Balanço TEXiano 2007
O ano de 2007 foi um ano de transição, um ano onde acima de tudo começaram a notar-se algumas das mudanças que se perspectivam para 2008. Mudanças no staff de autores, com a chegada de novos desenhadores como Pasquale Del Vecchio, Dante Erasmo Spada, Corrado Mastantuono e Garcia Seijas, se bem que nem todos fiquem no staff, mas também a estreia de Tito Faraci como argumentista, o que vem trazer nova dinâmica à série e criar naturais expectativas para os próximos tempos.
Foi também um ano caracterizado pela mudança numa certa filosofia reinante na Sergio Bonelli Editore que, com a chegada da Collezione Storica a Colori, acaba por deixar o exclusivo do preto e branco como imagem de marca da casa, patrocinando a publicação das primeiras aventuras da série em versão colorida, no que acabou por ser um êxito, cimentado na edição de mais 34 números relativamente aos 50 inicialmente anunciados.
Mas foi também um ano doloroso e triste porque assistiu à morte de dois desenhadores aplaudidos a nível mundial, Manfred Sommer e Carlo Rafaelle Marcello. O espanhol regressara à banda desenhada expressamente convidado por Sergio Bonelli para desenhar Tex, enquanto que o italiano, apesar de já se encontrar afastado das páginas texianas desde há algum tempo, continuava a ser recordado por, em conjunto com Mauro Boselli, ter sido o autor de grandes aventuras do ranger.
Ainda falando de desenhadores, merece especial realce o facto de Fernando Fusco ter desenhado mais uma aventura, mesmo depois de ter anunciado a sua retirada, continuando afinal como um dos desenhadores da série, apesar de aceitar apenas trabalhar em argumentos menos extensos.
2007 foi ainda um anno horribilis para Claudio Nizzi, que continuou a escrever a maior parte das aventuras de Tex, denotando sempre pouca motivação, algum cansaço e sobretudo quase nenhuma imaginação.
Finalmente, o facto de que ainda não foi este ano que assistimos a uma nova aventura desenhada pelo magnífico Claudio Villa, apesar do deleite que cada capa deste extraordinário artista nos oferece, e também a ausência dos irmãos Cestaro, uma grande dupla de desenhadores que começam a criar saudades nos apaixonados.
As Aventuras
La Banda dei Trei escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Fabio Civitelli, conta a história de Elmer Daves um xerife que, chegado à reforma, resolve ir em busca dos assassinos da sua mulher, morta 15 anos antes durante um assalto a um banco. A ideia de Claudio Nizzi foi boa, ao colocar lado a lado Tex com Daves, dois homens que sofreram a mesma experiência dramática, o assassinato da sua mulher, mas acabou por fracassar na pouca credibilidade dos factos apresentados. Realce para o desenho limpo, elegante e perfeito de Civitelli, um autor que esteve por terras lusas, como convidado do Festival de Banda Desenhada de Moura onde espalhou simpatia e granjeou ainda mais adeptos. Uma nota para o facto de Civitelli estar a ultimar a aventura que comemorará o nº 600 da edição italiana.
Morte Nella Nebia escrita por Mauro Boselli e desenhada por Alfonso Font, pode ser considerada a melhor história de 2007. Sem estar ao mesmo nível de grandes aventuras como O Passado de Kit Carson ou Os Invencíveis, ainda assim uma aventura de grande qualidade que marca o reencontro de Kit Willer com o seu amigo Bronco Lane (Os Sete Assassinos). Uma aventura onde mais uma vez Boselli confere especial protagonismo ao jovem Kit Willer.
Apesar de não ser a primeira aventura escrita para Tex, Evasione, com desenho de José Ortiz, marcou a estreia de Tito Faraci junto dos leitores, isto porque os irmãos Cestaro ainda estão a desenhar o seu primeiro argumento, perspectivando-se a sua publicação durante 2008. Sem revolucionar, Faraci escreveu mesmo assim um argumento pleno de dinamismo e ritmo, que leva Tex até uma prisão mexicana com o objectivo de conseguir a fuga de um fora da lei e trocar este por Carson que se encontra cativo dos seus cúmplices. É uma aventura que pode marcar uma viragem na série, porque o Tex de Faraci mostrou ser actuante e empreendedor, inteligente e imaginativo, em contraponto ao que Nizzi vem fazendo com a personagem.
Moctezuma é o canto do cisne de Nizzi, uma aventura quase completamente falhada e seguramente a menos conseguida do ano. Tal como na aventura de Faraci, Tex vai até ao México, onde acabará por resgatar uma jovem cativa de um senhor local. Um argumento simples, mas que Nizzi não consegue dar o dinamismo de Faraci ou a espessura de Boselli, primando pela superficialidade e alguns erros infantis. Apesar da idade, Fusco não acusa em demasia o peso dos anos, conseguindo expandir bem as suas qualidades de paisagista.
Soldi Sporchi marca a estreia de Pasquale Del Vecchio numa aventura de Tex, onde o seu desenho acaba por ser a melhor parte de mais uma aventura pouco conseguida de Claudio Nizzi. Uma patrulha do exército que transporta o pagamento dos militares é atacada, tudo levando a crer por índios yaquis. Tex e Carson após investigarem concluem que afinal os brancos podem estar por detrás de tudo. Del Vecchio já trabalhara para a Sergio Bonelli Editore, desenhando aventuras de Nick Raider e Napoleone, mas também para o exigente mercado franco-belga onde desenha a série Russel Chase. Um desenho clássico, elegante e claro que apenas terá que melhorar na sua composição do ranger.
Erasmo Dante Spada estreou-se em Spedizione in Messico, mais uma aventura interessante de Mauro Boselli e que leva Tex e os pards novamente até ao México, onde a pedido do exército norte-americano pretende trazer de volta o chefe coyotero Calvado, fugido há meses da sua reserva. Uma aventura onde o perigo e a suspeita espreitam em cada página e que testemunha um trabalho de grande nível de Spada, com um desenho muito expressivo e paisagens fantásticas. Mas a sua integração no staff não é certa, uma vez que o autor acaba de regressar a Martyn Mystère.
A série normal terminou com La Sentinella, que narra a descoberta por parte de Tex e Carson de um oficial sulista que vive há anos como um eremita numa caverna e que acredita que a Guerra da Secessão ainda não terminou. Uma aventura onde se pode optar por duas leituras. Se for um daqueles críticos acérrimos de Nizzi, trata-se de mais uma prova cabal da falta de dinamismo e motivação do autor, cometendo ingenuidades e incoerências. Se conseguir ultrapassar isso, o leitor descobrirá na aventura uma visão do sul do pós guerra da Secessão, de uma época de reconstrução e de regresso à civilização, de uma época onde, apesar do final da escravatura, o negro ainda não era aceite socialmente. Uma aventura onde o argentino Miguel Angel Repetto assina eventualmente o seu melhor trabalho em Tex.
O Almanacco Del West testemunhou, junto dos leitores, a estreia de Garcia Seijas em Tex. Tal como com Faraci, se bem que por motivos diferentes, Polizia Apache não é a primeira aventura desenhada pelo excelente artista argentino, uma vez que o seu primeiro trabalho para Tex ainda aguarda publicação num Albo Speciale (Tex Gigante). Polizia Apache é escrita por Mauro Boselli e debruça-se num tema, baseado em factos reais e sempre presente em Tex, índios confinados em reservas que não aceitam a autoridade que lhes é imposta. Graficamente, o trabalho de Garcia Seijas não merece reparos, muito pelo contrário, ele é merecedor dos mais rasgados elogios, apesar do seu Tex não recolher eventualmente a unanimidade no modelo do autor.
Em matéria de estreias, o Speciale trouxe mais uma, a do romano e versátil Corrado Mastantuono, sobejamente conhecido no mercado italiano e franco-belga. Il Profeta Hualpai conta a história de Manitary, um profeta que, após uma visão, sente-se investido a dar seguimento à sagrada missão de reunir as tribos índias debaixo de um só comando, com o objectivo de expulsarem os brancos das suas terras. Escrita por Claudio Nizzi, é uma aventura interessante no tema focado, mas sem criar grandes emoções. Mastantuono tem uma representação gráfica perfeita dos pards e o seu Tex vai melhorando com o decorrer da aventura. O autor imprime sempre um desenvolvimento dinâmico à aventura realizando planos de conjunto soberbos.
Por fim, o Maxi Tex com a aventura Fort Sahara, escrita por Claudio Nizzi e desenhada por Roberto Diso. A aventura consegue fazer bem a ponte entre realidade histórica e ficção quando a Legião Estrangeira prestou auxílio ao imperador mexicano Benito Juarez entre 1864 e 1867, reflecte timidamente sobre a disciplina militar, mas traz os defeitos habituais em Nizzi. Pelo lado do desenho, as coisas também não foram melhores, porque Roberto Diso, não discutindo as suas qualidades, não tem um estilo ou um traço que permita criar um verdadeiro ambiente texiano.
Os Desenhadores
Um ano, como já afirmado, marcado pela estreia de novos autores em Tex, por força do desaparecimento de alguns artistas, mas também pelo ritmo que as novas aventuras vêm impondo. Pasquale Del Vecchio, Erasmo Dante Spada, Corrado Mastantuono e Garcia Seijas, cada qual a seu modo, deu o melhor de si e isso foi notório, porque os seus trabalhos merecem nota positiva. Mas cresce a dúvida em saber quem afinal continuará na equipa, porque para já Erasmo Dante Spada parece ter saído para Martin Mystère e o seu trabalho em Tex foi muito bom. Del Vecchio está novamente a desenhar para o mercado francófono, enquanto que tudo leva a crer que Mastantuono e Seijas continuarão.
Boas provas de Civitelli, que sempre nos habituou a excelentes trabalhos, Repetto com o seu melhor trabalho na série, o espanhol Font que sobe sempre a sua fasquia de qualidade, são aspectos positivos a realçar, não esquecendo que, apesar da idade, Fusco não desaprendeu (talvez o estilo já seja algo datado) e que outro espanhol, José Ortiz, continua em bom nível, mas quer-nos parecer que o seu ritmo elevado de trabalho acaba por influenciar negativamente o resultado final. Apenas Diso parece sobressair pela negativa na qualidade global.
Uma palavra para o trabalho ao nível das capas por parte de Claudio Villa. Qual delas a melhor? Em face de excelentes trabalhos, torna-se difícil escolher uma, todas elas são um regalo que importa apreciar ao pormenor. Moctezuma e Uccidete Kit Willer têm grande impacto, Spedizione in Messico impõe-se pela figura texiana, Morte Nella Nebia deixa uma sensação fria, Evasione cativa, enfim, estamos em presença de um notável desenhador e nunca é demais realçá-lo.
Os Argumentistas
2007 acentuou o declínio de Claudio Nizzi. Aquele que ainda é considerado como o verdadeiro herdeiro de G. L. Bonelli acusou erros e ingenuidades em demasia, alicerçados em argumentos sem alma e incapazes de cativar verdadeiramente, demonstrando que quantidade não é sinónimo de qualidade. Escreveu mais de mil páginas, Boselli cerca de metade, enquanto Faraci ficou-se por pouco mais de duzentas. 2007 evidenciou que Nizzi atingiu os limites da sua veia inspiradora, deu tudo o que de melhor tinha à personagem durante tantos anos, mas chegou a hora de uma desejável retirada, pelo simples motivo que pouco mais trará à personagem. O Tex nizziano foi-se arrastando ao longo do ano em aventuras que primaram pela superficialidade, apesar de alguns aspectos interessantes, referidos ao longo deste artigo, reiterando a ideia que o autor acusa cansaço e não dá provas de poder inverter o rumo.
Pelo contrário, Mauro Boselli afirma-se como um criador de histórias com muito maior interesse e espessura, tendo já dado provas que pode ser o autor capaz de renovar o mito e trazer novos rumos à série. Em 2007 Boselli não assinou uma obra-prima, mas escreveu duas boas aventuras, Morte Nella Nebia e Spedizione in Messico, duas histórias onde as qualidades do autor estão bem presentes. Qualidades que passam muito por uma notável construção das personagens, alterando os códigos narrativos nizzianos. Gradualmente, Boselli vai assumindo o papel de principal argumentista o que é uma boa notícia para 2008, criando acrescidas expectativas nestes tempos de mudança.
Tito Faracci deixou uma boa impressão com Evasione. Já dissemos que não veio, para já, revolucionar nada, mas deixa antever algo de diferente para mais tarde. Para já o autor não entrou a querer mudar, quis sim ser honesto com os leitores e com os fãs, por isso foi buscar alguns dos atributos do Tex bonelliano e escrever uma história simples, mas capaz de atrair pela dinâmica, pela movimentação e por esse facto já apontado de trazer um Tex como nos habituámos a apreciar.
Um ponto parece ter sido comum nos três: nenhum trouxe uma aventura sobre a temática do fantástico ou passada em ambientes exóticos. Neste ponto em concreto de ambiente e temas, Morte Nella Nebia e La Sentinella fogem um pouco do lugar comum, a primeira pelos ambientes a segunda pela visão que traz do pós-Guerra da Secessão.
Veremos o que nos reserva 2008, com a gradual e anunciada retirada de Nizzi, a afirmação crescente de Boselli, a continuidade de Faraci, sem esquecer Pasquale Ruju que, depois de Demian, regressa a Tex com a aventura do Almanaque, Manfredi, Segura e o próprio Guido Nolitta (aliás Sergio Bonelli) que com Boselli e Ticci (no desenho), cria naturais expectativas para uma aventura a três a publicar já em Março.
Se em 2007 a Collezione Storica a Colori marcou a revolução da cor nas aventuras de Tex Willer, de acordo com as palavras do próprio Sergio Bonelli, 2008 poderá ser o ano da evolução e de algumas mudanças. As expectativas são grandes!
Texto de Mário João Marques
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Essas palavras só invocam os seres das trevas
Continue desenhando que você prome
Parabéns pela entrevista, mas ficou faltando