22 de Maio de 2008

Tex português: SINGELO???

Por Sérgio Madeira de Sousa[1]   

14 de Agosto de 2005, uma data histórica para os admiradores de Tex Willer, especialmente os  portugueses. Nesse dia de Verão, em que milhares de lusitanos gozavam as merecidas férias, foi finalmente possível encontrar uma edição de Tex produzida em Portugal.

A publicidade à colecção “Série Ouro – Os Clássicos da Banda Desenhada”, à qual pertence a referida edição, havia se iniciado largos meses antes, no jornal “Correio da Manhã”, pelo que a expectativa era enorme. Esta colecção, muito semelhante à que a “Panini” lançou em Itália, numa parceria com o periódico “La Repubblica”, sofreu apenas algumas adaptações relativamente aos personagens a publicar.

Como critérios de selecção dos personagens a publicar, foi tido em conta aspectos como: a popularidade de cada um, a qualidade dos argumentos e o potencial interesse para os portugueses.
Duas curiosidades relativamente a este ultimo aspecto: Tex nunca antes havia sido publicado em Portugal, mas apesar disso, não deixa de ser um dos personagens mais apreciados pelos amantes portugueses da BD.
A segunda curiosidade é que tanto Tex, como Dylan Dog e Ken Parker, poderiam ter feito parte logo da primeira colecção de BD lançada pelo “Correio da Manhã” (Os Clássicos da Banda Desenhada), uma vez que constaram numa lista de personagens sugeridos aos responsáveis.


Outros personagens Bonellianos publicados em Portugal

Em 1978 foram publicados em Portugal dois personagens da SBE: primeiro Zagor e depois Mister No. O número 1 de Zagor saiu em Agosto de 1978 e curiosamente coincidiu com a saída do número 1 da editora brasileira Vecchi. A história intitulada “O Bom e o Mau” corresponde a parte do número 7 da colecção da Vecchi.
As edições portuguesas apenas possuíam 48 páginas, com 4 tiras por página, equivalente a 64 páginas das edições brasileiras. A colecção portuguesa de Mister No iniciou-se em Dezembro do mesmo ano, no mesmo formato (22x15cm), numero e tiras por página.

Apesar das histórias publicadas nas duas séries, possuírem óptimos argumentos e desenhos, na sua maioria a cargo da dupla Nolitta&Ferri, as duas séries tiveram uma vida editorial muito curta: Mister No doze números e Zagor dezasseis. O número 1 de Mister No, corresponde a parte do número 1 italiano.
Resta dizer que ambos foram publicados pela Editora Portugal Press, sem autorização da casa Bonelli.



Em 1981, a revista “Sioux” coloca nas bancas, várias histórias retiradas da “Storia del West”; histórias como “Álamo”, “Comancheiros” ou “O Grande Rio”, tão bem conhecidas dos leitores brasileiros, também foram publicadas em Portugal. Outro personagem da casa italiana de sonhos de papel, Judas, também conhecido por Chacal, igualmente em 1981,foi publicado na revista “Façanhas do Oeste”. Não consegui apurar se estas publicações foram devidamente autorizadas.

O facto destes personagens terem sido publicados em Portugal revela que os editores portugueses estavam atentos ao que se passava em Itália, o que não se percebe é quais foram as razões que os levaram a optar pela publicação de personagens desconhecidos dos portugueses, quando poderiam ter optado por Tex, personagem de maior sucesso da editora e sobejamente conhecido entre nós através das edições da Vecchi, que eram distribuídas em Portugal desde os primeiros números.

Acredito que existir em circulação uma revista mensal do Ranger, tenha sido uma das principais razões para que não tenham considerado Tex nessa altura. Se pensarmos que Zagor e Mister No foram publicados sem autorização, a repetirem o processo com Tex, entrariam em concorrência com uma editora autorizada, o que não aconteceria com os personagens referidos, pois infelizmente e com muita tristeza minha, estas edições brasileiras nunca vieram para Portugal.
Apesar de já terem passado quase trinta anos, penso que ainda seria interessante saber o porquê das opções dos editores.

O Tex português

Voltando à histórica edição portuguesa de Tex, a história seleccionada “Tex contra Mefisto” é uma história clássica do personagem, em que ele enfrenta pela segunda vez o seu pior inimigo. Esta aventura publicada pela primeira vez em 1963, apesar de ser uma óptima história que mistura o western com o sobrenatural e que possui a assinatura dos criadores, não foi na minha opinião a melhor opção para apresentação do personagem aos “leigos”.

Para os fãs do Ranger, todas as histórias seriam uma boa escolha para abrilhantar a primeira e única edição portuguesa até aos dias de hoje, mas para os apreciadores de BD que pretendiam completar a colecção, “Série Ouro – Os Clássicos da Banda Desenhada” e não conheciam Águia da Noite, muito dificilmente esta história foi capaz de cativá-los a acompanhar o personagem.

Não nos podemos esquecer em que condições esta história foi produzida: Galep desenhava Tex nos seus tempos livres, à noite, com prazos apertadíssimos e em condições de trabalho muito longe das ideais. Também a colorização não favoreceu muito a edição. Reforço a ideia: para nós os seguidores desde 1971, esta edição foi um prémio e o facto de ser a cores em muito valoriza o prémio.
Devemos estar muito agradecidos a quem tornou esta edição possível, nomeadamente: José de Freitas, Rui Alves, João Miguel. Lameiras, José Carlos Francisco e Júlio Schneider. (os quatro primeiros, na foto acima à direita)

Mas então qual seria a história ideal? Como todas as selecções é difícil escolher uma que gere consenso, assim, a história seleccionada teria que premiar os leitores “jurássicos” e ao mesmo tempo ser apelativa, para ao primeiro impacto, ser capaz de angariar novos leitores do personagem. Apesar da dificuldade, penso que existem inúmeras histórias que poderiam cumprir estes requisitos, no entanto, a melhor opção teria sido a publicação de duas histórias curtas (cerca de 100 páginas): uma primeira história obrigatoriamente dos criadores, com uma narrativa dinâmica e desenhos mais elaborados, por exemplo: “Forte Apache”. A segunda história, uma história recente com a assinatura dos actuais artistas. Por exemplo, qualquer história retirada da série “Almanacco del West”.

As histórias seleccionadas deveriam ser publicadas como o foram originalmente em Itália, de preferência histórias a preto e branco, pois foi desta forma que o personagem obteve sucesso.
Compreendo que houve uma série de limitações que condicionaram a selecção, principalmente presumo eu, financeiros. O facto de esta história ter sido usada na colecção italiana da “Panini”, também teve muito “peso” na decisão, uma vez que todo o material se encontrava digitalizado, paginado e colorido, apenas havia que traduzir e legendar.

O futuro

A questão que coloco agora é: Para quando uma nova edição portuguesa? Será que os coleccionadores terão de esperar mais 30 anos? Esta histórica edição portuguesa, não passou despercebida a Sergio Bonelli, pois ele próprio dedicou-lhe um editorial em Tex Nuova Ristampa, número 148.

É irrealista pensar que o mercado de BD em Portugal possa aguentar uma revista mensal, pois existem diversos problemas que inviabilizam esta opção. Se pensarmos num livro, com uma boa encadernação e papel de qualidade, as hipóteses de sucesso aumentam drasticamente.
No Brasil, apesar do excelente trabalho da Mythos Editora que tem conseguido não só manter, mas aumentar o número de publicações, apesar da crise que a Banda Desenhada atravessa nos últimos anos, a verdade é que à editora têm faltado alguma inovação. As publicações são maioritariamente em formatinho, com mais ou menos páginas e capa cartonada ou não.
As excepções são o Tex Gigante herdado da Globo e o Tex e os Aventureiros, que infelizmente terminou após seis edições, a última das quais, também em formato menor.

Os excelentes álbuns publicados em Itália pela Mondadori, não têm paralelo no Brasil. A Mythos nunca apostou nos livros, ou por impossibilidade de meios técnicos, ou por falta de interesse em atingir esse segmento do mercado, apenas a editora poderá responder. Parece-me que existe aqui uma lacuna que poderia ser aproveitada por uma editora portuguesa. Fazer o papel que a Mondadori faz em Itália: publicar aquelas que são consideradas as melhores histórias de Tex, em livros de boa qualidade e transportar o personagem para as livrarias, atingindo assim outra gama de coleccionadores.

O mercado português poderá não ser suficiente para este empreendimento, poderá ser necessário alargá-lo, aumentá-lo, tal como faz a Mythos com o mercado português. Portugal funciona para a Mythos como mais um Estado brasileiro, um sector na sua distribuição sectorizada, reduzindo assim o encalhe nas vendas.
Uma editora portuguesa que partisse para este projecto, para obter sucesso teria obrigatoriamente que considerar o mercado brasileiro como parte integrante do português. Penso que tanto a SBE, como a Mythos Editora, veriam com bons olhos uma parceria nesse sentido.

A edição seria produzida em Portugal e a Mythos seria responsável pela venda no mercado brasileiro. Considerando que existem cerca de 20.000 coleccionadores brasileiros e que cerca de vinte por cento adquiria o livro, adicionando cerca de 5 centenas de exemplares para o mercado português, atingimos os 4500 exemplares. Quantos livros publicados actualmente ultrapassam estes números na primeira edição?
É claro que tudo o que aqui foi escrito nos dois últimos parágrafos não está fundamentado e carece de uma análise aprofundada por quem conhece, quer o mercado de BD portuguesa quer o brasileiro. Como leitor e coleccionador não me compete a mim pensar nestes aspectos, apenas gostaria de ver outras histórias do “Ranger” publicadas no meu País e parece-me, pelo que aqui expus, que existe condições para que “Tex contra Mefisto”, afinal não fique... singelo.

NOTA: Dedico esta peça a todos os que colaboraram na produção e edição de “Tex contra Mefisto”, a todos eles o meu muito obrigado.


[1] Coleccionador de Tex desde 1980.

 

Fontes:
http://www.texbr.com
http://texwiller.blog.com
http://www.sergiobonellieditore.it/

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)
 

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06 de Dezembro de 2006

Tex português em destaque no editorial de Tex Nuova Ristampa 148

Pela segunda vez, Sergio Bonelli, dedicou um editorial de uma edição italiana de Tex, a Portugal, mais precisamente para falar da histórica edição portuguesa de Tex.  Tal aconteceu na edição #148 de Tex Nuova Ristampa, de 30 de Novembro de 2005.
Recorde-se que a única edição portuguesa aconteceu apenas e até agora na "Série Ouro – Os Clássicos de Banda Desenhada", em 14 de Agosto de 2005, sob apoio do jornal "Correio da Manhã". Edição colorida que trazia uma aventura épica, tão movimentada que as 208 páginas habituais desta colecção da Série Ouro não foram suficientes para a contar, Tex e seus amigos reencontram um antigo e perigosíssimo bandido chamado Mefisto, que usava uma estranha raça indígena para dominar o Vale dos Esqueletos e vingar-se de Tex por factos ocorridos num passado distante: Tex Contra Mefisto (título original - "La mesa degli scheletri" de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #39 e #40).


"Caros amigos,
como se pode ver no quadro reproduzido à direita, o nosso velho Mefisto está a fazer em português a mesma pergunta que nós da rua Buonarroti já o vimos fazer em francês, espanhol, turco, finlandês, sueco, grego, sérvio, croata, etc., etc. E, obviamente, também em brasileiro, visto que, nas últimas temporadas, o Brasil tornou-se um dos Países mais interessados nas histórias de Águia da Noite. Mas - este é o ponto mais importante - o livro de onde extraímos essa imagem não é escrito em brasileiro, mas em português. A diferença entre os dois idiomas realmente é mínima, até difícil de perceber para nós, conhecedores superficiais. No nosso caso, o jornal “Correio da Manhã” - na esteira de uma iniciativa anterior lançada com sucesso na Itália pelo “La Repubblica” - levou às bancas uma colecção de volumes intitulada “Os Clássicos da BD Série Ouro”. Bem, esse jornal estava tão orgulhoso de apresentar uma célebre aventura do Ranger de Bonelli & Galep que não se contentou em usar uma edição brasileira já existente, mas quis oferecer ao seu público uma versão “falada” no mais clássico idioma lusitano.
Os artífices da minuciosa adaptação são dois amigos nossos de quem já tive ocasião de falar: José Carlos Francisco (há anos aficcionado apoiador de Tex em Portugal, tanto em jornais quanto em manifestações de quadradinhos) e Júlio Schneider, advogado na cidade de Curitiba, que cuida das traduções de muitas edições bonellianas publicadas por editores brasileiros. Em suma, como deu para entender, “Tex contra Mefisto” é o primeiro volume de Tex que um português aficcionado por BD pôde ler na sua língua. O trabalho de Júlio Schneider e José Carlos Francisco mereceu a citação no frontispício do volume “histórico” (que mostro aqui ao lado), mas principalmente, os agradecimentos de todos nós da rua Buonarroti.
Sergio Bonelli."

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