de montanha, na região da Toscana. Dois anos depois, em busca de um trabalho melhor e de melhores condições de vida, meus pais mudaram-se para as vizinhanças de Florença. Eu cresci às margens do rio Arno, com três irmãs que nasceram depois de mim. Mas todos os Verões eu voltava à casa dos meus avós, e com isso mantive uma relação estreita com a cidade onde nasci, que também é um local onde as pessoas passam as férias. Frequentei o Liceu Clássico na cidade de Prato (o mesmo frequentado pelo poeta Gabriele D’Annunzio) e depois a Faculdade de Letras, na Universidade de Florença. Acho que fui o primeiro da família a obter um diploma. Mas antes de me formar, eu comecei a escrever artigos, contos, comédias e quadradinhos. Primeiro em fanzines e revistas amadoras - na época era onde se ganhava experiência - e depois, levado pela minha enorme vontade de fazer, comecei a ter meus trabalhos publicados de forma profissional. Minha primeira BD distribuída em quiosques saiu na revista “Monstros”, em Setembro de 1990. Poucos meses depois, em Maio de 1991, aconteceu a minha estreia na Bonelli, com a minha primeira história de Zagor. Hoje sou o roteirista de Zagor com o maior número de páginas depois de Sergio Bonelli e sou o editor da série. Mas além de Zagor, também escrevi roteiros de muitas histórias aos quadradinhos de Chico, Lobo Alberto e Cattivik (n.t.: estes últimos são dois dos maiores sucessos cómicos da Itália), alguns de Comandante Mark e histórias curtas para várias revistas (de Intrépido ao Jornal dos Mistérios). Além disso, jamais parei de escrever artigos e ensaios sobre os quadradinhos.

Que lugar tiveram os quadradinhos, principalmente os bonellianos, na sua infância?
Moreno Burattini:
Eu leio BD desde criança, desde antes mesmo de ir à escola, porque antes mesmo de aprender a ler eu passava horas a folhear as revistas e a olhar as figuras. Naturalmente no início tratava-se de revistinhas Disney, ou de Cucciolo e Tiramolla, ou Trottolino e Nonna Abelarda (n.t.: quatro personagens históricos da BD italiana). Quando aprendi a ler, eu esperava com impaciência o dia da chegada aos quiosques do novo Mickey Mouse. Quando li a primeira aventura de Zagor eu tinha uns sete ou oito anos. No começo eu lia os quadradinhos e depois trocava com os meus amigos, eu não os guardava.
Um dia, na casa de um colega de escola, eu vi um armário cheio de revistas de Zagor, todas arrumadas uma ao lado da outra. Eu percebi que a coisa tinha um lado prático: o meu amigo podia reler a qualquer momento as histórias que mais gostava. Eu aproveitei e pedi emprestado “Lo spettro” (n.t.: Zagor n° 30, Ed. Vecchi, no Brasil): eu sabia que no final da edição anterior Zagor havia sido amarrado a uma rocha e as águias desciam ameaçadoras, a desenhar círculos cada vez menores no céu, para devorá-lo. Como ele faria para se salvar? Eu me perguntei isso durante meses. Graças à colecção do meu amigo eu descobri que, no último momento, Chico chegou para libertar o amigo em dificuldade! Eu decidi que não me livraria mais de nenhum Zagor. Eu comecei a tirar camisas e calças dos armários para dar lugar às minhas revistas, não só Zagor mas também Tex, Mark, Mister No. E também Alan Ford (e tudo o que o autor Max Bunker fazia). Eu também tinha assinatura do “Messaggero dei Ragazzi“, que na época publicava belíssimas histórias de Dino Battaglia, Sergio Toppi, Attilio Micheluzzi. Eu acompanhava um pouco os super-heróis americanos, principalmente o Homem-Aranha e o Quarteto Fantástico, mas eu preferia muito mais os autores italianos, aí incluídos os das revistas Monello e Intrépido.

Como você se tornou escritor de Banda Desenhada? Foi por vocação ou por acaso? E quais foram as suas influências?
Moreno Burattini:
Desde pequeno eu escrevia fábulas e contos: primeiro em cadernos, com a minha caligrafia de menino, depois com a máquina de escrever, quando meu pai deu-me uma de presente. Na adolescência eu passava as tardes e noites a escrever de tudo, até comédias, em vez de sair para jogar à bola com os meus colegas de escola, como a minha preocupada mãe me dizia para fazer. Meus pais não liam o que eu escrevia, não entendiam porque eu tinha tanta paixão pela escrita e pela leitura. Mas jamais me colocaram obstáculos. Na verdade eu não havia decidido ser um escritor de BD, mas um escritor de tudo. Eu também era um grande devorador de romances (comecei com Verne e Salgari, depois descobri aquele que ainda hoje é o meu preferido, Isaac Asimov) e sonhava que um dia eu também escreveria aquelas coisas. Mas ser roteirista de quadradinhos não foi um retrocesso. Ao contrário: desde o início eu me iludia que escrevia contos, mas eram roteiros de BD. Eu percebi qual era o meu caminho quando me dei conta desta simples mas fundamental verdade. E, de facto, eu nunca consegui escrever um romance, mas publiquei quinze mil páginas de quadradinhos. Sinal de que este é o meu talento.

Quando e como foram publicados os seus primeiros trabalhos?
Moreno Burattini:
Meu começo foi a escrever para fanzines, pequenas revistas amadoras feitas por aficionados. Elas não foram um meio para eu chegar em outro lugar, foram um componente do meu aprendizado, o modo como aprendi e me exercitei. Eu nunca colaborei com um fanzine ou criei uma revista (e criei duas, Collezionare e Dime Press) com a ideia de depois abandonar aquele mundo, quando tivesse chegado ao ponto em que queria chegar. Ao contrário, sempre fui levado pela paixão e ainda hoje colaboro gratuitamente com revistas e projectos, como acontece com um verdadeiro aficionado que não trabalha pelo lucro, mas pelo prazer de se envolver, de realizar alguma coisa. Desde que recebi de presente do meu pai aquela máquina de escrever, tive artigos e textos de todo tipo publicados em todos os fanzines ou revistinhas que eu conhecia, tanto os da escola quanto os da paróquia. Depois fui um pouco mais além e mandei contos de ficção científica às revistas do sector, que publicaram alguns (um foi até traduzido em húngaro). Também ganhei dois prémios como autor de fábulas infantis.
Aí comecei a escrever comédias, que ainda hoje são representadas em teatro. Por fim, comecei a ter artigos e ensaios publicados em uns dez fanzines e revistas especializadas em crítica de BD. A primeira história aos quadradinhos que fiz em nível bastante profissional - apesar de ainda ser amadora, e sem contar as divertidas tentativas feitas quando garoto - foi “Battista il Collezionista” (Batista, o Coleccionador). Ele apareceu em todas as edições do fanzine “Collezionare” (que durou de 1985 a 1991, e teve 20 edições), e depois virou antagonista de Cattivik em três histórias do Génio do Mal (com o ‘de acordo’ do autor Silver). A prestigiosa revista “If” da editora Epierre anexou uma revista de Battista como brinde à sua edição monográfica dedicada ao coleccionismo de quadradinhos. Entre os desenhadores também figurou Francesco Bastianoni, de Nathan Never, mas as primeiras histórias eu mesmo desenhei. Battista também teve uma versão “apócrifa” (não escrita por mim, mas por terceiros com minha autorização) publicada numa edição distribuída em lojas de BD, não em quiosques.
É uma personagem de grande potencial humorístico e aventuroso, porque por ser um coleccionador maníaco sempre à caça de exemplares que faltam nas suas absurdas colecções (ele colecciona de TUDO), pode ser enviado a qualquer lugar do espaço e do tempo em busca de qualquer coisa. Nós o vimos procurar papiros em quadradinhos, selos fósseis, moedas de esquimós, tocos de cigarro de Yanez, cartões postais de Ulisses. Com Battista se vêem outras personagens com mais ou menos frequência: a namorada Michelina, que o segue resignada em suas buscas, sempre a tentar inutilmente convencê-lo a não fazer loucuras; o amigo Filiberto, envolvido contra sua vontade; o rival Salvatore. A namorada Michelina gostaria que Battista dedicasse a ela todas as atenções que o amado direcciona às colecções, mas só consegue quando ele conclui uma missão. Battista tem uma casa com uma batcaverna subterrânea onde ficam seus exemplares de maior valor; às vezes a sua casa-museu é aberta ao público, e graças a isso o nosso herói recolhe fundos para continuar com suas incríveis buscas de peças de colecção as mais inacreditáveis.

Como nasceu seu relacionamento com Sergio Bonelli? Fale um pouco de seus primeiros passos como roteirista, das dificuldades que teve.
Moreno Burattini:
O sonho de escrever Zagor eu sempre tive, mesmo sem saber como poderia realizá-lo. Eu até me sentia incapaz. Enquanto o roteirista do herói era Nolitta (aliás Sergio Bonelli), eu perguntava-me impressionado como ele conseguia criar aventuras tão bonitas, e eu pensava que jamais conseguiria sequer me aproximar de sua grandeza. Mas quando Nolitta parou de escrever Zagor (para grande tristeza de todos os zagorianos, entre os quais me incluo), eu já era grande o suficiente para sentir que poderia competir com alguns de seus sucessores. Claro que eu estava errado, eu tinha muito a aprender e muita estrada para andar. Mas o sonho existia e, de consequência, eu me exercitava, me documentava, buscava com avidez estudar tudo o que poderia me servir para me tornar um roteirista de quadradinhos.
Desde muito cedo, ou seja, desde que eu tinha onze ou doze anos, eu enviava várias cartas a Sergio Bonelli cheias de observações e críticas sobre as revistas que ele publicava. Bonelli devia achá-las interessantes porque não só me respondia como até telefonava para a minha casa para comentá-las. Ainda me lembro de uma ocasião, quando eu havia recém voltado da escola, o telefone tocou e uma voz me disse: “Eu sou Sergio Bonelli”. Eu pensei que era uma brincadeira, mas era verdade! Lembro-me que, por telefone, ele me antecipou o retorno de Supermike numa história escrita por Castelli. Quando, com meus amigos, comecei a fazer o fanzine “Collezionare“, a escrever artigos e sair à caça de entrevistas, acabei por conhecer um grande número de pessoas ligadas ao sector, entre os quais - enfim pessoalmente - Sergio Bonelli. Ele até perguntava por mim nas mostras, quando via à venda nos stands a revista “Collezionare”.
Como eu era bastante severo com as histórias de Zagor dos anos Oitenta, o próprio Bonelli me disse: “Bem, porque você não tenta escrever uma?”. Eu aceitei o desafio e apresentei-lhe um argumento para ser examinado. Claro que não foi aceite e, à luz da minha experiência de agora, não era de se espantar: estava cheio dos clássicos erros dos amadores. Foram necessários dois anos de tentativas antes que a editora achasse boa uma proposta minha e me autorizasse a fazer o primeiro roteiro. Isso foi em 1989, e desde então não parei mais. Eu tive a sorte de apresentar-me num momento em que as vendas iam muito bem, há pouco havia acontecido o “estouro” de Dylan Dog, novos títulos estreavam e as equipas aumentavam. Não havia trabalho apenas no círculo bonelliano, mas em todo o mercado italiano. Em resumo, era um período em que quem tinha um pouco de talento podia ter uma oportunidade (e é claro que havia uma selecção). Hoje a situação é bem diferente, mas mesmo depois de vinte anos, eu continuo a me sentir testado cada vez que Bonelli lê uma história que escrevi.

Hoje você é o editor de Zagor. Pode nos contar em detalhes quais são as suas funções nesse prestigioso encargo?
Moreno Burattini:
Tento o mais possível separar essa função daquela de roteirista, de modo a poder avaliar também o meu trabalho de autor com a atenção que dedico aos outros. Afinal, o que me é exigido é colocar sobre a mesa do editor geral, todos os meses, uma história boa o suficiente para ser publicada, e que seja uma história minha ou de outros, não faz diferença. O que conta é que Sergio Bonelli fique satisfeito, e depois dele os leitores. Como Bonelli é não só o editor geral mas também o criador da personagem, é evidente que seja afeiçoado à sua criatura e, por isso, exigente. Quando devo rejeitar uma ideia de um colaborador, acontece sempre depois que rejeitei dez ideias minhas (porque todas as noites penso em como resolver, no melhor modo possível, as cenas das histórias que estou a escrever eu mesmo; descarto todas as soluções não satisfatórias e busco outras melhores).
Assim, como sou severo comigo mesmo, também sou com os outros. Mas não sou brusco ou deseducado no meu modo de explicar as razões de cada recusa, e creio que todos os meus colaboradores podem confirmá-lo. Falo serenamente com todos, apresento as razões, discuto, proponho soluções, ouço mais do que falo. Quando comecei a escrever Zagor, o editor da série era Renato Queirolo. Foi ele quem chamou à equipa também Mauro Boselli, quando eu já estava lá (por isso, no aspecto “zagorianidade“, eu sou mais antigo do que ele). Pouco depois Boselli tornou-se o editor da série, cargo que ocupou até o final de 2006. Certamente o longo período em que Zagor esteve sob a supervisão de Mauro Boselli permitiu à personagem explorar novos territórios e ter publicadas certas histórias que, no passado, não seriam apresentáveis. Mauro teve a coragem de sustentar projectos inovadores, dele e de outros - eu, inclusive.
Sob a sua condução, o título conseguiu manter-se a passo com os tempos também do ponto de vista dos esquemas narrativos e das técnicas de roteiro; além disso, ao já rico microcosmo de personagens e coadjuvantes agregaram-se novas e interessantes figuras, amigas e inimigas. Em 2001 eu também fui chamado a trabalhar internamente na redacção, como braço direito de Boselli na supervisão de Zagor, visto que Mauro também devia ocupar-se de Dampyr e das suas histórias de Tex. Assim eu tive alguns anos de aprendizado até que, no início de 2007, tomei seu lugar como editor da série (evidentemente eu fui convidado, não pedi para assumir esse encargo), de modo que Boselli ficasse livre para acompanhar mais e melhor seus outros projectos. Porém, fora o facto de que meu nome começou a aparecer nos créditos das revistas (“editor Moreno Burattini”), na prática eu simplesmente continuei a fazer o que já fazia há tempos, pois como colaborador de Mauro eu já acompanhava a maior parte do trabalho nas edições do Espírito da Machadinha. A minha função é revisar todas as passagens de realização das histórias, do argumento ao roteiro, do desenho ao letreiramento, até a leitura das provas e a impressão. Leio, releio, corrijo e corrijo de novo texto e desenhos, e busco apresentar todos os meses (primeiro ao director, depois ao editor geral e por fim ao leitor) a melhor revista que possa nascer da minha capacidade e da dos outros colaboradores.

O facto de se ter tornado o editor da série afectou a sua actividade de roteirista, ou seja, diminuiu o seu ritmo de criação?
Moreno Burattini:
A minha actuação na redacção, embora trabalhosa, por sorte não afectou muito a minha actividade de roteirista. Um pouco porque, com a experiência, consigo trabalhar com mais eficácia do que antigamente e, de consequência, consigo escrever as mesmas páginas de antes com um mínimo de rapidez a mais, e um pouco porque eu sempre fui um roteirista um tanto lento e pensativo, por isso não posso diminuir muito o ritmo senão eu pararia. Quando só escrevia roteiros e trabalhava em casa, eu produzia de oitenta a cem páginas por mês, e escrevo a mesma quantidade hoje, também a trabalhar na redacção.

Ainda no tema, uma curiosidade: a inspiração. Quando escreve suas histórias, a coisa vem fácil, você escreve meio por impulso, ou os seus roteiros geralmente são um fruto elaborado e atormentado?
Moreno Burattini:
Infelizmente, por carácter, eu sou bastante racional e, por isso, não consigo escrever totalmente por impulso. Eu tenho que pensar muito, calcular os prós e os contras de cada escolha, calibrar os diálogos, buscar soluções se possível não muito previsíveis, tanto para a ambientação quanto para o desenvolvimento da trama e para as soluções. Além disso, eu sei que estou a envolver-me com uma personagem que tem atrás de si quase cinquenta anos de vida, uma tradição a respeitar, sem falar dos exigentes leitores a se contentar e de um editor que é também o criador e primeiro roteirista e a quem devo muito justamente prestar contas. Há o suficiente para que, antes de ficar satisfeito com uma página, eu deva pensar bastante.

Actualmente a maior parte das histórias tem uma quantidade limitada de páginas. Você concorda com esse limite? Não acha que isso restringe a liberdade criativa dos escritores? Que processos você usa para fintar esse facto?
Moreno Burattini:
Por sorte Zagor não tem limites de páginas, como acontece com Dylan Dog ou Dampyr; podemos fazer histórias de duas, três edições: desde sempre as histórias de Zagor são assim (só mudou o facto de que se busca fazer uma história acabar no fim da revista, em vez de se fazer edições com o fim de uma trama e o início de outra). O Espírito da Machadinha já desenvolveu características tais que suas melhores histórias são as longas (duas ou mais edições) e todos os roteiristas têm dificuldades com as mais curtas (os próprios leitores dizem que ficam um pouco cépticos e perplexos diante de histórias em uma só edição). Porém, para outras personagens, nascidas e crescidas em 94 páginas, autores e leitores ficam perfeitamente à vontade com essa quantidade e não creio que seja um limitador, nem que restrinja a liberdade criativa dos roteiristas. Em outras palavras, cada personagem tem suas características: para Dylan Dog, alongar as histórias para além de duzentas páginas é um problema; para Zagor, ao contrário, é um problema descer a menos de cem. Por sorte o problema não é colocado com muita frequência nem para uma, nem para a outra personagem (se bem que isso acontece com os Almanaques Aventura, no caso de Zagor, e nos Dylan Dog Gigante com uma história única, no caso do Investigador do Pesadelo).

Quais são os elementos narrativos aos quais você dá maior importância numa história: ritmo, trama, personagens, diálogos, acção…
Moreno Burattini:
Ritmo, trama, personagens, diálogos e acção são todos elementos importantíssimos. Tanto que é quase impossível dizer qual seja mais importante que os outros. Mas eu diria que, no caso de Zagor, antes disso tudo vem a coerência da história com a tradição, o respeito à tradição, aquilo que se pode chamar de “zagorianidade“. Eu concordo com Giancarlo Berardi quando ele diz que uma boa história é aquela que tem boas personagens e, logo, as boas personagens são fundamentais; mas acrescento que, do meu ponto de vista, as boas personagens são aquelas que fazem coisas interessantes, por isso a trama é igualmente fundamental.

O Homem do Rifle” ainda hoje é considerada por muitos como a sua melhor história: você concorda? E quais você considera as suas melhores histórias?
Moreno Burattini:
Nenhum autor é o melhor juiz de si próprio. Os leitores costumam dizer que “O Homem do Rifle” (n.t.: Zagor Especial 5, Brasil e Portugal) é uma bela história, e eu gosto disso porque eu também acho que é uma boa aventura. Mas na sondagem feita por um fórum italiano, a minha história mais apreciada é “O Pântano dos Condenados” (n.t.: Zagor Especial 6 e 7, Brasil e Portugal). Também nesse caso eu concordo. E, depois dessas duas, creio que todas as minhas histórias com Mortimer sejam dignas de leitura.

Você escreve histórias de Zagor há uns vinte anos e, a se considerar o tempo que dedicou à personagem também como leitor, podemos dizer que dedicou ao herói praticamente toda a sua vida. Você não está saturado? Como ainda consegue encontrar a motivação e a inspiração para continuar?
Moreno Burattini:
Zagor aceita tantas contaminações com os mais diversos e disparatados géneros, que não há o risco de que possa entediar. Diferente de outros heróis que são só faroeste, ou só terror, ou só policial, o Espírito da Machadinha pode viver aventuras a trezentos e sessenta graus, feita excepção - que pena - ao erótico. Além disso, eu não o sinto como uma personagem “de outro”, mas como a personagem de quem eu sempre quis escrever: por isso eu sinto-me perfeitamente realizado ao trabalhar em suas histórias. Talvez seja por isso que jamais propus a Bonelli personagens minhas, séries minhas. A minha personagem e a minha série são Zagor.

Você ainda sente prazer ao ler histórias de Zagor, depois de todos esses anos passados a escrever as suas aventuras?
Moreno Burattini:
Para minha sorte, sim.

A dupla Boselli/Burattini é actualmente responsável pela maior parte das histórias de Zagor, assim como pela sua “ressurreição” quando a personagem estava em crise. A Boselli geralmente são atribuídas as histórias sobrenaturais e fantásticas, e a si aquelas consideradas “normais”. Como é processada a selecção das histórias e como é o relacionamento entre vocês?
Moreno Burattini:
É verdade que hoje há um entusiasmo notável em volta de Zagor, coisa que provavelmente não se respirava há vinte anos.
Eu e Boselli até conquistamos juntos um prémio “Gran Guinigi” no salão de Lucca como melhores roteiristas, justamente pela contribuição ao renascimento zagoriano. Infelizmente há uns dois anos a valiosa contribuição de Mauro Boselli a Zagor reduziu-se ao mínimo: extremamente ocupado com Tex e Dampyr, os seus roteiros para o Espírito da Machadinha rareiam. Mas ele está a trabalhar em dois. Não há qualquer critério particular para dividir entre nós as histórias fantásticas ou realistas. Eu proponho as minhas, ele propõe as dele, com base em nossos gostos, na nossa índole, na inspiração. O relacionamento entre nós dois é de estima e amizade. Partilhamos a mesma sala e encontramo-nos todos os dias. Nós ficamos bem à vontade ao trabalhar juntos. Como nossas mesas ficam uma em frente à outra, nós trocamos sugestões.

Como descreveria o seu relacionamento com Sergio Bonelli? Ele dá total liberdade na construção das histórias ou a supervisão é estreita?
Moreno Burattini:
Com o tempo Sergio Bonelli aprendeu a confiar em mim e concede-me muita liberdade porque sabe que, afinal, eu sou um que procura seguir o seu exemplo e as suas lições, o mais nolittiano de seus sucessores e, principalmente, um colaborador sinceramente apaixonado pela sua personagem. Por isso tudo o controle de Sergio é posterior, isto é, ele lê com extrema atenção tudo o que eu escrevo, quando a história já está desenhada, mas isso não o impede de pedir que sejam feitas as correcções que ele considera que devem ser feitas. Nós trocamos ideias antes que cada edição seja impressa. E, por meio de reuniões periódicas, nós avaliamos a situação e a programação. Apesar de conhecê-lo há mais de vinte anos, continuo a sentir-me um estudante diante do mestre cada vez que o vejo examinar um trabalho meu, e creio que também ele continue afectuosamente a identificar-me com o rapazola que, tantos anos atrás, lhe enviava cartas e escrevia em fanzines.

Cada um de nós tem as suas preferências com relação às pessoas com quem se gosta de trabalhar. Com quais desenhadores você trabalha melhor? Como é o relacionamento entre vocês?
Moreno Burattini:
Talvez seja devido ao meu carácter, mas sinceramente sinto-me muito bem com todos os desenhadores com quem trabalho. É evidente que alguns são mais fiéis aos roteiros, enquanto outros me surpreendem pelo modo como conseguem interpretá-los e melhorá-los. Mas também é evidente que há casos em que alguém “trai” o meu texto, ou o interpreta errado, mas basta uma pequena troca de ideias para que, juntos, achemos uma solução. Sou muito amigo, mesmo fora do trabalho, de autores como Mauro Laurenti e Gallieno Ferri. E tenho uma óptima sintonia com Marco Verni, Gianni Sedioli e Pino Prisco. Alessandro Chiarolla declara-se meu “fã” e pede que eu escreva para ele sempre que possível, e eu fico lisonjeado porque Sandro é uma pessoa fantástica e um verdadeiro artista, além de veterano dos quadradinhos italianos. Os irmãos Esposito impressionaram-me pelo entusiasmo com que se chegaram a Zagor. Marco Torricelli é um desenhador que pede envolvimento absoluto com a história que está a desenhar e é muito bom procurar criar uma sob medida para ele, porque assim pode dar o máximo (e vale a pena, porque o seu máximo é mesmo extraordinário). Raffaele Della Monica é um profissional com quem qualquer autor ficaria feliz de poder trabalhar e, humanamente, é uma pessoa simpática e agradável. De Joevito Nuccio eu não falo porque a sua primeira história ainda não foi publicada, mas passamos as férias juntos na sua belíssima Sicília e isso já dá uma ideia positiva do que penso dele. Michele Rubini já é mais que uma promessa, é uma promessa cumprida: não vejo a hora de voltar a fazer um roteiro para ele, depois que Boselli o tomou para si. Os irmãos Gaspare e Gaetano Cassaro são dois gémeos, e eu sempre vejo só um deles, Gaetano. Mas será sempre o mesmo ou eles se alternam nas visitas à redacção? São óptimas pessoas que sempre vejo com prazer, quem quer que seja.


Hoje acontece com frequência que histórias de Zagor não sejam ambientadas em Darkwood; não seria o caso de voltar a ambientá-las por ali?

Moreno Burattini: Na verdade as histórias ambientadas em Darkwood e aquelas fora dali alternam-se para contentar todo o mundo. A floresta de Darkwood é uma grande invenção de Sergio Bonelli, uma espécie de grande palco cheio de cenários intercambiáveis para todos os géneros de aventura e não há motivos para abrir mão das infinitas potencialidades que um local desse tipo oferece a desenhadores e roteiristas. Se algumas vezes nós nos afastamos (mas não acontece com tanta frequência) é só para explorar também as potencialidades de outros cenários da realidade histórica e geográfica, para explorar todo o explorável em busca de histórias interessantes para contar aos nossos leitores.

Você escreve mais de uma história ao mesmo tempo? Como consegue manter a dinâmica de cada história e “pular” de uma para outra continuamente?
Moreno Burattini:
Sim, eu escrevo umas dez histórias de cada vez, sempre a alternar de uma para outra, sempre a seguir em paralelo, dez, vinte ou trinta páginas por vez. Em vez de ser um problema, isso é uma vantagem porque, ao parar num certo ponto da narrativa para passar a outra história, tenho tempo de pensar em como prosseguir quando voltar àquela que interrompi.

Pode nos antecipar, em linhas gerais, as próximas histórias zagorianas, no que diz respeito a viagens, inimigos, ambientações?
Moreno Burattini:
Há uma longa viagem a caminho, que levará Zagor à América do Sul: mas ela só vai começar depois dos festejos pelos cinquenta anos da personagem, previstos para 2011! Teremos tempo para voltar a falar disso. Quanto aos inimigos, durante 2009 voltaremos a ver Mortimer e Ylenia.

Hoje que você já é um roteirista bonelliano afirmado, gostaria de escrever para Tex? Já recebeu essa proposta?
Moreno Burattini:
Eu gostaria de escrever Tex, assim como um jogador de clube gostaria de ser convocado para a selecção. Mas isso nunca me foi proposto.

O que significaria para você escrever uma história de uma lenda dos quadradinhos como Tex, que recém completou 60 anos de vida editorial?
Moreno Burattini:
Seria uma coisa muito emocionante. Para continuar com a comparação de futebol, seria como participar da Copa do Mundo com a selecção.

Na sua visão, quem ou o que é Tex? O que lhe agrada mais e lhe agrada menos no Ranger?
Moreno Burattini:
Tex é um homem que não precisa mentir ou fingir ser tolerante, sempre sabe tomar a decisão certa diante das dificuldades da vida, não baixa a cabeça diante dos prepotentes e arrogantes, não vira o rosto ao ver injustiças, tem a sua moral sem ser moralista, olha directo nos olhos de qualquer pessoa e entende quem está realmente por trás de cada olhar. De Tex eu gosto da capacidade de ser ele mesmo em todas as circunstâncias. Não gosto do facto que ele fuma.

O que faz de Tex o ícone que ele é?
Moreno Burattini:
Tex é o homem que todos gostaríamos de ser.

Qual é a sua história preferida de Tex? E o desenhador do Ranger que mais lhe agrada? E o roteirista?
Moreno Burattini:
É difícil escolher. Bem, eu escolheria “O Filho de Mefisto“. Seguida por “El Muerto“. Quanto ao desenhador, à exclusão de Galep porque é uma resposta muito fácil, eu diria Civitelli e Ticci, empatados. Como roteirista, talvez porque sou um zagoriano e nolittiano de ferro, confesso ter um fraco pelas histórias de Tex escritas por Sergio Bonelli com o nome de Guido Nolitta.

Temos certeza que, mais dia, menos dia, leremos histórias de Tex escritas por si. Já pensou em como poderia ser?
Moreno Burattini:
Não partilho essa certeza, ainda mais que recentemente foram chamados a escrever histórias de Tex óptimos roteiristas, bem mais cotados que eu. Mas como às vezes costumo fantasiar, sim, tenho algumas ideias sobre histórias que eu poderia escrever.

Em 2007 tivemos em Portugal uma antecipação mundial de quinze novos desenhadores de Tex. Isso poderia significar um novo rumo na vida da série?
Moreno Burattini:
Entre série regular, Maxi (Tex Anual), Texoni (Tex Gigante) e Almanaques, Tex exige uma grande produção de páginas. Logicamente, é necessária uma grande equipa, mesmo porque os jovens desenhadores produzem menos que os de antigamente, e aqueles de antigamente não são mais tão rápidos como eram. Sergio Bonelli seleccionou autores muito bons, e escolheu-os entre os que podem dar a sua contribuição pessoal sem perder de vista o respeito à tradição. O possível “novo rumo” está todo aqui: nova seiva vital num tronco já consolidado.

Ultimamente também tem havido um reforço de roteiristas. Você acha que isso era inevitável? E, com tantos roteiristas, não há o risco de se ver Tex desnaturado?
Moreno Burattini:
Os novos roteiristas são tão indispensáveis quanto os novos desenhadores. E, visto o calibre dos profissionais (que não são tantos assim, dá para contar nos dedos de uma mão), não há dúvida de que saberão respeitar a tradição sexagenária da personagem.

Você acha que Tex mudou nos últimos anos? Sob quais aspectos?
Moreno Burattini:
Eu receio que, às vezes, há atenção excessiva em relação ao politicamente correcto. As histórias de Giovanni Luigi Bonelli eram mais audaciosas e não havia o temor de escandalizar. Porém, eu entendo que os tempos mudaram.

E como você vê o futuro do Ranger?
Moreno Burattini:
Uma personagem que ultrapassou a marca dos sessenta anos em forma como Tex, pode aspirar sem problemas à passagem dos cem. A única dúvida que fica é se os quadradinhos impressos em papel serão tão longevos.

Além de Zagor, a quem dedicou quase toda a sua vida profissional, você gostaria de escrever para quais outros personagens, além de Tex? Porque?
Moreno Burattini:
Eu gostaria muito de escrever um “romance em quadradinhos” ou uma minissérie de uns doze volumes, a exemplo de Volto Nascosto (n.t.: Rosto Escondido), ambientada na Itália do Século XVI ou no Risorgimento (n.t.: movimento do início do Século XIX que culminou com a unificação da Itália). Creio que explorar as potencialidades da aventura ligada aos fascinantes cenários do Renascimento ou do Século XIX seria extremamente estimulante. E eventos históricos, como o assédio de Florença em 1530 ou as tramas da república napolitana, poderiam muito bem ser narrados de modo muito aventuroso. Se a pergunta se refere a quais outras personagens da Bonelli me dariam prazer em escrever suas histórias, eu diria Martin Mystère, Dampyr e Dylan Dog.

O mercado de BD está a atravessar um período muito difícil nestes últimos dez anos, e podemos dizer que perdeu leitores. Como você vê o futuro dos quadradinhos, de um modo geral e com relação às publicações Bonelli em particular?
Moreno Burattini:
Às vezes eu penso que em vinte ou trinta anos seremos poucos os que ainda lerão quadradinhos e livros impressos em papel. Isso desagrada-me um pouco, embora eu me console em pensar que, no fundo, sempre terei mais livros e BD para ler do que tempo à disposição, então os meus filhos e netos vão ter que se virar com os meios do futuro e divertir-se como acharem melhor. Mas aí eu imagino que a BD sobreviverá como o teatro sobreviveu ao cinema e o cinema à televisão, ou como a bicicleta ao automóvel. Vamos ver, e será interessante descobrir como teremos de esperar a continuação de uma aventura de Tex na edição seguinte.

Quais personagem você acredita que continuarão a estar presentes nos quiosques da próxima década e qual personagem você se vê a escrever?
Moreno Burattini:
Tex e Zagor certamente estarão lá, e as histórias de Zagor serão escritas por mim (se Bonelli deixar).

Você já se imaginou a escrever para outras editoras, além da SBE?
Moreno Burattini:
Na verdade eu já trabalhei também para as editoras Acme e Macchia Nera, com roteiros de Cattivik e Lobo Alberto. Mas eu estou muito bem na Bonelli, sou muito ligado à empresa.

Que revistas de BD você lê actualmente e quais são os roteiristas que mais aprecia?
Moreno Burattini:
Além dos quadradinhos Bonelli, eu acompanho Rat-Man (n.t.: personagem cómica de enorme sucesso na Itália) e sou um admirador de Leo Ortolani, o seu criador. Também acabei de ler o terceiro volume da série “No Pasaran” de Vittorio Giardino, que é um excelente autor, tanto desenhador quanto roteirista. Em nível internacional, gosto muito de Jean Van Hamme (n.t.: autor da série XIII, que virou filme recentemente).

O Burattini que conhecemos é ligado intimamente a Zagor, quase em simbiose perfeita. Gostaríamos de conhecer também o “outro” Burattini, aqueles das várias actividades profissionais, seus passatempos, gostos na literatura, cinema, música, desportos, comida, etc.
Moreno Burattini:
Para falar do “outro” Burattini seria preciso mais um espaço igual ao que me foi concedido até agora! Digamos que sou uma pessoa curiosa e que lê de tudo e várias coisas ao mesmo tempo. Neste momento, por exemplo, estou a ler o último livro de Stephen King, “Crepúsculo” (uma antologia de contos), a autobiografia de Massimo d’Azeglio, “Minhas Lembranças” e o romance de Gary Jennings, “Nómades“, para uma história que estou a escrever. No cinema eu acabei de ver o musical “Mamma mia!“, logo espero ver o novo filme de 007, e em casa estou a ver os DVDs da série “Deadwood“, que aprecio muito. No campo musical eu sou apaixonado pela música italiana, mas estou sempre aberto a todas as sugestões, tanto que a minha última aquisição foi o CD com os sucessos do conjunto “América”. Não acompanho muito o futebol, mas sou, por tradição familiar, torcedor da Fiorentina, o clube de Florença no qual também jogaram ilustres portugueses (n.t.: os “benfiquistas” Rui Costa e Nuno Gomes). Vou ao ginásio o quanto baste para me manter em forma, e faço trekking na montanha. Aprecio a boa cozinha e sempre visito novos restaurantes, inclusive de cozinha internacional. Gosto mais de doces que de salgados, mais de massas mais que de carne, mais de vinho que de cerveja. Gosto de arte (sempre passeio em museus), de viajar (embora não consiga viajar tanto quanto gostaria), de nadar na piscina (e isso que moro numa cidade que tem praia), de visitar termas (águas quentes e massagens relaxantes), e de passar bons momentos com a minha companheira.

Caro Moreno Burattini, em nome do blogue português do Tex, agradecemos muito pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 00:50:07 | Permalink | Comments (6)

Wednesday, March 4, 2009

Entrevista exclusiva: ALFONSO FONT

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli, Jorge Magalhães e  Luis Sierra na formulação das perguntas e de Tizziana Giorgini na tradução.

Mestre Alfonso Font, bem-vindo ao blogue português de Tex. Pode apresentar-se aos nossos leitores?
Alfonso Font:
Pois, meu nome é Alfonso Font, nasci em Barcelona em 1946 e sou desenhador de banda desenhada e também argumentista de muitas das histórias por mim desenhadas, embora não seja este o caso em relação a Tex.
Moro num povoado perto dos Pirinéus, cercado de montes mas estou ligado com o mundo graças à Internet, ao telefone e a um par de estradas que levam a outros lugares.
Gosto de ler, de passear por estes montes, de catar cogumelos, e também gosto de animais; minha esposa e eu convivemos com três gatos. E não sei que mais posso contar da minha vida sem entediar ninguém…

Que lugar teve a banda desenhada na sua infância?
Alfonso Font:
Na minha infância, não havia televisão em Espanha, o cinema estava submetido à censura dos bispos e acho que os únicos filmes aptos para todos os públicos, fora Bambi ou Peter Pan, eram aqueles sobre as vidas dos santos e temas afins aceites pelo regime do ditador. As histórias aos quadradinhos eram o único refúgio onde poder viver sonhos e emoções ao alcance ergonómico dos garotos que, como eu, têm agora mais de sessenta anos. Portanto, os quadradinhos foram muito importantes para mim.

Como nasceu em si a paixão pelo desenho e em que momento decidiu que essa seria a sua profissão?
Alfonso Font:
Que eu me lembre, sempre me vejo tratando de desenhar algo em folhas soltas, cadernos ou até mesmo nas margens dos livros didácticos. Se via um filme de piratas, não podia deixar, ao chegar a casa, de desenhar galeões e flibusteiros. Penso que acabar sendo desenhador foi um processo inevitável, acho que não houve um momento preciso em que eu tenha decidido: “bem, a partir de hoje passarei a me dedicar a isso profissionalmente”.

Quando trabalhou para o mercado inglês, nos anos 60, antes de se tornar um artista conhecido internacionalmente, que tipo de histórias desenhou? E que lembranças guarda desse período, que permanece tão obscuro na história da BD europeia?
Alfonso Font:
Trabalhava através de agências como Bardon Art ou Selecciones Ilustradas para um mercado tanto europeu como norte-americano. As histórias variavam bastante pois desenhei temas bem diferentes que iam da 1.ª guerra mundial a crimes famosos, passando por vampiros, o monstro de Frankenstein, ou o faroeste.
As minhas lembranças daquele tempo não podem ser más, nem que seja só porque naquela época eu era jovem, e é muito raro que desânimo e juventude formem parceria.

O senhor colaborou com muitos editores, inclusive fora da Espanha. Que trabalhos foram fundamentais até chegar a esse seu estilo tão próprio reconhecido internacionalmente?
Alfonso Font:
Para ser sincero, acho que quando se está a começar nesta profissão, qualquer coisa de que se goste, por pequena que seja, acaba por nos influenciar de alguma forma. Cada vez que se vê como os diferentes artistas solucionam tecnicamente os problemas a que se enfrentam, por pura admiração gostaríamos de tornar nossos todos esses recursos que nos deixam maravilhado e voluntariamente acabamos nos deixando influenciar. Pouco a pouco, é assim que se vai aprendendo e melhorando o nosso próprio trabalho até que um belo dia, sem se dar conta, começamos a deixar fluir o nosso próprio estilo, que se vai polindo e transformando com o tempo.

Considerando que o senhor tem uma longa carreira recheada de séries famosas como “Os Robinsons da Terra“, “Clarke e Kubrick“, “Alise e os Argonautas“, “O Prisioneiro das Estrelas“, “Táxi“, “Histórias Negras“, “Rohner” e muitas outras, pode dizer-nos qual delas é a sua favorita? E gostaria de retomá-la, um dia, se a oportunidade surgisse?
Alfonso Font:
Cada uma delas preencheu uma pequena parte da minha vida e no seu devido momento também cada uma delas foi a mais importante.
Retomar uma série é mais complicado do que parece. Seria preciso fazê-lo de forma que o leitor soubesse do que se trata sem quiçá ter lido nenhum dos antigos álbuns. Além disso, a criação de cada personagem costuma ser produto de um tempo, de um determinado momento da nossa vida, que é plausível pensar que tenha mudado e possivelmente o espírito dessa personagem, retomado hoje, já não seria o mesmo.

O género de Ficção Científica figura em muitas das suas criações, sendo óbvio que é um dos seus preferidos. Mas, como começou a sua carreira a desenhar “westerns“, sente a mesma identificação com este universo tão peculiar?
Alfonso Font:
O caso é que, na verdade, eu comecei desenhando faroeste, e quando surgiu a oportunidade de desenhar o Tex foi como voltar à minha juventude. Gosto de desenhar e as histórias do Oeste norte-americano pois permitem um amplo leque de possibilidades gráficas; há velhas aldeias rústicas, cavalos, vastas e distintas paisagens, diferentes tribos índias, caubóis, trens, nuvens tempestuosas, neve… enfim, um imenso deleite para quem desenha.

Passemos agora ao Ranger que dá nome a este blogue: como você chegou a Tex?
Alfonso Font:
Há alguns anos atrás, durante a celebração do Salón del Cómic de Barcelona, Sergio Bonelli propôs-me que eu desenhasse um Texone, um desses grandes volumes de publicação anual. Acabou sendo o intitulado “Gli Assassini” com argumento do Mauro Boselli.

Quais foram as primeiras preocupações que a personagem de Tex suscitou em si? E como se preparou para desenhar as histórias de Tex? Já o conhecia profundamente?
Alfonso Font:
Eu conhecia o “Texas Bill” que era o nome com que o Tex tinha sido publicado em Espanha, mas já estava bem longe no tempo e tive de me sujeitar a um novo Tex transformado pelos anos. Recebi um bom número de edições mensais de Tex que foram muito úteis para que eu me actualizasse. Ainda assim, confesso que me custou muito conquistar a personagem e adaptar o meu estilo à série.

Como foi trabalhar com Mauro Boselli como argumentista? E ele o ajudou muito em seu trabalho ou você teve que documentar-se sozinho?
Alfonso Font:
Mauro Boselli?… Mauro Boselli… Maur… ah, sim, acho que é esse amador que escreve uns roteirinhos, não é?… Bah, não está mal, dá para o gasto…
E sabem do que mais? Já o estou a ver agora, pálido, lendo este comentário, com lágrimas nos olhos, com o moral lá em baixo…
Mauro, estou a brincar, fique calmo.
A bem da verdade, o Mauro Boselli surpreendeu-me logo desde o início com o argumento de “Gli Assassini”. Descobri uma história cheia de uma acção sem trégua, da primeira à última página, com uma mudança constante de ambientes e situações complexas, repleta de personagens bem vivazes. E o que é realmente incrível é que agora, depois de alguns anos trabalhando o Tex tendo a ele como único argumentista, posso dizer que as suas histórias nunca caem em repetições, nem de tema, nem de ambientes, nem de personagens, e isso é muito difícil de conseguir. Ele é muito exigente com o trabalho, o que implica que o desenhador não pode relaxar um momento sequer se não quiser cometer erros, mas ao mesmo tempo ele colabora fornecendo toda a documentação gráfica de que dispõe para solucionar uma cena, o que facilita o trabalho do desenhador.
Acho que neste mundo dos quadradinhos falta algum prémio importante que reconheça o trabalho dos bons argumentistas. Nesse caso, o Mauro seria dos primeiros em merecê-lo.

Depois de realizar “Os Assassinos”, começou a desenhar também para a série regular. Já estava tudo previsto?
Alfonso Font:
Não, não estava previsto, mas coincidiu que nessa época eu dei por terminada a minha colaboração com a agência Norma e uma coisa levou à outra.

Pelo que sabemos, você está a desenhar uma nova história de Tex. Pode nos antecipar alguma coisa? Quem é o argumentista, qual a ambientação etc.?
Alfonso Font:
Foi Sergio Bonelli quem decidiu que o Mauro Boselli e eu formássemos uma parceria para Tex, por isso, como já disse antes, todos os roteiros que desenhei foram escritos pelo Mauro.
A nova história tem a ver, de certo modo, com intrigas… Um célebre assassinato, ocorrido há alguns anos atrás, parece voltar à actualidade quando um desconhecido está decidido a desvendar um antigo complô em que há muitos implicados e uma misteriosa vingança começa a tomar forma através de casos que aparentemente não parecem estar relacionados. E não confessarei nada mais a não ser na presença de Mauro Boselli.

Está satisfeito com o trabalho que está fazendo com o “seu” Tex?
Alfonso Font:
Tive um velho mestre de desenho que me disse “no dia em que o senhor estiver plenamente satisfeito com o seu trabalho, terá chegado ao limite das suas capacidades, a partir desse dia já não poderá melhorar mais…” Não sei se se deve à impressão que me causaram essas palavras, mas acho que satisfeito, realmente satisfeito, nunca consegui estar com nenhum dos meus trabalhos.
Outra coisa é se me satisfaz trabalhar com Tex; nesse caso tenho que convir que sim.

Como se define como autor de Tex? Identifica-se de algum modo com algum dos outros anteriores autores?
Alfonso Font:
Como me definiria? Não sei, tento ser honesto no meu trabalho, talvez tudo se resuma a isso. Quanto à segunda parte da pergunta, devo dizer que não, ao menos não conscientemente.

O que significa para si desenhar histórias para uma lenda dos quadradinhos como Tex, que acabou de completar 60 anos de vida editorial?
Alfonso Font:
Primeiro, agradecimento a Sergio Bonelli por confiar na minha capacidade. Segundo, saber que farei parte – ainda que seja uma parte pequenina – da história de uma lenda dos quadradinhos.

Que ambições ainda tem dentro da Sergio Bonelli Editore, com relação a Tex?
Alfonso Font:
A minha ambição continua sendo a mesma que tive durante toda a minha vida: desfrutar com o meu trabalho.

Como é trabalhar para Sergio Bonelli?
Alfonso Font:
À parte de ter trabalho, que isso nos dias que correm é mais do que importante, significa para mim ter tido a sorte de conhecer Sergio Bonelli que me parece, além do mais, uma boa pessoa, um editor honrado que ama o seu ofício, que se sente comprometido com o seu trabalho e que se preocupa com os seus colaboradores. Ele já sabe como penso.

Como é o seu processo criativo? Você faz uma página completa e depois passa para outra? E quais instrumentos de trabalho usa?
Alfonso Font:
Imponho-me completar a página a lápis, o que normalmente consigo em pouco mais de meia jornada e começo a passar a tinta até onde aguento. Às vezes uma única vinheta, outras vezes, meia página…
No dia seguinte começo outra página a lápis e começo a passar a tinta, e assim sucessivamente até completar o trabalho do mês. Nos últimos três, quatro ou, às vezes, cinco dias dedico-me a terminar todas e cada uma das páginas, apagar a sujidade do lápis, a ocultar as pequenas manchas acidentais com têmpera (guache) branca.
Nem sempre trabalhei utilizando este método, mas assim venho fazendo há alguns anos.
O material que uso é cartolina Schoeller, lápis de grafite macio de diversas espessuras, penas Guillot e pincéis de pêlo de marta, e também sintéticos, borrachas macias e rígidas, etc.

Quanto tempo leva para desenhar uma página? Você tem horários? Como é a sua jornada padrão entre trabalho, leituras, manter-se informado, lazer, vida familiar?
Alfonso Font:
Depende da dificuldade da página. Embora muitos opinem o contrário, não sou um desenhador rápido. Como já expliquei antes, é claro que posso terminar uma página em um dia e meio de trabalho, às vezes em dois dias.
Levanto-me cedo, por volta das sete da manhã. Às sete e meia tomo um café com leite – isso é um ritual sagrado – ouvindo as notícias. Saio para caminhar durante mais ou menos uma hora, volto e começo a trabalhar… Almoço por volta da uma da tarde, leio um pouco ou converso com minha esposa sobre coisas que nos apaixonam a ambos. Volto ao trabalho, jantamos, conversamos ou lemos, alguma sessão de cinema às vezes… Nada extraordinário que muita, muita gente não faça.

Como argumentista de algumas das suas séries mais conhecidas, como encararia a hipótese de escrever o seu próprio guião para uma aventura de Tex? E, como conhece bem o Oeste selvagem, qual o cenário que elegeria para essa aventura, ou seja, que tipo de ambientes gosta mais de desenhar em histórias de “cowboys“?
Alfonso Font:
Deixo os argumentos do Tex para o Mauro porque não quero fazer má figura. Quanto aos ambientes, devo dizer que gosto de desenhar o Tex precisamente porque os ambientes são diferentes a cada momento.

Concorda com Sergio Bonelli quando ele diz que a BD “western” tem os dias contados, por falta de adeptos entre as novas gerações, como acontece no cinema, e que nem mesmo heróis de longa data como Tex e Blueberry escaparão à crise?
Alfonso Font:
Não sei. É de se supor que os filmes de faroeste são um género ameaçado, contudo aparecem títulos como “Os imperdoáveis” ou “Dança com lobos” e são tremendos sucessos de bilheteira. Na televisão continuam a passar velhos filmes de bangue-bangue e não deixam de ter fãs. Tex ainda tem muito, muitos amigos…

Na sua opinião, o declínio do género western (salvo casos esporádicos como “Dança com lobos” e “Os imperdoáveis” de há já alguns anos) deve-se à desmistificação que vem acontecendo nos últimos decénios (do western à italiana de Sergio Leone ao cinema revisionista dos anos setenta), ou tem antes que ver com o desinteresse por parte do público e, portanto também dos autores?
Alfonso Font:
Tenho a sensação de que o público em geral “sofre” uma super oferta maciça de cinema, video-jogos, revistas, música… Penso que as antigas companhias cinematográficas deram espaço às grandes multinacionais do negócio do entretenimento que carecem de qualquer outro objectivo que não seja o acúmulo de lucros imediatos e o crescimento perpétuo; se descobrem que os efeitos especiais atraem o público, abandonam tudo o mais e passam a se dedicar apenas a isso. Até a saciedade, até a náusea… Eu já deixei sistematicamente de assistir a filmes de efeitos especiais, já não aguento mais, é sempre a mesma coisa. E acho que não sou o único. A cada dia há mais entusiastas dispostos a recuperar o velho cinema preto e branco tanto americano quanto europeu, a recuperar filmes que têm argumento além de imagens… Quem sabe, se algum dia esses mercadores do espectáculo se derem conta disso, talvez possamos recuperar o cinema de verdade…

Sabemos que o senhor é um leitor apaixonado, entre outras, das obras de Robert Louis Stevenson. O que o fascina mais da narrativa deste autor inesquecível: as histórias de mar (“A ilha do tesouro” e outras) ou as que indagam sobre a ambivalência da alma (“O médico e o monstro”)?
Alfonso Font:
Tudo. Acho que Stevenson é um autor pouco compreendido pela crítica, que lhe atribui uma etiqueta única de escritor para jovens. Uma parte da obra de Stevenson menos conhecida, como os seus contos breves, parece-me extraordinária. Para mim, dentre eles há um - “Olalla” -  do qual me pergunto por que ainda não o utilizei para uma história de banda desenhada.

A ficção científica é outra das suas paixões. Acha que pode haver alguma relação - para citar um exemplo notório - com obras cinematográficas tipo “2001: Uma odisseia no espaço” de Kubrick ou “Guerra das estrelas” de Lucas?
Alfonso Font:
Sou um admirador de Kubrick, daí que uma das minhas personagens de ficção científica se chame assim. Lucas recuperou os velhos romances de ficção, nos quais a fantasia era prioritária acima de qualquer argumento científico e obteve um sucesso merecido, embora para mim, as terceira e quarta partes que pretendem ser retroactivas para passarem a ser as primeiras na saga e nas quais a mão negra das multinacionais do dólar fácil já se faz notar, deixaram de me interessar. Não digo que sejam más, só que a mim já não me interessam.

Nos últimos anos, a Espanha converteu-se económica, social e culturalmente numa das nações mais avançadas da Europa. Como está, hoje, a situação da banda desenhada no seu país?
Alfonso Font:
E vocês acreditam na propaganda dos políticos?…
Qualquer passinho para além da idade média do franquismo pode parecer um passo deslumbrante, mas continua sendo um pequeno passo.
Em Espanha, uma história em quadradinhos que venda 2000 exemplares é um sucesso.

Na sua opinião, por que Tex não triunfa em países como a Espanha, embora os ilustradores e argumentistas façam óptimos trabalhos com esta mítica personagem?
Alfonso Font:
Aqui a arte interessa apenas em função do seu preço por centímetro quadrado. Os quadradinhos carecem de categoria económica para serem levados em consideração a não ser por meia dúzia de insensatos entre os quais me incluo.

E como explica que o senhor e outros autores espanhóis, como por exemplo José Ortiz, triunfem em Itália e esse trabalho seja praticamente desconhecido em Espanha?
Alfonso Font:
Provavelmente porque económica, social e culturalmente somos uma das nações mais avançadas da Europa, como vocês dizem.

Para finalizar, como faria uma rápida análise da sua carreira?
Alfonso Font:
Sempre fui apaixonado pelo desenho, e por este ofício desde que me entendo por gente. Sempre tive bem claro que queria ser desenhador de banda desenhada e nenhuma outra coisa.
Quando comecei a publicar os meus primeiros desenhos ainda era um péssimo desenhador. Na verdade, fui um desenhador bem ruinzinho durante muitos anos, mas felizmente o entusiasmo e o carinho com que fazia os meus trabalhos me impedia de ser consciente disso, provavelmente foi graças a essa incapacidade de autocrítica que não abandonei este ofício no devido momento. E assim até hoje…

Caro Mestre Alfonso Font, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Alfonso Font:
Eu é que agradeço a vocês, a todos aqueles que continuam amando as histórias em quadradinhos, porque isto nos torna cúmplices de sonhos e esperanças.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 02:52:06 | Permalink | Comments (8)

Monday, February 23, 2009

Entrevista exclusiva: GONÇALO JUNIOR (autor de livros especiais de Tex, no Brasil)

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Prezado Gonçalo Junior, bem-vindo ao blogue português de Tex. Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Gonçalo Junior: Aprendi a ler com BD. Na verdade, antes disso, com quatro anos de idade, pedia à minha prima Jamile para ler as histórias para mim. Eu acompanhava os quadros e ela explicava o que era dito nos textos. Isso foi em 1972. Lembro-me bem que eram duas revistas de O Pato Donald que tinham me dado de presente – uma outra prima, Denny. Você me fez voltar no tempo para lembrar isso, nunca me tinham perguntado algo assim.

Quais as suas personagens favoritas e o que contém a sua, ou suas, colecções de Banda Desenhada?
Gonçalo Junior: Embora leia de tudo, inclusive mangá, minha lista de personagens preferidas é pequena: Tex, Ken Parker, Homem-Aranha (das duas primeiras fases, com roteiros de Stan Lee e desenhos de Steve Ditko e John Buscema) e Tintin. Mas minha colecção inclui outros géneros como os brasileiros Angeli, Laerte e Lourenço Mutarelli. Gosto muito dos clássicos americanos das décadas de 1940 e 1950, como O Fantasma, de Lee Falk; dos mestres do erotismo europeu, principalmente os italianos, temas do meu livro Tentação à italiana – um perfil dos mestres do erotismo contemporâneo (Opera Graphica, 2005). Mas tem um autor em especial que admiro muito: o espanhol Miguelanxo Prado. Leio tudo dele. Aliás, procuro uma edição com as suas histórias que saiu num jornal de Lisboa há pouco tempo. Se alguém tiver um exemplar para me vender, por favor, entre em contacto.

Quando descobriu Tex?
Gonçalo Junior: Conto isso no livro. A primeira história que eu li de Tex foi um exemplar que o colega de escola de meu irmão mais novo Leo havia emprestado, com a história Fantasmas do deserto, publicado em Agosto de 1976, no volume 66 da colecção da editora Vecchi. Adorei, mas só fui ler a conclusão, A vingança dos Tuaregs, um ano depois. Logo em seguida, em Outubro, esse irmão comprou Caçada humana (68) e minha vida jamais foi a mesma. Dedico um capítulo do livro a essa história que, para mim, é a melhor de todos os tempos. Você sabia que foi a primeira aventura do nosso herói escrita por Sergio Bonelli? Ele explica em detalhes como a escreveu numa entrevista inédita que me deu em 2001. É surpreendente o que ele diz lá.

Por que esta paixão por Tex?
Gonçalo Junior: Você diz do público em geral? Tex é uma personagem folhetinesca, tem uma estrutura dos folhetins franceses do século XIX, que sempre tiveram um apelo emocional popular muito grande. Suas narrativas longas e envolventes seguem esse formato, o do herói justiceiro que protege os fracos e combate as injustiças. Embora quase nunca fale de mulheres e tenha passado boa parte de sua trajectória sem se envolver com elas, subentende-se que Lírio Branco ou Lilyth foi o grande amor de sua vida. O que pode ser mais romântico? É claro que é um folhetim para homens, dentro do modelo clássico dos heróis de aventuras, como os Três mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Todos esses elementos explicam, em parte, seu sucesso editorial. É um estilo narrativo muito cativante, que todos adoramos. As chances das histórias darem certo junto ao público são muito maiores que em Ken Parker, por exemplo, que tem um outro estilo. Particularmente, sempre gostei de narrativas longas, que demandam tempo para ler e acabam envolvendo e marcando na memória.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Gonçalo Junior: Essa pergunta foi em parte respondida na anterior. É preciso lembrar que Tex surgiu numa época ingénua em que a Banda Desenhada era maniqueísta em sua estrutura de concepção das personagens, quando o bom sempre enfrentava o mau e era preciso deixar isso muito claro para o público. Não havia espaço para a densidade dramática psicológica, como vemos em Caçada humana. Muito disso ainda sobrevive em Tex porque a receita do folhetim pede esse tipo de “manipulação”, digamos assim. Não podemos esquecer, porém, da capacidade da Bonelli Editores em revitalizar a personagem década a década, mesmo preservando sua essência.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Gonçalo Junior: À excepção da revista Junior, publicada na década de 1950, que tenho apenas alguns números, possuo quase tudo publicado depois: Primeira série, a partir de 1971, 1 ao 400 completos (andei meio desligado nos últimos cinco anos), mais cerca de 35 dos números seguintes; segunda série, 1 ao 149; Tex Coleção 1 ao 220; Tex Gigante, todos; especiais coloridos, todos. Tenho ainda, completas, todas as séries de Zagor e Ken Parker lançados no Brasil. Li os oito primeiros números de Mágico Vento, da Bonelli, e confesso que não gostei.

Você colecciona apenas revistas ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Gonçalo Junior: Não, colecciono apenas as revistas e tenho cinco ou seis livros escritos na Itália sobre Tex. Não é fácil adquirir souvenires de Tex no Brasil. Possuo alguns bottons que me foram presenteados pelo editor Wagner Augusto, que publica Ken Parker no Brasil – tive a honra de revisar parte da colecção. Mas, no fundo, falta interesse para querer ter qualquer coisa ligada ao herói. Restrinjo-me às histórias mesmo.

Qual a revista de Tex mais valiosa da sua colecção?
Gonçalo Junior: A mais difícil de conseguir foi o primeiro número da Vecchi, de Fevereiro de 1971 porque comecei a coleccionar Tex no volume 72 – adquirir os 71 anteriores foi um desafio porque as tiragens eram pequenas, poucas pessoas possuíam os primeiros números. Acabei adquirindo três exemplares do número 1 em excelente estado de conservação que guardo até hoje.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Gonçalo Junior: Sem dúvida, a minha favorita é Caçada humana. É uma obra-prima, apesar de pouco comentada no Brasil. Mas muitas me marcaram. Todas em que aparecem Mefisto e seu filho Yama ou o Bruxo Mouro. Gosto em especial também de A Noite dos Assassinos. Dos primeiros anos, Pat, o irlandês, um clássico. Mas citaria também Navajos em pé de guerra, Texas Bill, O grande rei. E aprecio muito as histórias da série Tex Gigante. Como pode ver, prefiro as histórias dos primeiros tempos, sem desmerecer o que tem sido publicado nos últimos dez anos. Sobre argumentista e desenhador, fico com a ingenuidade e o sabor da aventura da dupla Bonelli e Galep. Esses dois sabiam fazer a coisa ficar empolgante. Tanto que trabalharam juntos quatro décadas e consagraram a personagem.

O facto de Tex ser desenhado por vários autores (de estilos bem diferentes) é, na sua opinião, mais ou menos vantajoso para a série?
Gonçalo Junior: Claro que sempre gostamos mais de um ou de outro desenhador. Às vezes, no começo, sentia-me desestimulado a ler determinada aventura por causa de um artista (que prefiro não dizer o nome). Mas, depois, acostumei-me com o traço dele porque as histórias me prendiam. Depois de Galep, gosto muito de Ferdinando Fusco, que fez poucas histórias. Minha lista inclui ainda Monti e Ticci. Não sei se é mais ou menos vantajoso para a série. Faz parte de um esquema industrial de produção perfeitamente válido para que tenhamos aventuras todos os meses. Os ilustradores de Tex sempre estiveram acima da média.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Gonçalo Junior: O seu senso de justiça é o que mais me agrada. Ele nos vinga nas BD com justiça o que não posso fazer no mundo real, cheio de juízes e políticos corruptos. É isso que gostamos em Tex, ele tenta consertar o mundo e nos faz sentir bem. Às vezes, incomoda-me a excessiva infalibilidade e racionalidade. Sua aparente falta de interesse por mulheres, provavelmente resultado de uma época de censura e repressão moral, também vai de encontro à natureza humana, à natureza masculina.

Quais são para si, as características imutáveis de Tex, ou seja, a sua essência, algo que não pode ser mudado?
Gonçalo Junior: Seu desejo de justiça, sua coragem e extrema auto-confiança.

E se pudesse, o que mudaria em Tex?
Gonçalo Junior: Eu deixaria ele mais inseguro, mais temeroso, mais vacilante, o que nada tem a ver com covardia. Eu o faria errar um pouco também. Com isso, ficaria mais humano, mais próximo dos leitores. E suas histórias poderiam ter finais mais emocionantes. E colocaria um pouco da presença feminina em seu universo, até mesmo a saudade ou a dor de ter perdido Lírio Branco para justificar sua vida de bom samaritano. Jesus, quanta pretensão a minha. Culpa sua, que fez essa pergunta.

Na sua vida pessoal ou profissional já chegou a pensar como Tex resolveria ou enfrentaria determinada situação?
Gonçalo Junior: Meu amigo, não tenha dúvidas que sempre me lembro de meus heróis nos momentos difíceis, quando me vejo diante de alguma injustiça no local de trabalho. Ou numa situação de perigo na rua. Eu gostaria de ser como Tex, dar uma lição em certos tipos que não respeitam as pessoas, que a descriminam por causa da cor da pele, da sua origem humilde. Como não é possível, tento usar a paciência, pois o tempo sempre conserta tudo e fica a nosso favor, quando somos desrespeitados ou injustiçados.

Pode uma personagem de ficção como Tex servir como modelo de rectidão, justiça e coragem?
Gonçalo Junior: Sem dúvida. A Banda Desenhada tem uma função importante na educação e na formação de seus leitores de modo geral. E Tex segue essa linha de correcção.

Como nasceu a ideia de homenagear Tex, através do seu livro comemorativo dos 50 anos de aventuras do Ranger no Brasil, publicado em 2002, pela Opera Graphica?
Gonçalo Junior: O livro, que foi apenas parcialmente publicado e com vários erros que corrigi mas não foram passado para a prova final, era para ser um produto de fã para fã. Principalmente os leitores de língua portuguesa que acompanharam as edições brasileiras. Sou obsessivo quanto a contar histórias dos bastidores dos quadradinhos e fui atrás dos editores para reconstituir a história da personagem nas editoras. Felizmente, agora, tudo será publicado exactamente como eu desejava.

Que repercussões teve o seu livro, sobretudo junto de Sergio Bonelli?
Gonçalo Junior: Não tenho conhecimento de qualquer reacção de Sergio Bonelli, mas creio que deve ter gostado porque era uma homenagem à sua principal personagem. O pessoal do portal Texbr gostou do álbum e, correctamente, apontou erros, que não deveriam ter sido cometidos porque eu os havia identificado previamente, mas passaram na hora de fechar a edição.

Em breve teremos um novo livro de Tex da sua autoria (“O Mocinho do Brasil - A história de um fenómeno editorial chamado Tex”, da editora Laços). O que o levou a escrever um segundo livro desta mítica personagem italiana?
Gonçalo Junior: Pois é, este livro na verdade é a íntegra do anterior, que teve apenas 20% do que eu havia escrito porque o editor optou por republicar as três primeiras aventuras de Tex (o que já havia acontecido algumas vezes) a brindar os fãs com informação. Mais do que editar a edição completa, queria muito corrigir os erros.

Pode elucidar-nos sobre o conteúdo do livro?
Gonçalo Junior: Tem coisas importantes para os fãs: um capítulo para cada uma das editoras que publicaram Tex no Brasil; um capítulo sobre Caçada Humana, com entrevista exclusiva de Sergio Bonelli; o escandaloso caso de plágio cometido por um artista brasileiro; a história de Chet, cujo nome é Tex ao contrário, só que com CH, um mocinho criado pelo editor de Tex na década de 1970. Há ainda um caderno em cores de 32 páginas com todas as capas da revista Junior que lançou a personagem no Brasil na década de 1950. Um deleite para os fãs.

Foi fácil conseguir uma editora, neste caso, a Editora Laços, que publicasse este seu novo livro dedicado a Tex?
Gonçalo Junior: Este livro só vai sair neste mês porque o dono da Laços é um grande amigo, coleccionador de Banda Desenhada (tem 70 mil revistas) e pediu-me um livro para publicar. Tinha esse na gaveta e ele aceitou fazer exactamente como eu queria, com o caderno a cores.

Como decorreu todo o processo de negociação com Sergio Bonelli para a devida autorização para a publicação de um livro dedicado à personagem mais importante da sua editora?
Gonçalo Junior: A primeira edição do livro, publicado pela editora Opera Graphica em 2002, foi negociada com Sergio Bonelli, que permitiu a inclusão das três primeiras aventuras, retraduzidas por Julio Schneider. A actual não seguiu esse caminho porque se trata de uma obra jornalística e crítica, de carácter histórico e académico, exclusivamente. Dentro dos preceitos que regem o jornalismo, preferi publicar a obra sem submetê-la ao crivo do editor original ou brasileiro – que parece ter confiado em mim, porque me concedeu uma óptima entrevista para actualizar o livro. Estou tranquilo quanto a isso. Não quero explorar Tex comercialmente, apenas dividir com os fãs meu trabalho de pesquisador de BD. Tanto que faremos somente mil exemplares e nada mais.

Como os leitores e fãs portugueses de Tex podem encomendar este seu mais recente livro dedicado a Tex?
Gonçalo Junior: O livro sai até o final do mês. Mas os fãs portugueses podem desde já comprá-lo na loja virtual comix book shop (www.comix.com.br), onde está em pré-venda. Recomendo que façam isso logo porque, como disse, a tiragem será de apenas mil exemplares.

Para concluir o tema,  como vê o futuro do Ranger?
Gonçalo Junior: Acredito que o futuro de qualquer personagem de BD depende muito de seus autores, do modo como conseguem mantê-lo sempre vivo e interessante. Temos muitas criações geniais como O Fantasma, de Lee Falk, que não soube ser conduzido pela King Features e praticamente desapareceu. Tex tem uma vantagem muito grande e condições de sobreviver por muito tempo por causa da competência do grupo editorial Sergio Bonelli em readaptar o herói às mudanças do mercado. Por isso, creio que teremos suas aventuras ainda por muito tempo.

E quanto a seus futuros projectos, o que nos pode dizer?
Gonçalo Junior: Confesso que gostaria muito de voltar a escrever sobre Tex. Um novo livro, talvez. Seria algo mais teórico, de análise de histórias importantes para tentar compreender ou explicar porque ele se tornou um sucesso editorial. Creio que isso aconteceu na segunda fase do herói, quando deixou de ser uma tira de BD e ganhou revista própria. Penso que na primeira década, apesar das aventuras empolgantes, ele se assemelhava muito aos mocinhos de faroeste de modo geral.

Caríssimo Gonçalo Junior, muito obrigado pela entrevista que gentilmente concedeu ao blogue do Tex.
Gonçalo Junior: Foi um grande prazer. Conte comigo sempre. Aiô, Silver! (ops!).

* Gonçalo Junior, 41 anos, é editor da revista Personnalité, do Banco Itaú, e editor contribuinte da revista Audi Magazine (Brasil). Escreveu outros livros: Guerra dos Gibis (Companhia das Letras), País da TV (Conrad), Claustrofobia (Cluq, com desenhos de Julio Shimamoto), O Messias (Opera Graphica, com desenhos de Flávio Luiz), Alceu Penna e as Garotas do Brasil (Cluq), Benínio – um perfil do mestre das pinups e dos cartazes de cinema (Cluq), Dom Quixote de Doré e Cervantes (Opera Graphica), Quadrinhos sujos (Opera Graphica), Tentação à italiana (Opera Graphica).

(Para aproveitar a extensão completa das fotos acima,
clique nas mesmas)

Posted by Autores do blogue in 00:00:01 | Permalink | Comments (8)

Tuesday, December 30, 2008

SERGIO BONELLI entrevistado por F. Cleto e Pina

Entrevista de Pedro Cleto, conduzida por José Carlos Francisco com a colaboração de Gianni Petino e Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Pode nos dizer alguma coisa sobre Gianluigi Bonelli, seu pai?
Como ele era?

Sergio Bonelli: Fisicamente era um homem fascinante; para uma estatura média, era muito musculoso e atlético, tanto que encarava com bons resultados desportos como natação e pugilismo. Aos setenta anos enfrentava com segurança e desenvoltura qualquer pista de Cervinia, Sestriére e dos Alpes italianos.
De carácter alegre, era muito extrovertido e adorava entreter amigos e até pessoas recém conhecidas com assuntos que frequentemente surpreendiam pela originalidade e pelo seu anticonformismo.

E o escritor Gianluigi Bonelli?
Sergio Bonelli: Ao contrário de muitos colegas que encaravam o papel de “quadrinhista” como uma profissão “de segundo plano”, Gian Luigi Bonelli tinha orgulho de seu ofício de escritor de quadradinhos e se incorporava completamente na personagem de Tex ou de qualquer outro protagonista de suas histórias. Ele não queria sentir-se vinculado a um preciso argumento preliminar e preferia improvisar dia após dia, página após página. Ele lia muitos livros populares franceses, ingleses e americanos e não perdia um só filme que exaltasse a coragem, a força, a aventura.

Alguma vez ele expressou alguma vontade em relação ao futuro de Tex depois de seu desaparecimento?
Sergio Bonelli: Nos últimos anos ele deu-se conta que Tex havia se tornado uma imagem importante no mundo da BD e, por isso, havia aceitado que outros escritores continuassem a sua obra. Depois da decisão de abandonar a personagem, que lhe foi imposta pela idade e pela doença, ele preferiu desistir de corrigir os textos dos outros: por simpatia (e amor paterno) ele limitou-se a intervir, com alguns conselhos, nas histórias escritas por mim.

Mostrou ao seu pai a primeira história de Tex que você escreveu? Ele fez muitas alterações? Foi publicada?
Sergio Bonelli: As suas correcções sempre foram mínimas, provavelmente porque ele considerava que os nossos “estilos” fossem muito diferentes e que, por isso, o problema seria muito difícil de resolver. A minha primeira história foi publicada com o título “Caçada Humana” nos números 183 a 185 da série italiana (n°s 68 e 69 da série brasileira da Ed. Vecchi, em 1976, n.t.) e suscitou reacções opostas: uma parte dos leitores gostou e outra achou que estava muito distante dos esquemas narrativos de seu primeiro autor.

Tex continua a conquistar novas gerações da mesma forma que o fez até aqui?
Sergio Bonelli: Não, absolutamente. As novas gerações não gostam do género faroeste.
Tex continua a ser a BD mais vendida na Itália, mas a cada mês perde uma certa quantidade de leitores.

Tex está praticamente inalterado desde a sua criação. Por razões comerciais ou artísticas? Ou simplesmente por razões sentimentais?
Sergio Bonelli: Infelizmente não é verdade que Tex permaneceu inalterado. Apesar do esforço de imitar o seu criador, todos os novos argumentistas involuntariamente trazem algumas diferenças que os leitores mais atentos não deixam de apontar.
O mundo dos quadradinhos pode abrigar personagens de todo tipo: o leitor pode facilmente encontrar heróis mais “modernos” sem que se deva desnaturar um “herói” tradicional que agrada a outros leitores assim como é.

Na sua opinião, os tempos actuais não pedem um Tex mais “politicamente correcto”?
Sergio Bonelli: Ao contrário, o rigoroso “politicamente correcto” exigido por alguns acabaria por incomodar a outros.
É difícil contentar a todos: por isso busca-se uma via de meio, como desde sempre exige o ofício de editor de banda desenhada.

Até quando poderá Tex resistir aos tempos actuais e à tecnologia?
Sergio Bonelli: Infelizmente para nós (mas como é justo e inevitável), a BD está destinada a dar lugar rapidamente a outros divertimentos mais fáceis e cativantes. Tex ainda hoje é o campeão dos quiosques mas (como já dissemos) é completamente ignorado pelas novas gerações: pode ser que em 5 ou 6 anos não tenha mais leitores em número suficiente para sustentar as pesadas despesas.

Qual a melhor história de Tex de sempre?
Sergio Bonelli: A opinião do editor vale tanto quanto a dos outros leitores: cada um de nós tem a sua história preferida.

Milão, a sua cidade, concedeu-lhe o prestigioso prémio “Ambrogino d’Oro”. Que efeito isso lhe causou?
Sergio Bonelli: O “Ambrogino d’Oro” que me foi conferido no mês passado tem uma história antiga e uma tradição local que levaria muito tempo para explicar a um estrangeiro. Digamos que interpretei como um interessante reconhecimento público à profissão de editor, argumentista ou desenhador de quadradinhos.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 00:10:51 | Permalink | Comments (5)

Tuesday, December 23, 2008

Entrevista exclusiva: MARCO TORRICELLI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli e  Sandro Palmas na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex e Zagor para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Marco Torricelli, bem-vindo ao blogue português de Tex. Pode apresentar-se aos nossos leitores?
Marco Torricelli:
Eu nasci em Génova no dia 30 de Novembro de 1957. Frequentei o Instituto Técnico de Contabilidade, mas a paixão pelo desenho levou-me à profissão de cartunista. Eu venho de uma família de artesãos, professores, escritores e jornalistas. Além dos quadradinhos, eu gosto de literatura e de cinema, gosto de nadar e caminhar pelos bosques.

Como e quando você entrou para o mundo dos quadradinhos?
Marco Torricelli:
Eu comecei no mundo dos comics aos dezoito anos, fazendo quadradinhos para La Bancarella, suplemento do jornal Il Lavoro, e para Eureka com a personagem cómica em tiras Gudrun. Em 82, com o Staff di IF (Equipa de IF) de Gianni Bono, trabalhei com algumas séries como Candy Candy, Mickey Mouse, Pequeno Ranger, Magic Girl e Zagor. Nesse meio tempo fiz muitas capas para a revista escolar Andersen. Em 88 deixei o Staff di IF para colaborar com as revistas Corto Maltese, com textos do irmão Alessandro, e com L’Eternauta como autor de pequenas histórias fantasy. Depois de um intervalo com Gordon Link da Dardo (n.t.: a primeira personagem de Gianfranco Manfredi, hoje autor de Mágico Vento) e com a revista Moby Dick, voltei à SBE e colaborei com Zagor, Dampyr e Tex. Entre 2004 e 2008 frequentei um curso na Academia Lígure de Belas Artes e, desde 2007, sempre a desenhar as aventuras do Espírito da Machadinha, faço quadradinhos e ilustrações para o Mensageiro de Jesus Menino de Praga dos frades carmelitas descalços de Arenzano, belíssima cidadezinha na costa da Ligúria.

Quais são os desenhadores italianos e estrangeiros em quem se inspirou no curso de sua carreira? Há algum que, mais que os outros, você considera seu mestre ideal?
Marco Torricelli:
Sempre admirei alguns desenhadores americanos clássicos e outros da era Marvel. No trabalho bonelliano eu inspirei-me certamente nos Mestres da Editora, que também conheci pessoalmente. É indelével a recordação de Aurelio Galleppini, grande homem e grande artista que, generoso nos conselhos, algumas vezes recebeu-me em seu estúdio. Creio que tanto ele quanto Gallieno Ferri podem ser considerados a minha matriz visual inicial.

Antes de chegar a Tex, você começou a colaborar com a Bonelli por volta da metade dos anos Oitenta, trabalhando principalmente com o roteirista Marcello Toninelli. O que você mais recorda desse período?
Marco Torricelli:
Eu fazia trabalhos para a SBE por meio do “Staff di IF” (Immagini e Fumetti, imagens e quadradinhos) e os roteiros chegavam à agência. Na minha opinião, Marcello Toninelli tinha óptimas ideias para Zagor e as suas descrições eram precisas, mas sem amarrar a interpretação do desenhador. Também foi um período de intenso aprendizado, e a recordação mais bonita é que eu ia da minha cidadezinha ao centro de Génova de motoneta com a pasta dos desenhos a tiracolo, e isso com qualquer tempo; eu era jovem, cheio de projectos e vontade de desenhar.

Depois dessa experiência você abandonou Zagor para se dedicar a outras realidades editoriais. Quais foram as motivações?
Marco Torricelli:
Eu nunca fui um cultor da BD seriada: acompanhei por muito tempo Thor, Drácula, Lobisomem (de Gerry Conway, n.t.), Conan e Surfista Prateado somente porque alguns desenhadores e histórias agradavam-me; na verdade eu aprecio muito a BD de autor, Will Eisner, Corben, Battaglia e outros poucos, e era meu desejo poder publicar alguma coisa inteiramente minha. Consegui fazer isso em revistas, mas durou pouco e não pude continuar com meus projectos. Foi uma pena, porque eu estava indo bem com a revista “Eternauta” e podia escrever, desenhar e colorir as minhas histórias fechadas (n.t.: sem o “continua no próximo número”), que sempre preferi, como aquelas de Creepy da Warren. Mas registo que a BD bonelliana é linda e variada e, em editoria, isso é coisa muito boa. Eu fui autor quando existiam as revistas, depois tive que fazer uma escolha. Se no futuro a chance aparecer, talvez pensarei em produzir uma história minha.

Alguns anos depois você voltou a Zagor e, num período de renovação digno de registo, a si foi confiada história “A Bruxa da Sierra“. O que você se recorda dessa aventura?
Marco Torricelli:
Eu saía de um período cinzento devido ao encerramento de uma editora para quem eu trabalhava. Eu sabia que Zagor estava em renovação e a coisa me impressionava. Para mim, o grande mérito desse renascimento é dos roteiristas. Eu havia começado a fazer “A Bruxa da Sierra” (n.t.: no Brasil, Zagor Extra 25) no interior, na pequena casa do meu irmão. O Inverno estava a acabar mas ainda fazia muito frio. Eu trabalhava perto de uma estufa a lenha - o melhor aquecimento que existe - e, no silêncio, o ambiente era bastante agradável, mais adequado a uma história como a que desenho agora.

Nesses anos você mostrou saber mudar de estilo gráfico com desenvoltura. Quais dos episódios recentes de Zagor mais satisfizeram o seu ecletismo?
Marco Torricelli:
O que estou a desenhar, com textos de Burattini. Agora eu desejo consolidar o estilo que estou a usar, solto e claro.

Conte-nos como nasceu a sua colaboração com o Dampyr de Boselli e Colombo e se você tem alguma história de Harlan Draka em preparação?
Marco Torricelli:
Justamente pelo meu ecletismo Mauro Boselli telefonou-me, com a proposta de colaborar com o novo personagem. Ele surpreendeu-se a me ver perplexo: “Eu não gosto de Dampyr!”, disse-lhe. “O que? Como não? Pensei em você porque desenha com mais estilo! Você é louco!”, ele respondeu. Eu disse “não” e ele, de forma amigável, chamou-me de “louco”. Mas depois as coisas funcionaram, e assim nasceram duas histórias de uma personagem que eu não gostava; é coisa de louco! No momento não existe um projecto de trabalho com Dampyr porque uma recente proposta gráfica que apresentei foi recusada.

Porque a sua passagem por Dampyr foi tão curta, apenas duas histórias?
Marco Torricelli:
Durante os trabalhos Dampyr não me estimulou muito, talvez porque tive pontos de vista diferentes do roteirista. Eu havia apresentado páginas de estudo feitas no meu estilo, mas ele disse-me que não era bonelliano. Então comecei a desenhar totalmente com pincel, mas Boselli deseja um estilo com pincel mais fino. Assim, quando cheguei à página quarenta decidi refazer tudo e tentar contentá-lo.


Zagor e Dampyr: como foi essa experiência e quais foram as principais dificuldades ao desenhar personagens tão diferentes entre si?
Marco Torricelli:
Do ponto de vista gráfico são personagens e histórias muito diferentes. Se para Zagor eu usei a técnica do pincel, para Dampyr eu experimentei usar caneta de ponta porosa, com o acréscimo de alguns reticulados para criar um clima sujo e decadente, como na história “O Conde Magnus“.


No recente especial de Zagor escrito por Luigi Mignacco (“O País das Sombras“, no Brasil ZG Especial nº 18, Mythos, out/2008, n.t.), você conferiu ao herói um rosto jovem. Foi uma escolha proposital ou isso deve-se ao estilo gráfico adoptado na ocasião?
Marco Torricelli:
Depois dos estudos académicos, meu modo de desenhar enriqueceu-se com novos conhecimentos gráficos e conceituais; assim, tudo o que eu desenhava, incluindo rostos, nascia daquela experiência em que se desenha a partir de coisas reais, de modelos profissionais. Na verdade eu deveria desenhar outro género de coisas porque àquela altura uma personagem padronizada como Zagor estava distante dos novos pontos de referência adquiridos, mas continuava a ser um herói muito querido.

Que ambições você tinha ou tem na SBE, sobretudo em relação a Zagor?
Marco Torricelli:
Visto que, além do grotesco, sempre gostei de BD estilo cómico, eu esperava poder fazer um episódio da série cómica “Grandi Comici”, que infelizmente foi encerrada há tempos. Na espera de um eventual retorno, sigo em frente com Zagor, e bem.


Para concluir a conversa sobre o herói de Nolitta e Ferri, pode nos dizer alguma coisa sobre a história de Zagor em que está a trabalhar?
Marco Torricelli:
É uma história de Zagor, e eu a conheço em linhas gerais, porque recebo poucas páginas por vez. Começa em um mundo fantástico e paralelo e depois prossegue na floresta de Darkwood. As personagens de um escritor de romances “heroic fantasy” entram na realidade e um deles, feiticeiro poderoso, será o inimigo contra quem Zagor terá um confronto épico. É uma história com componentes fantásticos e bem estruturada com roteiro de Burattini e que será publicada em uma edição especial.

Passemos ao Ranger que dá nome a este blogue: como você chegou a Tex?
Marco Torricelli:
Foi Sergio Bonelli quem me promoveu, durante uma visita que fiz à redacção milanesa.

Como foi o primeiro impacto?
Marco Torricelli:
Eu preferia Zagor, mas preparei-me para o trabalho, no qual Boselli muito me ajudou.

Qual é a sua visão da personagem Tex?
Marco Torricelli:
Eu sou um purista e, com sinceridade, creio que as personagens pertencem aos seus criadores. Assim como prefiro o Zagor de Nolitta e Ferri, o melhor Tex é o de Gianluigi Bonelli e Galep.

Porque decidiu adoptar como referência para o seu trabalho o exemplo de um profissional como Galep?
Marco Torricelli:
Porque para mim Tex só é Tex nos seus desenhos suaves, nervosos, expressivos e ricos de senso da história. Mas nem por isso gosto menos das outras versões da personagem.


Nas páginas que você realizou para Tex há outras influências artísticas? Cinematográficas, por exemplo?
Marco Torricelli:
Mais que aos filmes, na história que sairá na Itália em Dezembro de 2009 eu inspirei-me em fotos da época. Também levei em consideração filmes como “Rio vermelho”, um clássico de John Wayne, com Montgomery Cliff e Walter Brennan. Usei a fisionomia deste último para caracterizar o cozinheiro dos caubóis que aparece na história.


Pode nos antecipar alguma coisa sobre esse seu trabalho em Tex, quem é o roteirista, como é a ambientação, etc.?
Marco Torricelli:
A história é de Mauro Boselli e está ambientada na pradaria e  num povoado chuvoso, no qual decorre uma espécie de história policial. De facto, uma misteriosa personagem aparece e desaparece, no meio da noite, entre a pancadaria no saloon, a detenção de caubóis e sequazes, e a chegada dos índios Modoc. É bem movimentada.

Qual é a sua história preferida de Tex?
Marco Torricelli:
O Filho de Mefisto.

O que mais lhe agrada em Tex? E o que lhe agrada menos?
Marco Torricelli:
Eu prefiro as histórias em ambientes naturais, especialmente nas florestas do norte da América. Tudo bem quanto ao resto.

O que você pensa das personagens femininas nas histórias de Tex?
Marco Torricelli:
São interessantes mas às vezes creio que deixam a acção lenta. De todo modo, eu gostava de Loa.

Em 2007 tivemos em Portugal uma antecipação mundial de quinze novos desenhadores de Tex, como é o seu caso, por exemplo. Como você vê essa entrada de tantos novos elementos na equipa de Tex? Isso poderia ser um novo curso na vida da série?
Marco Torricelli:
Eu penso que já é um novo curso. Os argentinos e espanhóis estão a dar uma boa versão do ranger, e Giovanni Bruzzo é óptimo, com toda a experiência de anos com Mister No e com histórias para revistas aos quadradinhos, tem um traço interessante e adequado à aventura. A sua versão de Tex é, para mim, muito convincente.

Também tem havido um reforço de roteiristas. Acha que era algo de inevitável? E, com tantos roteiristas, você não pensa que pode-se correr o risco de ver Tex desnaturado?
Marco Torricelli:
Eu não creio que possa acontecer uma desnaturação. A Editora é por demais atenta a isso, os padrões são definidos. Tex, no modo de agir e pensar, só pode ser Tex, mesmo que o lápis que o faz seja outro. O facto de haver novos roteiristas parece-me uma coisa boa, serão feitas aventuras novas.

Como você vê o futuro do Ranger?
Marco Torricelli:
Continuará a ser uma das personagens mais duradouras, talvez porque está inserida num tipo particular de faroeste, que independe do interesse geral pelo faroeste.



Quanto tempo leva para desenhar uma página? Cumpre horários? Como é um dia padrão, entre trabalho, leituras, manter-se informado, ócio, vida familiar?
Marco Torricelli:
Eu saio da cama às seis, tomo café e começo a esboçar algumas páginas com a mão esquerda ou com a direita, depende de como estou naquele momento (algumas páginas de Tex, as primeiras dez e aquelas no saloon, foram esboçadas com a esquerda). Vou em frente até às doze, almoço e depois pego das quinze até às dezoito. Depois vou andar um pouco num lugar verde e muito bonito. Depois do jantar leio e vejo um pouco de TV.

Você preocupa-se com documentação? O roteirista ajuda?
Marco Torricelli:
Eu documento-me e gosto de visitar livrarias em busca de alguma coisa estimulante, e às vezes o roteirista envia-me o material que ele considera que vou precisar ou quando deseja algum desenho particular.

Pode nos expor a sua técnica de trabalho?
Marco Torricelli:
Depois de fazer o contorno dos quadradinhos na folha, faço o esboço de todas as imagens com traços rápidos e indefinidos, para não perder a ideia, buscando identificar também o espaço necessário para os balões. Depois reforço os traços para definir um pouco mais as fisionomias principais e os fundos de cena. Deixo para definir a página a lápis no dia seguinte, quando faço a arte-final, a passagem de tinta. Até há pouco tempo, antes de começar a trabalhar num original, eu também desenhava um layout.

Você sente-se um artesão da BD ou um artista? Para si, desenhar é um estímulo, uma diversão ou um trabalho?
Marco Torricelli:
Toda pessoa que faz bem o seu trabalho é um artista, e o estímulo eu recebo da própria história, porque divirto-me a imaginar cada cena.

No presente e sobretudo no futuro haverá cada vez mais Internet. Como você vê a relação entre este meio de comunicação de massa e os quadradinhos?
Marco Torricelli:
A Internet é uma ligação entre autores e público muito interessante e veloz. Por e-mail eu tenho contacto com alguns leitores e com autores - recentemente, por exemplo, tive uma breve e simpática troca de mensagens com Richard Corben. Pode-se visitar os sítios das editoras, ver imediatamente as novidades em quiosques ou livrarias, informar-se sobre mostras e ler as antecipações. Em alguns casos pude ver muitas páginas de uma história, apesar de não ser como ter a revista nas mãos, a ouvir o som do folhear da revista, sentir o aroma da tinta impressa.


Quais os seus projectos para o futuro?
Marco Torricelli:
Concluir “As Parábolas de Jesus em Quadradinhos” na edição do “Messaggero de G. B.” de Dezembro e continuar a desenhar Zagor.


Quais quadradinhos você lê actualmente, com quais mais se identifica?
Marco Torricelli:
Leio pouca BD. A última foi uma “graphic novel” de Eisner, “O Complô”. Se saírem novos trabalhos desse autor, eu continuarei a ler.

Além dos quadradinhos, que livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Marco Torricelli:
Eu li com prazer os escritores russos. O mundo narrado em seus romances era, para mim, desconhecido e distante, onde as personagens eram novas, interessantes e diferentes. As peculiaridades da alma humana eram aprofundadas e bem inseridas na realidade. Modos de viver e de pensar tão bem delineados que superavam a imagem, hoje poderosa e predominante. Eu considero a palavra superior à imagem. Ela tem uma potência de comunicação sem comparação com outra coisa e faz com que se instaure uma relação directa entre o escritor e o leitor.
Também li livros biográficos, de género fantástico americano e inglês, religioso, mitológico, filosófico e aventuroso. Gosto muito do cinema, é uma grande arte. Bergman, Kurosawa, Hitchcock, Spielberg, Monicelli, De Sica, são directores fundamentais. De música, ouço a clássica; da moderna, Paolo Conte é o meu preferido. Ouço Rondò Veneziano mas também jazz (que combina bem com quadradinhos) e um pouco de New Age que, se por alguns aspectos contém mensagens negativas, por outros é divertida.

Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Algo que não lhe foi perguntado e que gostaria que os nossos leitores soubessem?
Marco Torricelli:
Espero poder realizar uma personagem que há muitos anos tenho guardado.

Caro Marco Torricelli, em nome do blogue português de Tex nós agradecemos muitíssimo pela entrevista que tão gentilmente nos concedeu.
Marco Torricelli:
Foi um belíssimo encontro. A todos vocês um fantástico, grande e aventuroso abraço!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)
 

Posted by Autores do blogue in 00:18:52 | Permalink | Comments (10)