23 de Abril de 2008

Mistérios portugueses na edição italiana nº 95 de Dampyr (Fevereiro 2008)

Mauro Boselli, argumentista e co-criador com  Maurizio Colombo do personagem Dampyr, na sua habitual rubrica "dal buio...", aborda na edição número 95 da série mensal, editada no passado mês de Fevereiro, a história ocorrida em Portugal (Dampyr nº 75 -  “Lo Sposo della Vampira”) devido a um texto da autoria do jornalista João Miguel Lameiras, publicado no número 19 do prestigiado BDJornal, texto esse que também foi divulgado aqui mesmo no blogue do Tex (http://texwiller.blog.com/1965623/) conforme o próprio Mauro Boselli informa no seu texto.

Devido ao interesse do assunto,  o blogue do Tex dá a conhecer o texto de Mauro Boselli, tanto na versão original, como na língua portuguesa:



"MISTÉRIOS PORTUGUESES! 

O leitor dampyriano Giacomo Dessì, que por razões de trabalho e estudo reside em Coimbra, Portugal, enviou-nos um artigo sobre Dampyr publicado numa bela revista daquele país, BD Jornal, que também pode ser lido no blogue português dedicado a Tex Willer.
O texto, de João Miguel Lameiras, "Dampyr em Portugal", fala sobre a história do n° 75, "Lo sposo della vampira", ambientada na região de Trás-os-Montes. O artigo, que elogia a série e o personagem, para nós é motivo de orgulho.

Giacomo também observa que parte do artigo é centrado num provável erro histórico que, segundo Lameiras, deixaria sem sentido toda a trama, a qual baseia-se em parte no passado de Vathek diante dos mouros de Andaluzia. Conhecedor da história do seu país, o articulista observa que, na revista, diz-se textualmente: "O castelo actual é da época do rei Dom Dinis, que o reconstruiu para manter os mouros longe... no Século XII ele resistiu ao assalto das armadas andaluzes de Ibn Yakub...". Segundo Lameiras, o ponto é que Dom Dinis viveu mais ou menos cem anos depois, no Século XIII (ele reinou a partir de 1279), quando os mouros não estavam mais ali. É verdade. Os mouros foram expulsos daquela região de Portugal pela geração anterior a Dinis, mas no seu reinado eles ainda eram uma ameaça, visto que ocupavam uma grande parte da Península Ibérica (de onde só seriam expulsos no fim do Século XV).

Em razão disso, os castelos continuavam a ser aumentados e fortificados também pelo próprio Dinis: isso é um facto histórico. Por outro lado, é possível que no Século XII, antes de Dom Dinis, o castelo de Monforte, que já existia antes das fortificações feitas pelo rei, já fosse assediado. A frase dita pelo personagem de Roland Kirby, o imaginário director inglês da trama, não está de todo incorrecta e não constitui um erro histórico grosseiro. Ela simplesmente está mal colocada, porque Kirby fala DEPOIS de fatos acontecidos ANTES. Erro desculpável que se pode perdoar a um inglês. Acrescentamos que nos balões de texto não há espaço suficiente para escrever tratados históricos completos e perfeitos!"

Texto traduzido por Júlio Schneider, tradutor de Tex e Mágico Vento para o Brasil e consultor Bonelliano da Mythos Editora, no Brasil.
 
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06 de Janeiro de 2008

Romanzi a Fumetti Bonelli

No blogue do Tex, damos hoje espaço para a rubrica Outras personagens Bonelli, a uma colecção recente da Sergio Bonelli Editore, intitulada Romanzi a Fumetti Bonelli, apresentando a crítica de Mário João Marques aos dois números já existentes: Dragonero e Gli occhi e il buio.

Trata-se de uma colecção especial, já que são romances em forma de banda desenhada e cada número traz um romance novo, nada tendo a ver com o anterior. Em cada álbum desta colecção estarão presentes histórias de personagens diversas não estando excluído o retorno de algumas personagens que tiveram sucesso no passado e cada romance terá 200 a 300 páginas e a periodicidade será sensivelmente semestral.

Segundo apuramos os próximos romances, embora desconhecendo a sequência devem ser:

"Hit Moll Pulp", texto de Enoch, desenhos de Andrea Accardi; 
"Fanta-thriller", texto de Paola Barbato;
"Serial-killer", texto e desenhos de Gigi Simeoni

Dragonero
Romanzi a Fumetti Bonelli nº 1, editado em Junho de 2007;

Argumento e roteiro: Luca Enoch e Stefano Vietti
Desenhos: Giuseppe Matteoni
Capa: Giuseppe Matteoni

Ian, antigo soldado do Império, agora dedicado a missões de inteligência nos territórios do Império, um homem relutante que prefere não enfrentar o seu passado; Gmor, um orgue com uma força enorme e que vive junto com os humanos; Alben um mago cheio de energia e de carisma e que sofre de vertigens; Myrva, irmã de Ian, pertence à casta dos tecnocratas, de carácter bem vincado e que usa as armas de fogo de modo letal; Ecuba, uma guerreira que tem a missão de proteger Alben; Sera, pequena e pacífica, complementar a Gmor. Estes são os protagonistas deste space-opera escrito em moldes de filme de grande acção, com excelentes efeitos especiais e de elevado orçamento. Enoch e Vietti idealizaram um mundo de fantasia num futuro em ambiente medieval, um mundo onde os dragões e as forças obscuras encontram-se dominados pelas forças do bem representadas pelo Império. Mas a ameaça paira no ar, estranhos acontecimentos parecem poder vir a alterar o equilíbrio existente. E só este grupo de heróis pode combater a ameaça.

Dragonero é um projecto já com alguns anos de Enoch (Gea, Morgana) e Vietti (Martyn Mystère, Nathan Never). Juntos amadureceram a ideia, implementaram algumas alterações e trouxeram Matteoti, um desconhecido, para dar vida gráfica à aventura. Uma aventura que respira o ambiente tolkieano por todo o lado: no grupo dos protagonistas, representado por um soldado, um mago, um orgue, uma guerreira, mas também na construção de todo um universo que bebe muito da sua inspiração na eterna luta entre o bem e o mal, entre um mago maléfico com um passado obscuro e que tenta conquistar o mundo e um outro, muito ligado aos métodos tradicionais e que representa um baluarte contra as forças do mal. Chegados aqui, a aventura afirma-se sempre muito linear, mas vai buscar grande parte da sua qualidade ao modo sempre enérgico e ritmado como é conduzida.

Ou seja, o leitor, apesar das suas quase 300 páginas, acaba por nunca relaxar, porque, após delinear muito bem os campos opostos, Enoch e Vietti oferecem um argumento grandioso na forma e no modo como tudo é conduzido. Dois campos que se opõem na eterna luta pelo poder mundial, mas também duas formas de ver o progresso e o combate às forças do mal. Aos métodos clássicos e que se inspiram em rituais antigos de Alben, contrapõe-se Myrva que representa o lado progressista e tecnológico da magia, nem sempre com os melhores resultados. São pontos a mais que os autores não descosem por completo, levando a crer que esta aventura completa pode muito bem vir a ter continuidade.

Matteoti faz aqui também um belo trabalho, mercê de um desenho preciso e detalhado e especialmente conseguido na interpretação dos ambientes arquitectónicos e naturais. Realce também para as várias sequências de acção, de que é perfeito exemplo toda a batalha final, e a construção de planos e enquadramentos.

Texto de Mário João Marques

Gli occhi e il buio
Romanzi a Fumetti Bonelli nº 2, editado em Novembro de 2007;

Argumento, roteiro, desenhos e capa: Gigi Simeoni

Tudo começa em Paris em 1907.
Alessandro Simonetti é um jovem pintor que teve uma infância difícil, mas que agora se prepara para casar com Luísa, uma jovem vinda da alta sociedade milanesa. Um dia acontece o drama e tudo muda quando Luísa morre num acidente de automóvel e Alessandro entra num estado de alucinação, interpretado como um sinal: no momento da morte da sua noiva, o jovem pintor vê nos olhos de Luísa a inspiração que buscava para aceder à arte pura. Um ano mais tarde, já depois de regressar a Milão, Alessandro continua a debater-se com o trágico passado que não lhe dá tréguas, atravessando um período de estagnação e acima de tudo recordando o que viu nos olhos de Luísa naquele fatídico dia. Um sinal, uma forma, algo de arte pura que o inspira a deixar a pintura clássica e a dedicar-se a outras experiências. Mas para isso Alessandro terá que buscar a mesma inspiração, terá que ver a morte nos olhos, terá que matar para procurar essa forma, esse sinal, essa arte pura.

Milão começa a ser atormentada por uma série de assassinatos sem que se saiba quem é o culpado. E é num perfeito clima de terror que o comissário Matteo De Vitalis e o jornalista Sante Ferrari começam a indagar e a investigar numa autêntica caça ao homem.
Escrito e desenhado por Gigi Simeoni (conhecido por Sime), “Gli Occhi e il Buio” custou dois anos de trabalho e é uma viagem alucinante entre razão e loucura, entre génio e raciocínio, entre liberdade expressiva e condicionamentos morais ou mais simplesmente, entre o bem e o mal. Em resumo, trata-se de uma bela surpresa, seguramente uma das melhores histórias que já li.

O argumento de Sime está cheio de pontos fortes, superiormente apresentados e desenvolvidos que lhe conferem uma qualidade que, mais do registar, importa pormenorizar. Toda a grandeza da obra começa no período escolhido, início do século XX, a Belle Époque, quando a Europa fervilhava de expansão e crescimento, um dinamismo que se estendia em todos os ângulos e que resultava num optimismo crescente. Sime oferece este retrato histórico, transpondo tudo para a realidade italiana da época, quando os periódicos “Il Secolo” e “Corriere della Sera” disputavam entre si a popularidade, quando o Futurismo preparava-se para trazer novos rumos e novas ideias a todos os campos da expressão artística ou quando a Itália orgulhosamente estava na vanguarda dos métodos científicos da investigação criminal. É neste cenário, neste ambiente e neste tempo que convincentemente Sime apresenta o seu argumento, feito de bases sólidas onde tudo é convincente, ritmado, com uma total ausência de cenas e diálogos gratuitos, que vem explorar o génio e a loucura de um pintor, mas também a razão e a inteligência de um comissário.

Tudo começa acidentalmente, quando Alessandro descobre uma forma nos olhos de Luísa no momento da morte desta. A transformação de Alessandro, um jovem pintor sensível e idealista num assassino compulsivo, frio e obcecado é então outro dos pontos fortes da obra. Esta descoberta vem inspirar o crivo artístico que Alessandro tanto almejava e procurava, levando-o a procurar novos caminhos para o seu processo criativo, de modo a poder reproduzir a sua imaginação nas telas. Este caminho leva-o à loucura da morte, da escuridão, da alteração completa da sua personalidade, deambulando entre génio e louco. A investigação inteligentemente conduzida pelo comissário De Vitalis, sempre em aproximação gradual ao assassino, é mais outro ponto forte do argumento. Numa altura em que os métodos científicos davam os primeiros passos na investigação criminal, De Vitalis tenta interpretar as atitudes do assassino, as suas motivações e os seus objectivos. No fundo, tanto Alessandro como De Vitalis surgem como intérpretes da alma humana. O jovem pintor logra manietar e iludir, enquanto o comissário interpreta as acções do criminoso, extraindo daqui uma coerente e racional explicação.

Não é apenas a temática que distingue a qualidade da obra, é sobretudo a narração fluida e moderna, sem pontos mortos, com diálogos bem construídos que, ao mesmo tempo, retratam a época. Todas as personagens são importantes ao desenrolar da acção, todas superiormente construídas, psicologicamente evoluídas, uma diversidade que contribui para uma dinâmica sempre em crescendo da trama. Exemplar o retrato dos dois protagonistas, cada um cerebral a seu modo e obcecados pelos seus objectivos. Alessandro vive atormentado pelo desejo de dar o salto criativo até outros patamares e outros horizontes, até ao ponto que permita a vanguarda artística. De Vitalis, a seu modo, também procura outros patamares, o da modernidade que representava a investigação por métodos científicos. Ambos lutavam contra o que estava estabelecido e será curioso salientar que é a morte de Luísa que vai permitir que ambos desenvolvam essa vertente.
 
A obra vale também muito pelo desenho detalhado, elegante e expressivo de Gigi Simeoni, um autor que já em 1996 recebera o prestigiado prémio “Fumo di China”para o melhor autor realístico ou ainda o prémio da crítica para a série “Hammer”. Sime não é portanto um desconhecido, os seus trabalhos também se estendem para séries como Lazarus Ledd, Nathan Never, Brandon ou Gregory Hunter. Graficamente “Gli Occhi e il Buio” constitui um trabalho maduro e de grande qualidade, com um traço a interpretar superiormente toda uma época, mas também a compulsiva loucura de um artista em busca de inspiração para novos rumos.
Numa verdadeira atmosfera de terror e crime, mas ao mesmo tempo fascinante, a obra é uma agradável surpresa que, como já alguém disse, é para ler como um romance mas para guardar como um filme.

Texto de Mário João Marques

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29 de Julho de 2007

Dampyr em Portugal

O BD Jornal, um jornal, ou melhor dizendo, uma revista sobre a Nona Arte editada em Portugal, dá no seu número 19, de Junho/Julho de 2007, um grande destaque a uma personagem da editora Bonelli, que teve uma aventura passada em Portugal: DAMPYR de seu nome!

O BDjornal surge agora em novo formato (275 x 205 mm) e com mais páginas (76) e em impressão digital – capa em cartolina de 200 grs. plastificada brilhante e com papel do miolo de 115 grs. - agora com tiragem limitada e distribuição centrada nas lojas da especialidade, apostando decididamente em reforçar o número dos assinantes.
O preço de capa é de € 6,00 e a assinatura por 1 ano (6 números) é de € 30,00.

Por norma, o blogue português do Tex, é dedicado exclusivamente a TEX WILLER e ao seu mundo, mas sempre que uma personagem Bonelli, que não Tex, tiver algo de muito relevante e que diga respeito a Portugal, terá espaço no blogue do Tex, na rubrica dedicada a outras personagens Bonelli, acabada de criar para o efeito.

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Texto do BDJornal nº 19, de Junho/Julho - 2007
Por João Miguel Lameiras

DAMPYR EM PORTUGAL

Depois de, durante um ano, ter sido presença regular nas bancas portuguesas, por via das edições brasileiras da Editora Mythos, actualmente praticamente reduzidas às aventuras do cowboy Tex, Dampyr o caçador de vampiros criado por Mauro Boselli e Maurizio Colombo voltou a Portugal em Junho do ano passado, embora apenas os leitores italianos se tenham apercebido disso…

A verdade é que, desta vez, foi a personagem quem esteve em Portugal e não a revista que conta as suas aventuras. Tudo aconteceu no nº 75 da série mensal italiana, publicado em Junho de 2006, numa história chamada “Lo Sposo della Vampira”, em que Harlan Draka e o seu amigo Kujak vão até Trás os Montes, investigar a lenda do Castelo de Monforte da Estrela, que dizem estar assombrado por uma vampira.

Seja através do cinema, da literatura, ou da BD, a verdade é que a figura do vampiro está cada vez mais enraizada no imaginário da cultura de massas, tanto no Ocidente, como no Oriente. Um sucesso natural, a que não é alheia a grande carga erótica inerente ao conceito de um ser imortal, que suga a vida às suas presas. Um fascínio que tem sido devidamente aproveitado pelo cinema, mas também pela BD, que ao longo de décadas tem sabido reinventar esse arquétipo das mais variadas formas.

A série Dampyr insere-se claramente nessa tradição, mas a grande inovação de Mauro Boselli e Maurizio Colombo, dois argumentistas habituais da casa Bonelli e criadores de Dampyr, foi escolherem como cenário para a aparição do mal simbólico (os vampiros) um espaço martirizado pela guerra, onde o mal é bem real: as Balcãs. E é precisamente ao folclore da região que ao argumentistas foram buscar inspiração, pois de acordo com as lendas locais, o Dampyr é fruto da união de um vampiro com uma mulher mortal, sendo por isso alguém que está entre dois mundos e cujo sangue pode destruir os vampiros.

O herói involuntário desta série é Harlan Draka, um Dampyr que no início não tem consciência dos seus extraordinários poderes, nem sabe bem como usá-los, mas que acaba por descobrir que, embora tenha conseguido não se envolver na guerra que assola o seu país, não vai poder deixar de tomar partido na guerra contra os vampiros, como Gorka, o mais poderoso vampiro da região, contando como aliados com um militar, Kurjak, e com Tesla, uma vampira que se quer libertar da influência do seu senhor, Gorka. 

Escrita por dois veteranos da casa Bonelli, que já assinaram argumentos para inúmeras outras séries da editora, “Dampyr”, apesar da originalidade da premissa inicial, apresenta as características habituais da “fábrica Bonelli”, que já nos habitou a história eficazes e bem contadas, mas algo presas a uma receita que não contempla grandes variantes. Neste caso, a luta sem tréguas de Harlan com os Mestres da Noite, não acaba com a morte de Gorka, ou de Vurdlak, o Mestre da Noite que o criou, mas prossegue por todo o mundo. Um périplo pelo sobrenatural que, a partir de Praga,  leva o Dampyr pelos quatro cantos do mundo, em histórias que permitem aos seus autores reinterpretar à sua maneira as mais diversas lendas do fantástico, com Harlan a ter que enfrentar  fantasmas, demónios, entidades lovecraftianas e anjos caídos, para além dos tradicionais vampiros, cujo extermínio se tornou o principal objectivo da sua vida.

E é assim que Harlan Draka se transforma num verdadeiro “globe trotter” do sobrenatural, percorrendo o mundo, de Praga à ex-Jugoslávia, de Paris a Berlim, de Veneza ao Japão, até chegar a  Portugal, na história que motiva este texto.

Escrita pelo criador da série, Mauro Boselli e com (excelentes) desenhos de Alessandro Bocci, a história tem como ponto de partida um filme de terror  de série B, que o realizador Roland Kirby decide filmar em Trás-os-Montes, a partir do romance Inês de las Sierras, um conto gótico escrito em 1838 por Charles Nodier, um escritor romântico francês. E se tanto Nodier como o romance que escreveu existiram realmente,   a acção do conto de Charles Nodier tem lugar perto de Barcelona, no castelo de Ghismondo, o que justifica o apelido espanhol de Inês, não se percebendo muito bem porque Boselli mudou a acção da história da Catalunha para Trás os Montes …

De qualquer modo, Portugal, mais do que os cenários e os figurantes cede também um personagem secundário, com importância no desenrolar da história, que é o pastor Vitorino Rocha, que conduz Harlan até ao castelo e lhe salva a vida, ao alertar a protecção civil em relação ao incêndio (infelizmente tão típico do Verão português) que isolou o Castelo de Monforte.

E, se os autores mostram algum cuidado na descrição da aldeia fictícia de Riba Preta, ou no Castelo de Monforte da Estrela, já em termos históricos, a coisa falha, e muito, quando Mauro Boselli põe uma das personagens a dizer que o Castelo tinha a forma actual desde o reinado de D. Dinis, que o reconstruiu para manter os mouros longe. O problema é que Dom Dinis, que nasceu em 1261 e só se tornou Rei em 1279, nunca teve propriamente que se preocupar com os Mouros, que tinham abandonado o território português antes de ele nascer, em 1249, ano em que a conquista de Faro, Albufeira e Silves, por Dom Afonso III, pai de Dom Dinis, põe oficialmente fim à reconquista portuguesa, o que torna perfeitamente disparatada toda a intriga em torno do emir árabe que conquistou o castelo na Idade Média. 

De qualquer modo, para o que é habitual em termos da representação de Portugal e dos portugueses na BD, até não nos podemos queixar muito, pois Bocci desenha de forma perfeita os cenários transmontanos e tanto os nomes portugueses como algumas expressões coloquiais aparecem correctamente escritos. Apesar desse rigor, habitual na casa Bonelli (basta ver a pesquisa que envolve uma série como Martin Mystére) Portugal aqui pouco mais faz do que ceder as suas paisagens para cenário de uma história que gira em torno do cinema, homenageando, de forma mais ou menos directa, os grandes clássicos do cinema de terror. Italiano e não só.

A cena inicial do livro, que acaba por se revelar como uma sequência de um filme de terror, na linha das produções da Hammer, ou das adaptações dos contos de Edgar Poe produzidos por Roger Corman, dá logo o tom, acentuado pelos diálogos. Roland Kirby, assume que pretende ser o Roger Corman do século XXI e transformar a sua actriz na reencarnação de Barbara Steele (a actriz de La Maschera del Demónio, um clássico do mestre do terror italiano, Mário Bava, que já tinha servido de base a uma aventura de Dylan Dog), enquanto que o actor Eddie Chapman evoca Dário Argento, para além de Corman e Bava.

Mas a maior citação cinéfila acontece na cena em que Lucy é fechada dentro de um caixão. Cena que não pode deixar de evocar a mais célebre sequência do filme La Paura de Lúcio Fulci, que Tarantino também homenageou no seu Kill Bill.  E, prosseguindo com as metáforas cinematográficas, não é demais salientar o trabalho de Alessandro Bocci como director de fotografias deste filme de terror em papel, com o desenhador italiano, que desenhou o bárbaro Conan antes de entrar na escuderia Bonelli, a mostrar um traço clássico, de grande pormenor e legibilidade, muito bem servido por um excelente uso de tramas.  
  
Infelizmente, com o fim da edição brasileira da Mythos, que acabou no nº 12, os leitores portugueses deixaram de poder acompanhar as aventuras de Harlan Draka. Assim, muito dificilmente poderemos ler em português esta aventura do Dampyr em passada em Portugal e saber algo mais sobre a ligação entre a maldição da família Kirby, o misterioso Emir cujo nome a História não fixou e a vampira que se esconde no Castelo de Monforte da Estrela.

Copyright: © 2007 BDJornal; João Miguel Lameiras
(Para aproveitar a extensão completa das fotos e imagens acima clique nas mesmas)

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