03 de Março de 2008

Os Pioneiros do "Western"

Texto da Revista Mundo de Aventuras nº 277, de 25 de Janeiro de 1979
Por Jorge Magalhães[1] 

OS PIONEIROS DO "WESTERN"


DE BRONCHO BILL E TOM MIX A WILLIAM (SHAKESPEARE) HART:
QUANDO NOS FILMES DE "COW-BOYS" SÓ O QUE MUDAVA ERA O CAVALO...


«A vida do homem não vai do berço ao túmulo. É o percurso percorrido do animal e do físico ao espiritual»
KING VIDOR

A TRADIÇÃO ROMÂNTICA

O mito da «cow-boy» resiste à passagem do tempo, confirmando a vitalidade de um dos géneros mais antigos e espectaculares do cinema.
Ao princípio, de facto, a única preocupação do «western» era o espectáculo. Nessa tradição se insere ainda hoje, apesar de ter ganho características dramáticas que o requintaram, intelectualizando-o e elevando-o à categoria de tragédias colectivas, como as obras-primas do teatro grego — caso de «Shane», de George Stevens, e «Consciências Mortas» de William Wellman.

As raízes do filme de «cow-boys» foram o folclore e a epopeia, assim como a música e a literatura típicas desse período da História americana. O cinema dos primeiros «westerns» — segundo Jean-Louis Rieupeyrout — prolongava a música e o livro, trazendo para os habitantes das grandes cidades a epopeia trepidante das pradarias, um sopro dos vastos espaços livres.

Numa entrevista concedida por cinco famosos astros da televisão e dos filmes de «cow-boys» à revista americana «SBI» diz-se a certa altura:
«O filme de «cow-boys» é uma forma especial de entretenimento, exactamente como o foram as sagas dos países escandinavos ou as crónicas dos países anglo-escoceses. Todas elas são o reflexo das crises de crescimento dos respectivos países. Os factos reais transformam-se em lendas, e as lendas foram traduzidas em formas poéticas ou teatrais, incluindo o drama. As lendas do Oeste são muito semelhantes às lendas românticas da literatura inglesa. O «western» assenta, no período romântico da expansão americana».

Tudo começou com «The Great Train Robbery» («O Grande Assalto ao Comboio»), filmado em 1903 por Edwin S. Porter.
Porter foi o mais importante cineasta americano do período pioneiro que medeia entre 1900 e 1910. Além de inovador da linguagem cinematográfica, Porter trouxe para o cinema algo ainda mais importante: um novo género, uma nova atmosfera, uma nova mitologia, que depressa conquistaria multidões, estabelecendo uma espécie de diálogo — como diz Manuel de Pina — entre os homens de uma época com os seus antepassados, numa lúcida reconsideração do que foram, do que são, do que querem vir a ser.

OS INVENCÍVEIS PALADINOS

O mito estava criado. Multiplicavam-se os filmes de «cow-boys», esculpia-se a figura do que viria a ser o herói típico do «Far-West». Formaram-se companhias dedicadas exclusivamente à produção de filmes de «cow-boys». Surge Bronco Bill, o primeiro grande ídolo das plateias, intérprete de uma película por semana, durante trezentas e setenta e seis semanas. Bronco Bill — aliás, Max Anderson — foi o produtor dos seus próprios filmes. Com o sentido do negócio de um autêntico financeiro de Wall Street dizia:
« — O assunto dos filmes de «cow-boys» não precisa mudar; só o cavalo
Depois, é o advento de Tom Mix, o «cow-boy» branco da América, de Buck Jones, de Hopalong Cassidy, de Rio Jim, paladinos invencíveis que simbolizavam a luta vitoriosa do Bem contra o Mal.

Foi Thomas Harper Ince, realizador da série de Rio Jim, interpretada por um actor de admiráveis recursos chamado William Shakespeare Hart, o primeiro homem que se preocupou com a importância dramática dos seus filmes. Para Ince, o cinema era mais do que um jogo maravilhoso de imagens: era um instrumento de criação. Com Ince, o filme de «cow-boys» começou a impor-se pela forca lírica dos seus temas e das suas paisagens.

Bronco Bill, Tom Mix, Rio Jim, são os astros que perpassam na tela, heróis legendários sempre um pouco maiores que qualquer criatura humana. Mas, à medida que o filme de «cow-boys» começa a humanizar-se, esses ídolos desvanecem-se, perdem importância e significado. O herói do Oeste surge despojado da sua aura ingénua e simplista.

Já não basta saber manejar a pistola, cavalgar os broncos selvagens e derrubar a murro os antagonistas; o homem do Oeste deve também reflectir os sentimentos e as preocupações de índole moral, psicológica e social do homem adulto. O filme de «cow-boys», de raízes mergulhadas na História e no folclore do velho Oeste, adquire assim uma perspectiva nova, transformando-se num género cinematográfico maior, inalterável à passagem do tempo e da moda.
Cria-se uma espécie de nova mitologia, um novo ciclo de «western», que tem em David Wark Griffith o seu primeiro e mais alto expoente.

A EPOPEIA HISTÓRICA

Griffith foi o mais importante cineasta da sua geração. Além das suas obras-primas, «O Nascimento de Uma Nação» e «Intolerância», deixou uma obra de génio como teórico da linguagem cinematográfica. Foi ele o primeiro a utilizar conscientemente o grande plano, a iluminação, o «travelling», e a descobrir o sentido rítmico e narrativo da montagem. Pode dizer-se que foi Griffith, quem libertou definitivamente o cinema das três unidades teatrais de tempo, acção e lugar.

«Nascimento de Uma Nação» foi o primeiro painel grandioso inspirado na História dos Estados Unidos da América. Filho de um oficial sulista, que tomara parte na Guerra Civil, Griffith, tentou compor, à maneira do «Quo Vadis» — obra-prima do cinema de artes italiano — um fresco, uma epopeia colectiva, em homenagem aos Estados do Sul, às suas tradições românticas e aristocráticas, que nem mesmo a guerra e a derrota fizeram desaparecer.

Muitos anos depois, «E Tudo o Vento Levou», de Vitor Fleming, consagraria definitiva e espectacularmente essa forma sui generis de epopeia, lírica, violenta e grandiloquente, que fugia, embora, sem as abandonar completamente, às linhas de rumo do «western» tradicional.
Griffith não hesitou em atribuir aos negros as culpas da Guerra Civil e em enaltecer a acção do próprio Ku-Klux-Klan. O racismo aflora de uma ponta à outra do seu filme. Para ele, todo o americano mau ou era católico ou judeu. Reaccionário e segregacionista, Griffith ficou, porém, na historia do cinema como um dos seus génios, um dos homens que mais contribuíram para que ele se tranformasse numa arte maior.

JORGE MAGALHÃES

Copyright: © 1979 "Mundo de Aventuras nº 277"; Jorge Magalhães


 

[1] Editor, autor de banda desenhada (argumentista), autor de numerosos textos de estudo, análise e história da BD, em livros, revistas, jornais e fanzines e também leitor e coleccionador de Tex Willer.

 

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02 de Outubro de 2007

O WESTERN NA BD CONTEMPORÂNEA

Texto originalmente da Revista Selecções BD nº 27, de Janeiro de 2001, mas actualizado e complementado propositadamente no presente, para o blogue do Tex.
Por João Miguel Lameiras[1] 


CAVALGANDO DE NOVO:
O WESTERN NA BD CONTEMPORÂNEA

Género cinematográfico americano por excelência, o Western é um bom exemplo da capacidade de Hollywood em exportar o sonho americano. Apesar de ter como ponto de partida a realidade concreta dos EUA durante o século XIX, o Western eleva essa realidade a uma categoria arquétipica, facilmente reconhecível em qualquer parte do mundo. Mais do que a história do Oeste americano, o Western codifica a sua lenda, uma lenda que se revela ainda mais atraente para aqueles que nunca puseram os pés naqueles espaços míticos.  
       
 

O WESTERN NA EUROPA
     

Daí que não admire que, em termos de Banda Desenhada, o género tenha conhecido o desenvolvimento que conheceu  na Europa, de tal forma que ninguém tem dúvidas de que os mais interessantes “Westerns de papel” nasceram deste lado do Atlântico. O caso da série Blueberry é um dos melhores e mais populares exemplos, só com paralelo com o italiano Tex Willer, à sombra do qual o editor Bonelli construiu  o seu império. Mas não é o único… Basta lembrar clássicos da BD franco-belga, como o Jerry Spring de Jijé (com quem Giraud fez o seu tirocínio), Buddy Longway, Comanche, Jonathan Cartland, e McCoy. E se muitas dessas séries estão já em fase claramente descendente (Comanche e McCoy acabaram mesmo em consequência das mortes de Greg e Palacios, enquanto Blanc Dumont trocou Jonathan Cartland pela Juventude de Blueberry e Guy Vidal não conseguiu substituir Charlier de forma eficaz em Los Gringos ), o retomar de outras como  Buddy Longway, que Derib interrompeu em 1987 para se dedicar à série Celui qui est né deux fois e à sua continuação, Red Road, são apenas  um sinal, entre outros, do reviver de um género que nunca chegou a morrer verdadeiramente. Mesmo que o próprio Derib regresse a Buddy Longway para matar o herói que criou em La Source , álbum de 2006, em que Buddy vê a morte chegar ao lado da sua amada Chinook, na mesma cabana onde se tinham conhecido pela primeira vez, pondo um fim lógico e inevitável a uma série que se distinguiu pela forma como o protagonista cresceu e arranjou uma família, ao lado da qual envelheceu, por oposição aos cowboys solitários que normalmente enchem os westerns de papel.

Durango, o Western-spaguetti que Yves Swolfes  criou em 1981, tendo como evidente ponto de partida o filme Il grande Silenzio de Sergio Corbucci, aonde Swolfs vai buscar o herói e o vilão da série, é a primeira de um conjunto de novas séries que optam por uma aproximação mais actual ao género, com aparente sucesso comercial. Talvez por isso Swolfs, ao mesmo tempo que prossegue com Durango, tenha escrito o argumento do Western psicológico Black Hills, para os desenhos de Marc-Renier, e a Soleil, uma editora mais virada para o género “heroic fantasy”, tenha decidido editar também um western, a série  Wanted de Simon Rocca e Thiery Girod (desenhador que não apresenta semelhanças com Jean Giraud apenas no nome) protagonizada por um caçador de recompensas com a cara marcada por uma cicatriz em forma de W.

Ainda no catálogo da Soleil, que acolheu a série Durango, na nova fase em que Swolfs cede os desenhos a Girod, encontramos outra série claramente filiada no Western spaguetti, mas com a particularidade de ser protagonizada por mulheres. Essa série é Fleurs Carnivores, a série de Djian e Penet, uma promissora incursão pelo género, que apenas durou dois álbuns, devido a divergências entre os autores.

Mesmo na colecção Vecú que a Glenat dedica à BD histórica, o western está presente através de duas séries: Sundance, escrita por Corteggiani e ilustrada por Suro, em que o actual argumentista de A Juventude de Blueberry decide pegar na figura do Sundance Kid, que com Butch Cassidy formou um dos mais famosos bandos do Velho Oeste, oferecendo-lhe uma segunda oportunidade de vida, sem os constrangimentos de uma história que se transformou em lenda. História essa que marca a acção de Les Carnets de la Sécession , de Guimin, série dedicada às aventuras de um jovem fidalgo francês que decide explorar as planícies americanas no preciso momento em que estala a Guerra da Secessão.
     

NOVAS ROUPAGENS PARA UM GÉNERO CLÁSSICO

Também a Delcourt abriu o seu catálogo ao Western através de dois projectos a que aparece associado o desenhador Olivier Vatine, em que a violência e as paisagens mexicanas características dos Westerns Spaguettis estão presentes. São eles Adios Palomita de Lamy,Vatine, Clement e Rabarot, um Western no feminino, desenhado num estilo semi-caricatural por Fabrice Lamy, que foi premiado com um Alph-Art de Angoulême e viu um estúdio de Hollywood comprar os direitos de opção para uma eventual adaptação cinematográfica; e 500 Fusils, também desenhado por Lamy que aqui adopta um grafismo mais realista. Esta violenta aventura de Wayne Redlake, um cowboy convertido em taberneiro num México assolado pela luta entre o exército francês e os rebeldes juaristas, foi escrita por Cailleteau e Duval e planificada por Olivier Vatine, o que deve estar na origem dos enquadramentos pouco habituais na BD europeia, que aproximam este western da estética da editora Image. E Fabrice Lamy parece ter-se tornado um especialista no género, mesmo sem a colaboração de Vatine, a avaliar por Colt Walker, um violento Western para adultos que ilustrou para a Dargaud em 1997, a partir de um argumento do versátil Yann.
Bastante mais clássico no seu desenho “linha clara” é Cães da Pradaria, de Berthet e Foester, título que volta a reunir a dupla de O Olho do Caçador, também oriúndo do catálogo Delcourt e já editado em Portugal pela Meribérica. E se a história de um pistoleiro envelhecido que quer honrar a memória de um velho amigo, transportando o seu corpo para o enterrar junto da mulher que amou, apesar de perseguido por um grupo de caçadores de prémios, faz lembrar o Imperdoável de Clint Eastwood, filme que já nos anos 90 trouxe de novo o Western para a ribalta de Hollywood, a presença de lendas vivas da história americana, como Wild Bill Hicock e Calamity Jane, e a referência ao massacre de Little Big Horn, onde morreu o General Custer, remetem para essa dimensão épica e lendária que encontramos nos grandes clássicos de John Ford e Howard Hawks.

Ainda mais bem conseguido é L’Etoile du Desert, de Marini e Desberg, um Western crepuscular, protagonizado por um político de Washington (com as feições de Sean Connery, o que facilita bastante as coisas, no caso de uma adaptação cinematográfica... ) que empreende uma autêntica descida aos infernos em busca do homem que matou a sua família. Uma história cativante e de grande densidade psicológica, que permite ao suiço Marini um dos melhores  trabalhos da sua carreira.

Repetindo uma fusão entre o Western e as artes marciais, muito em voga nos anos 70, de que chegaram a Portugal algumas histórias desenhadas pelo espanhol José Ortiz, Chinaman de Letendre e Taduc, apresenta a particularidade de ter como protagonista um chinês especialista em artes marciais, à semelhança da série televisiva O Sinal do Dragão, protagonizada por David Caradine e que parece estar na origem desta incursão de Le Tendre e Taduc pelo Western, repetindo uma formula semelhante à que tinham usado na série Les Voyages de Takuan, em que um monge Budista deambula pela Europa durante a Alta Idade Média.

Também Snake, que a Albin Michel lançou em 1999), permite ao leitor ver Abuli e Bernet, a dupla criadora de Torpedo, aplicar ao Western o seu habitual cocktail de sexo, humor negro e violência, que tanto contribuiu para o sucesso mundial das aventuras de Luca Torelli. E se para Abuli esta é a primeira incursão de vulto no Western (se exceptuarmos duas ou três histórias curtas), Bernet, que foi o desenhador do Tex anual de 1996, que já tinha abordado o género em L’Ultimo Sceriffo, uma história em episódios que desenhou para uma revista italiana nos inícios dos anos 80, tem voltado ao western com alguma frequência ilustrando alguns episódios da série Jonah Hex (entre os quais, a origem da personagem) nas nova versão do pistoleiro da cicatriz, escrita por Jimmy Palmiotti e Justin Gray.

Para além de Abuli e Bernet, o humor, embora numa versão muito mais politicamente correcta, também está presente nos clássicos como Chick Bill de Tibet e Lucky Luke de Morris, duas séries que tendo ultrapassado largamente a meia centena de álbuns, prosseguem imperturbáveis um caminho de sucesso. Um sucesso que já está a gerar seguidores, como o Cotton Kid, de Pearce e Leturgie, argumentista regular da série Lucky Luke nos últimos anos de vida de Morris.

E ainda falta falar no regresso pontual ao género de grandes nomes da BD franco-belga, como Franz, com Wyoming Doll, ou em On a tué Wild Bill, o primeiro Western desenhado por Hermann em cores directas (e que cores!) para a colecção Aire Libre da Dupuis. Mas o mais importante western europeu do século XXI é indiscutivelmente Bouncer, a incursão conjunta de Boucq e Jodorowsky pelo Oeste selvagem, numa série em que o universo particular de Jodorowsky (que realizou ele próprio um Western spaguetti psicadélico, El Topo)  se casa de forma harmoniosa com as convenções do Westerns em histórias trágicas com uma dimensão shakespereana e que o magnífico desenho de Boucq faz saltar da página em belíssimas vinhetas em formato cinemascope. Grande sucesso crítico e comercial e série de culto, muito por forças do trabalho gráfico de Boucq, Bouncer faz-nos lamentar ainda mais que o projecto de colaboração com Giraud em Blueberry 1900 nunca se tenha concretizado.
     
 

O WESTERN NA AMÉRICA

Nos EUA, onde o Western sempre viveu muito ligado aos sucessos do cinema e da televisão, a ressureição do Western nos anos 90 também surge associada à fusão com outros géneros, o que não é propriamente novidade, pois Stan Lee e Jack Kirby já tinham ensaiado nos Westerns, em finais dos anos 50, a mesma receita que tornaria tão característicos os super-heróis da Marvel.

Nos anos 90, a renovação começa por se dar dentro da linha Vertigo da DC Comics, normalmente associada ao terror e ao fantástico, numa fusão de géneros que já tinha sido ensaiado em França nos anos 80, em moldes algo diferentes, na série L’Indien Français de Ramaolli e Durand, e mais recentemente por Jean Giraud, na série Jim Cutlass, criada por Charlier, mas a que Giraud e Rossi deram uma outra orientação mais esotérica.  É precisamente a DC que vai convidar o escritor Joe R. Landsdale para recuperar Jonah Hex, um pistoleiro com a face desfigurada por uma cicatriz, criado nos anos 70 por John Albano e que ganhará a sua imagem definitiva em episódios desenhados por Tony Dezuniga, que foram publicados em Portugal em revista própria. Landsdale vai juntar o terror e o western em histórias desenhadas por Timothy Truman, em que Hex enfrenta criaturas fantásticas como o falecido Wild Bill Hicock transformado em zombie pelo inquietante Doc “Cross” Williams. O sucesso desta nova versão de Hex, levou a que a dupla Timothy Truman e Joe Landsdale tenha sido igualmente escolhida para fazer reviver o Lone Ranger, um mito da cultura americana, que agora se vê a combater um demónio vindo do espaço que se faz passar por uma divindade azteca, ao lado do seu fiel companheiro Tonto. Esta peculiar mistura do Western com o fantástico está também presente na série Desperadoes, que Jeff Mariotte e John Cassaday criaram para a Image, em que um peculiar grupo de heróis, que inclui um detective da Pinkerton, um negro e uma prostituta enfrentam um serial killer com poderes sobrenaturais e um grupo de fantasmas que não se apercebeu do fim da Guerra da Secessão.

E, mesmo que a nova versão de Jonah Hex, de Gray e Palmiotti, cuja publicação se iniciou em 2005, tenha abolido o sobrenatural, ele continua presente nas diferentes histórias dos Desperadoes, em que Cassaday dá lugar a diversos desenhadores, de John Severin a Alberto Dose.

Também a série Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon, que conta a história de um pregador do Texas que parte à procura de Deus, acompanhado da namorada e de um vampiro irlandês, pode ser considerada como um Western moderno na linha do filme Vampires de Carpenter. E o próprio Garth Ennis é o primeiro a reconhecer o Western como uma das referências fundamentais no seu trabalho, não sendo pois de admirar que Jesse Custer, o personagem principal, tenha John Wayne como anjo da guarda e que o Saint of Killers, o Anjo Exterminador usado por Deus para os “trabalhos sujos”, seja um pistoleiro inspirado no personagem interpretado por Clint Eastwood no filme Imperdoável, a quem o desenhador Steve Dillon deu as feições de Lee Marvin. E os cenários míticos do Western são abundantemente usados em Preacher, começando pelo Monument Valey, onde o Saint of Killers enfrenta o exército americano, para terminar em El Alamo , onde tem lugar o combate final.

Provando a vitalidade do género, um dos grandes êxitos de vendas da Marvel foi a mini-série Blaze of Glory de John Ostrander e Leonardo Manco. Ostrander, que já tinha abordado o género em The Kents , uma série desenhada pelo inevitável Tim Truman, em que a saga da família de Superman se mistura com a lenda do Oeste americano, narrou em Blaze of Glory os últimos dias das lendas do Oeste da Marvel, como o Rawhide Kid, Kid Colt, Gunhawk e Ghost Rider, juntando-as num último e épico combate contra um bando de desperados contratados por um poderoso proprietário. Um Western crepuscular que a própria Marvel anunciou como o equivalente do filme Imperdoável se tivesse sido filmado por John Woo. A dupla de Blaze of Glory voltaria às planícies poeirentas do velho Oeste com Apache Skies, uma mini-série em que o Rawhide Kid vai vingar a morte do Apache Kid, contando com a ajuda de Rosa, a antiga namorada deste, cuja coragem e perícia com os colts fazem inveja a muitos homens.

Curiosamente, a versão entre o mítico e o realista que Ostrander traça de Johnny Bart, o Rawhide Kid, tem muito pouco a ver com o cowboy gay em que Ron Zimmerman o transforma em Slap Leather , a mini-série de 2003, em que o traço clássico do veterano John Severin está ao serviço de uma divertida história que antecipa em alguns anos o filme Brokeback Mountain. 

Todas estas abordagens, das mais respeitosas, às mais revisionistas, são bem a prova de que, passados os tempos áureos de Hollywood e dos Western-spaguettis de Sergio Leone, mais do que nas telas do cinema, o mito do velho Oeste mantém-se bem vivo nas páginas de Banda Desenhada que continuam a ser (bem) feitas dos dois lados do Atlântico.
       

João Miguel Lameiras*

* Com um agradecimento especial a José Carlos Francisco, cujo convite para recuperar este texto (publicado originalmente na revista Selecções BD, em 2001) no blog do Tex, me deu o pretexto ideal para o actualizar.
            

JOÃO MIGUEL LAMEIRAS

Copyright: © 2001 "Selecções BD nº 27"; João Miguel Lameiras



[1] Argumentista, crítico e divulgador de Banda Desenhada.
     

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23 de Agosto de 2007

O WESTERN NA BD EUROPEIA

Texto da Revista Selecções BD nº 29, de Março de 2001
Por Jorge Magalhães[1] 

O "WESTERN" NA BD EUROPEIA

FOI NA EUROPA QUE AS HISTÓRIAS AOS QUADRADINHOS DE "COW-BOYS” ENCONTRARAM O SEU CAMPO FAVORITO E OS SEUS CRIADORES PRIVILEGIADOS, GRAÇAS AO INTENSO FASCÍNIO PELO GÉNERO QUE, ALIADO A CONSIDERÁVEIS DOTES ARTÍSTICOS, PERMITIU AOS AUTORES EUROPEUS TRANSPLANTAREM PARA O SEU PRÓPRIO TERRENO AS RAÍZES DO MITO SEM PERDA DE CREDIBILIDADE, FENÓMENO QUE TEVE CORRESPONDÊNCIA NOS "WESTERNS SPAGHETTI" DIRIGIDOS POR REALIZADORES COMO SERGIO LEONE, DUCCIO TESSARI E SÉRGIO
CORBUCCI, EMBORA OS ACTORES QUE ENCARNAVAM OS PAPÉIS PRINCIPAIS FOSSEM PREFERENCIALMENTE AMERICANOS.

Muitos dos maiores desenhadores europeus renderam-se á magia e ao sortilégio do “western" desde os primórdios da sua carreira. E escolas como a inglesa, a italiana e a francesa, em que a tradição da BD realista cedo começou a impor-se, como catalisadora de uma intriga puramente aventurosa, produziram um florilégio de séries e de personagens que procuravam imitar o ritmo e o movimento dos "westerns" americanos, por vezes ainda com menores resultados.
Desde os pioneiros como Walter Booth com Rob the Rover [Pelo Mundo Fora] (1920), Marijac com Jim Boum (1931), Reg Perrott com a sua mítica The Golden Arrow [A Flecha de Ouro] (1937), que deslumbrou os leitores do Mosquito, Rino Albertarelli e Walter Molino com Kit Carson (1937), Le Rallic com Poncho Libertas (1944), René Giffey com Buffalo Bill (1946), Jesus Blasco com Cuto nos Domínios dos Sioux (1946), E.T. Coelho com Falcão Negro (1946), Francisco Batet com El Coyote (1947), Camilo Zuffi com O Pequeno Xerife (1948), Bonelli e Galleppini com Tex Willer (1948) — Inquestionavelmente o mais famoso "cow-boy" da BD europeia, tanto pela sua longevidade como pela evolução gráfica que sofreu, ao longo de 50 anos, nas mãos de diversos desenhadores —, Dut e Marijac com Sitting Bull (1948) — uma obra-prima com mais de 300 paginas e um dos primeiros "westerns" realistas a abordar sem maniqueísmos o confronto entre brancos e índios, antecipando-se a filmes como Broken Arrow [Flecha Quebrada] —, De Vita e Paparella com Pecos Bill (1949), Lecureux e Nortier com Sam Billie Bill (1949), Vitor Péon com Tomahawk Tom (1950), os artistas da velha Europa mantiveram sempre vivo o seu fascínio pelo "western", acompanhando com entusiasmo o desenvolvimento da própria matriz cinematográfica. E o fruto dessa intensa relação foram algumasobras admiráveis, cujos padrões artísticos, temáticos, sociológicos, éticos e culturais elevaram o género a um nível raramente atingido nos "comics" norte-americanos.

A IDADE DE OURO DO "WESTERN" EUROPEU

A evolução do "western" nos anos 50 fez com que o género, seguindo rumos diferentes na Europa e nos Estados Unidos se alargasse progressivamente a outros tópicos, englobando-os no mesmo esquema típico, como, por exemplo, a aventura de fundo histórico baseada em acontecimentos verídicos — viagens de exploração, guerras coloniais e da Independência, episódios da conquista do Oeste, biografias de figuras célebres —, sem esquecer um tema com múltiplos atractivos: a saga dos índios vista por dentro, numa perspectiva mais romântica e redutora do que cultural.

Todas essas vertentes desaguaram no mesmo espaço mítico, alargando geográfica e temporalmente as fronteiras do género, cujos códigos se tornaram, assim, muito mais difusos. Em vez da imagem, criada pelo Cinema, do tradicional "cow-boy" de lenço ao pescoço, chapéu de abas largas e safões compridos, cujo raciocínio era tão simples como o do seu inseparável "mustang", mas disparava "mais depressa do que a própria sombra", surgiram heróis dos mais variados tipos, mergulhando as suas raízes na tradição histórica e etnográfica, incomensuravelmente mais genuína, libertos do primarismo psicológico que se encontra em larga escala nas criações dos anos 30 e 40. Entre as séries que caracterizam a abordagem peculiar da mitologia do "western" pela BD europeia, na segunda metade do século XX, há várias dezenas de títulos que se distinguem pelo seu fulgor criativo, tendo alguns deles aberto novas vias à expressão gráfica da epopeia do Oeste:

Riders of the Range (1950), por Charles Chilton e Frank Humphris — o primeiro grande "western" inglês dos anos 50, publicado na Eagle, revista de referência dessa década;
Bessy (1952), por Willy Vandersteen — as aventuras de um herói canino, émulo da popular cadela Lassie, recheadas de apontamentos sobre a natureza e a vida animal, que fizeram as delicias de muitos leitores, transformando-a numa das séries carismáticas do Cavaleiro Andante, ou o exemplo perfeito de uma BD mais apoiada no argumento do que nos desenhos;

Jerry Spring (1954), por Joseph Gillain (Jijé) — a obra-prima de um pioneiro da BD franco-belga e grande especialista do "western", com quem Jean Giraud aprendeu todos os segredos do oficio;

Matt Marriott (1955) por Tony Weare — um "western" adulto, com personagens verosímeis e de grande espessura psicológica;
Gun Law (1956), por Harry Bishop — com Matt Dillon, o famoso "marshall" de Dodge City e astro da série televisiva Gunsmoke;  

Wes Slade (1960) por George Stokes — outro vigoroso "western" inglês, embora mais tradicional na sua concepção do que Matt Marriott;
Tenente Blueberry (1963) por Gir e Charlier— a mais célebre saga do Oeste à escala mundial, concebida por dois dos maiores autores do género, com personagens indeléveis, de pitoresco recorte, e um ritmo e uma montagem que remetem claramente para os "westerns" de Ford, Hawks e Leone;

Sargento Kirk, por Hector Oesterheld e Hugo Pratt — um militar rebelde que toma o partido dos índios, criado na Argentina em 1953, dez anos antes da saga de Forte Navajo se estrear no Pilote, e que deu o título a uma revista célebre, onde as criações de Pratt e de outros artistas italianos foram largamente divulgadas a partir de 1967. Da colaboração entre Pratt e Oesterheld nasceram também duas grandes epopeias, com a guerra entre franceses e ingleses como pano de fundo: Ticonderoga (l957) e Fort Wheeling (1962), demonstrando a vitalidade da escola argentina, que teve em Oesterheld, escritor versátil e de espírito abertamente progressista, um dos seus maiores expoentes;
Storia del West (1967), por Gino d'Antonio, Renzo Calegari, Sérgio Tarquínio e outros — a mais longa saga até hoje escrita e desenhada sobre o Oeste americano, e uma das mais perfeitas no plano artístico e narrativo, acompanhando a vida e atribulações de uma família de pioneiros, num fluxo contínuo assinalado pelos principais acontecimentos da história da colonização, desde a queda do Álamo e a marcha para o Oeste ao extermínio dos índios e ao crepúsculo dos pistoleiros;
Comanche (1969), por Hermann e Greg — um dos melhores "westerns" europeus, fiel também aos cânones de Hollywood, que poderia ter rivalizado com Blueberry se Hermann não tivesse seguido outros caminhos;
Sunday (1970), por Vitor Mora e Vitor de la Fuente — um lacónico e soturno aventureiro que carrega lembranças amargas, numa errância solitária onde se cruza com personagens tão atormentadas como ele;
Manos Kelly (1970), por António Hernandez Palácios — obra-prima do "western" hispânico, cujo estilo barroco se expande pelas tonalidades ardentes e o ritmo dolente da narrativa;
I Protagonisti (1971), por Rino Albertarelli — o estilo minucioso de um veterano da BD italiana, numa obra rigorosamente documental com as biografias verídicas de alguns dos principais protagonistas da história do Oeste: Billy the Kid, Custer, Gerónimo, Wyatt Earp, Wild Bild Hicock, etc;
Buddy Longway (1972) e Celui qui est né deux fois (1981), por Derib —dois "westerns" de cariz ecológico, onde se respira a largos haustos a comunhão com a natureza. Em 1988, Derib iniciou uma nova série com o mesmo tema, Red Road, centrada sobre a actualidade e o difícil desafio que constitui para os índios americanos a integração num mundo que repudia o seu espírito panteísta;
Jonathan Cartland (1974), por Blanc-Dumont e Laurence Harlé — um dos mais originais "westerns" europeus, que explora a profundidade dos grandes espaços, os abismos da mente humana e o misticismo das crenças primitivas, afastando-se abertamente de outros expoentes do género;
Mac Coy (1974), por Gourmelen e Palácios — a mais fiel aproximação aos tiques e convenções dos heróis do "western", depois de Blueberry;
Os Peles-Vermelhas (1974), por Hans Kresse — uma longa saga sobre as tribos índias do sudoeste americano, por um desenhador holandês de traço firme e expressivo com um sólido fundo documental e histórico;
Grandes Mitos del Oeste (1975), por José Toutain e José Ortiz — outra série excelentemente documentada sobre os heróis célebres (alguns de triste memória) da epopeia do Oeste, que tem a valorizá-la o traço vigoroso e expressionista de um dos maiores desenhadores espanhóis da sua geração;
West (1975), por Eleuteri Serpieri — as figuras lendárias de Custer, Sitting Bull, Crazy Horse e outros mitos do Oeste recriadas, num estilo barroco e sumptuoso, pelo famoso autor de Druuna, que ao fascínio do erotismo alia a paixão do "western";
Jim Cutlass (1976), por Charlier, Giraud e Rossi — curioso exercício à margem de Blueberry, explorando caminhos mais exóticos, num estilo gráfico desenvolto que Rossi se esforçou por manter;
L'Indien Français (1977), por Ramaioli e Durand — um dos mais estranhos "westerns" da B D europeia, que revive, num estilo influenciado por Gir e Jijé, o genocídio da raça índia, aliando o fantástico e a magia ao realismo dos cenários e das personagens;
Ken Parker (1977), por Berardi, Milazzo, Calegari e outros — excelente exemplo da maturidade do "western" italiano, com todos os ingredientes do género vertidos num guião inventivo e inteligente, que o traço fluido e dinâmico de Milazzo valoriza ainda mais;
Welcome to Springville (1977), por Berardi, Calegari e Milazzo — a história de uma cidade e do destino individual dos seus habitantes, em que se entrelaçam habilmente humor, drama e aventura.
Los Gringos (1979), por Charlier, Guy Vidal e Vitor de la Fuente — um "western" terminal, no cenário da guerra civil mexicana, onde surge, a páginas tantas, um Blueberry gasto e envelhecido, à beira da reforma;
Durango (1981), por Yves Swolfs — a atmosfera do "western-spaghetti" numa série dura e violenta que veio dar novo fôlego à BD "western" de expressão francesa;
Les Pionniers du Nouveau Monde (1982), por Jean-François Charles e Ersel — uma romântica e telúrica epopeia, que prima pela veracidade histórica, no quadro da guerra colonial entre as duas maiores potências europeias da época;
Verão Índio (1983), por Pratt e Manara —o fôlego épico de um mestre da aventura e a envolvente sensualidade de um mestre do erotismo, num grande fresco histórico em que o desejo, a luxúria, o ciúme e o ódio provocam -ma série de acontecimentos trágicos; História do Far-West (1985), por Marcello, Serpieri, Frisano, Buzzelli, Bielsa, d'Antonio e outros — obra repartida por diversos episódios, publicados em fascículos pela conceituada Larousse, contando a história factual do Oeste americano, com a colaboração de excelentes artistas;
Trent (1988), por Rodolph e Leo — o inesperado regresso da BD a um tema que parecia mergulhado num profundo letargo: as aventuras da Polícia Montada.
Outra obras — embora de menor fôlego e, nalguns casos, sem um herói titular, destinadas maioritariamente ao mercado das revistas, numa época em que ainda não proliferavam os álbuns — merecem também especial referência: TeddyBill (1950), por Le Rallic; As Grandes Águas (1951), por Roudolph e Giovannini: Lobo Branco (1953), por Gellardini e Polese; Dakota Jim (1954), por Caprioli; O Forte do Huron (1956), por Gino d'Antonio; O Tambor do Regimento (1957), por Ron Embleton; Billy James (1962), por Milani e Pratt; Wapi (1962), por Paul Cuvelier; Teddy Ted (1963), por Lecureux e Forton; Ringo (1965), por Acar e Vance; Los Guerrilleros (1968), por Jesus Blasco; Loup Noir (1969), por Ollivier e Kline; Larry Yuma (1970), por Nizzi e Boscarato; Go West (1971), por Derib; A Saga do Grizzly (1971), por Auclair; Nevada Hill (1973), por Buzzelli; Amargo (1975), por Mora e La Fuente ; Ayak, o Lobo Branco (1979), por Ollivier e E. T. Coelho; Jesuite Joe (1980), por Hugo Pratt; Quatro Dedos, o Homem de Papel (1982), por Manara; A Índia Branca (1983), por Serpieri; Irigo (1985), por Dufaux e José Pires.

DA PARÓDIA AO NOVO REALISMO


Mas falar da BD "western" europeia sem referir também as séries humorísticas é esquecer uma parte importante e significativa da sua produção, tanto mais que os artistas europeus foram aparentemente tão férteis, nesse domínio como os seus congéneres americanos.
Lucky Luke, criado por Morris em 1946, é a personagem emblemática do "western" humorístico e a sua popularidade conseguiu igualar a de Tintin e Astérix em muitos países, acabando também por conquistar o relutante mercado anglo-saxónico. Depois da sacramental passagem ao cinema de animação, o "cow-boy" que dispara duas vezes mais depressa do que a própria sombra foi também vedeta do grande ecrã em 1991, por intermédio de Terence Hill, num filme mal recebido pelo público e pela crítica.
Outras hilariantes criações, como Chapéus Negros (1950), de Franquin, uma aventura de Spirou, incansável "globe-trotter" e "groom" para todo o serviço; Blondin e Cirage no México (1951), de Jijé; Chick Bill (1953), de Tibet; Coco Bill (1957), do grande
desenhador italiano Benito Jacovitti; Oumpah Pah (1958), de Goscinny e Uderzo; Whamoka (1963), de Devos e Salvé; Les Tuniques Bleues (1968), de Cauvin e Lambil; Zorry Kid (1968), de Jacovitti; Piccolo Dente (1970), de Lino Landolfi; Yakari (1970), de Derib e Job; Capitão Rogers (1981), de Cavazzano; Smith & Wesson (1983), de Tranchand; Cotton Kid (1999), de Pearce e Leturgie —, traçaram o percurso do "western" humorístico na BD europeia, paralelament à evolução do seu irmão mais velho, o "western" realista, de que foi sempre um reflexo irresistivelmente paródico.

A renovação da BD "western" nos anos 90, em França, originou um caudal de séries criadas por artistas jovens, mas já de grande maturidade gráfica, sem qualquer parentesco, na maioria dos casos, com o universo do "western" tradicional (leia-se, a propósito, o artigo de João Lameiras: O "western" na BD Contemporânea, publicado nas SBD nº 27). – Nota: Em breve o blogue do Tex, também apresentará este texto.

A singularidade de tais experiências, com propostas por vezes arrojadas e inovadoras, tanto formal como tematicamente, teve um impacto considerável e a BD "western" voltou a conquistar a preferência de largas camadas de público. Em Itália, séries de assinalável longevidade, como Tex e Zagor, continuam de pedra e cal como "bestl-sellers", embora a produção de "westerns" italianos tlenha estagnado e obras como River Crossing (1996), de Renzo Calegari, Magico Vento (1997), de José Ortiz, e Cheyenne (1998) de Renato Polese, sejam hoje casos isolados.

JORGE MAGALHÃES

Copyright: © 2001 "Selecções BD nº 29"; Jorge Magalhães


 

[1] Editor, autor de banda desenhada (argumentista), autor de numerosos textos de estudo, análise e história da BD, em livros, revistas, jornais e fanzines e também leitor e coleccionador de Tex Willer.

 

(Para aproveitar a extensão completa das fotos e desenhos acima clique nos mesmos)


 

As imagens deste artigo foram enviadas pelo jornalista João Miguel Lameiras.

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