Fanzine "A Conquista do Oeste" - Maio/Novembro 2001 - Página 46 - "Heróis" do Oeste: Hopalong Cassidy
"HOPALONG CASSIDY"
De 1930 a 1940 os filmes de “western” alcançaram um grande “boom”. Talvez devido aos artistas que interpretavam na tela, as várias figuras de “cow-boys”, mascarados, vingadores, “sheriffs”, marshalls”, etc. e que já tinham dado mostras das suas potencialidades artísticas, na época do Cinema mudo, os êxitos dessas películas estavam garantidos.Assim, muitos actores, tais como Tom Mix, Buck Jones, Tim Mc Coy ou Ken Maynard, davam uma certa ideia da vida no Oeste, embora na altura se desconhecesse de como ela era na realidade, o que só viria a acontecer duas ou três décadas depois. Esses filmes eram realizados à média de dois ou três de cada vez, para evitar custos nas deslocações e os resultados, muitas vezes, não eram famosos. Mas a apetência dos espectadores para essa nova forma de entretenimento era tal, que todas as falhas ou deficiências eram toleradas.
Em 1935 a Paramount lança uma nova série de filmes, com a personagem “Hopalong Cassidy”, baseada na figura criada por Clarence Edward Mulford. Rapidamente atingirá o seu apogeu no sucesso, por volta dos anos 40, mantendo-se assim, inalterável, durante essa década. Tal era devido ao carisma do actor, que interpretava a figura da personagem principal, William Boyd (um artista que já tinha trabalhado com Cecil B. De Mille, no tempo do Cinema mudo).Um tal sucesso da série, levá-la-ia inevitavelmente à Banda Desenhada, o que acontece em Novembro de 1942, quando surgem as aventuras de “Hopalong Cassidy” na revista “Master Comics” nº 33, editada pela Fawcett. Mais tarde teria revista própria de 1943 a 1954, passando depois para as mãos da editora National Periodicals até 1959 e, posteriormente, para a Charlton Comics até 1965, terminando nessa altura. Apesar dos “comic-books” tentarem que as Histórias aos Quadradinhos da personagem fossem, da melhor qualidade (vários artistas ocuparam-se da série, entre ele, Gene Colan), seria nas páginas dos jornais que a série teria melhor apresentação.

Para tal, William Boud, pessoalmente, contratou o jovem Dan Spiegle, saído da Escola das Artes, em 1949. No início Spiegle captou perfeitamente o espírito, a personalidade e o carácter do “herói”. “Hopalong Cassidy” não era nem “sheriff” nem “marshall” e nem sequer assumia o papel de cavaleiro errante do Oeste. Unicamente se apresentava como capataz do rancho “Bar 20”.
“Hoppy” em muitas das suas aventuras persegue os vilões e ladrões de gado. Uma vez vai do Texas, através do Colorado e Montana, até às canadian Rockies (numa viagem de 3000 quilómetros), na perseguição de 5 irmãos que tinham roubado o rancho “Bar 20”. Chega mesmo a embarcar para a Austrália, onde ajuda as autoridades locais a prender um bando, que aterrorizava o país, escapando à morte, quando é capturado por uma tribo de aborígenes.Estes são alguns exemplos dos textos das histórias, escritos por Royal King Cole. A série atinge o seu maior êxito na sua arte, nos anos de 1952/1953, quando Spiegle desenha fabulosos cavalos e belas cenas de acção, com vinhetas concebidas de forma inteligente e onde as perspectivas não falhavam nos mínimos pormenores. A série viria a ser publicada em cerca de 200 jornais. Não há dúvida que a série se assemelhava aos filmes, ultrapassando algumas vezes aqueles em qualidade.
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Todos nós gostamos de fantasia. É mais agradável. Ninguém gosta da realidade, quando ela nos oferece dissabores, intrigas, fome, miséria, morte e todas as coisas que a vida tem de mau. Assim, é muito natural que as histórias sobre o Oeste só nos oferecessem fantasia. Deste modo, a verdadeira História de um povo e de uma colonização pode ser camuflada pela lenda. E assim seria durante algumas décadas. E não foi só a Banda Desenhada que se serviria da fórmula, para conquistar público. O mesmo aconteceria com a Literatura, com o Cinema e com a TV.
Sabe, por acaso, dizer quem foi o primeiro intérprete de “The Lone Ranger”? Provavelmente não. Foi um desconhecido, um homem chamado Jack Dodds que, em 1933, iniciou as novelas radiofónicas do famoso “herói”. Mas ficou só por um mês. Foi substituído por George Seaton (que mais tarde se tornaria um conhecido realizador de Cinema). Este também trabalhou pouco, sendo substituído por Earle Graser. Quando este morreu em 1941, Brace Beemer começou a ser a voz de “The Lone Ranger”. Deixou de o seu unicamente em 1954, com o cancelamento do programa.

Uma bala de prata identificava-o sempre, perante as autoridades locais, já que a sua máscara despertava algumas dúvidas da sua honestidade. “The Lone Ranger” com a sua máscara, representava a justiça cega. A sua missão era impor a lei, onde ela não existisse. As suas balas de prata, na crença popular, representavam o símbolo da aniquilação do mal pelo bem. O próprio “Tonto” era a união das duas raças, índios e brancos, no desejo de encontrarem justiça e igualdade para todos, até porque ele era tratado com dignidade.
Trendle era um homem de negócios. Quando viu que a personagem poderia ser uma fonte de lucro, resolveu criar a firma “The Lone Ranger Inc.”. A partir daqui começaram a surgir todo o tipo de brinquedos, roupas, livros, etc., tudo com o nome de “The Lone Ranger”. Daqui ao Cinema, foi um passo e Trandle vendeu os direitos a Hollywood. O primeiro filme apareceu em 1938, um seriado de 15 episódios, com o título de “The Lone Ranger” e com os artistas Lee Powell no papel do “herói” e o Chief Thundercloud no papel de “Tonto”. No ano seguinte aparece “The Lone Ranger Rides Again”, desta vez com Robert Livingston. Ambos os filmes fogem ao texto original.
O aparecimento de Flanders, ajudou a que as editoras estrangeiras tomassem a decisão de publicar as respectivas histórias, ainda que o novo desenhador também não tivesse um grande currículo, no campo da Banda Desenhada, já que só tinha desenhado “Robin Hood” (menos mau) e participado em “Tim Tyler” e no “Agente Secreto X-9” e, em qualquer uma delas, não primou pela qualidade. A sua melhor produção sobre esta personagem encontra-se talvez, de 1944 a 1950, onde o artista, em toda a sua maturidade, conseguiria criar algumas vinhetas com algum impacto, embora nada de extraordinário.

É claro que nada disto é novidade para ninguém e, todos nós sabemos, que muitas marcas de produtos, resolvem, de vez em quando, editar qualquer brochura em Banda Desenhada, fazendo promoção aos seus artigos ou à sua marca. Em Portugal tem acontecido isso, sistematicamente e há já, uma série de revistas ou álbuns, que apareceram editados quer por marcas quer por Câmaras, Freguesias ou entidades particulares, que nos deixam a cabeça em água viva para os detectar, muitas vezes sem sucesso.
Com Tom colaboraram outros desenhadores ao longo dos anos, tais como Keats Petree (nascido em 1919), que se ocupa da série “The Lone Ranger” em 1954, antes de realizar “Nick Halliday” (1954-1956), outra tira quotidiana, Ted Galindo (nascido em 1927), que desenhará também a série, ainda em 1954 e Jim Christiansen (nascido igualmente em 1927), que se ocupará de algumas histórias em 1955. Depois será ainda a vez de Bill Martin em 1954 e Herb Trimpe (1960-1962), este último um autor bastante conhecido, pela criação de várias séries de “super-heróis” a partir de 1966 para a Marvel. Tom Gill soube dar à série um aspecto gráfico muito razoável. Tom Gill já tinha sido ajudante (fantasma) de Charles Flanders, nos anos cinquenta, como colaborador da série, pelo que possuía já alguma prática.
Com o Nº 145 (Maio-Julho 62), a Dell suspende “The Lone Ranger”. Mas será a Gold Key a reiniciar a publicação da revista, a partir do seu Nº 1 (Setembro de 1964), de novo com Tom Gill e com a republicação de velhas histórias. A série prosseguirá com algumas pausas (em 1970-71 e 1973 não foram publicados quaisquer números), terminando em Março de 1977, com 28 números editados. Em 1972 Tom Gill deixa a série que será continuada por John Warner (textos) e Frank Boll e Don Heck (desenhos). José Delbo ainda tentou reanimar a personagem, com a criação de novas histórias, mas sem êxito.
Se Charles Flanders levou a série a um lugar cimeiro no panorama da Banda Desenhada, também arranjaria maneira de a deixar cair, pouco a pouco. Os anos 50 mostravam já a sua decadência. Teve ajudantes, devido a problemas com a bebida. Tom Gill, foi um dos melhores, mas, mesmo assim, a série foi perdendo qualidade. O argumentista foi mudado e seria igualmente Paul S. Newman a substituir Bob Green, nas páginas dos jornais. Nada conseguiria que a série sobrevivesse, depois de tanto sucesso.
O “ZORRO” (o nome que lhe seria dado no Brasil e em outros países), foi lançado no Brasil na revista “Gibi” Nº 2, datado de 16/4/39), na página central e a cores, da autoria de Ed Kressy. Em 1940, as suas aventuras passam a ser incluídas em “O Globo Juvenil” em página e continua no “Gibi” em tiras. Nos “Almanaques de O Globo Juvenil”, anos 1941 a 1950, as suas histórias tiveram sempre uma aparição constante.
O “Guri”, a partir do seu Nº 255 (1951), passa a incluir nas suas páginas também, as aventuras de “The Lone Ranger”.





Ali inscreve-se num curso de Arte e acaba por desenhar uma série de “cow-boys”, em 1957, que oferece a vários Sindicatos, sem sucesso. Chamava-se “Rick O’Shay”. Um ano depois vamos encontrar a sua personagem a ser publicada nos jornais, até 1977, altura em que o autor deixa de a criar. Em 1977 e 1978 desenha "John Darling”, sem êxito. Um ano depois é a vez de “Latigo”, que será publicado durante quatro anos.
Em 1990 funda com a sua esposa Lynda, uma sociedade para republicar os seus trabalhos antigos sobre “Rick O’Shay”, dos quais possuía os seus direitos. Esta tinha sido uma das suas razões, porque deixaria de trabalhar para o Sindicato e também de desenhar a sua série, depois de não ter chegado a acordo com aquele, para continuar “Rick O’Shay”.





Nascido a 26 de Junho de 1907, em Mayville, Charles Flanders era filho de um pintor que o ajudou a seguir a carreira artística. Estuda em várias escolas e acaba por ensinar desenho. Em 1928 parte para Nova Iorque e dedica-se à publicidade. Vai então ilustrando algumas revistas. Mais tarde, já se encontra como colaborador da King Features Syndicate e desenhador "fantasma" das séries "Bringing Up Father" de Mc Manus e "Tim Tyler's Luck" de Lyman Young, em 1934.
Em 1938 cria uma série dominical a cores sobre "Robin Hood", que seria terminada pelo italiano A. M. Nardi e cujo sucesso nunca atingiria. Volta de novo a ser um desenhador "fantasma", desta vez da personagem "The King of The Royal Mounted" de Allen Dean, ao ocupar-se das páginas dominicais.
É então que, pela primeira vez, encontra uma série, à qual irá dedicar em pleno, o pouco do seu talento. Trata-se da série "The Lone Ranger", que desenhará durante mais de 30 anos. Em 1971 a série termina e Charles Flanders vai viver para Palma de Maiorca, onde morrerá a 10/1/73.
Arturo Del Castillo nasceu em 1925, em Concepciòn, no Chile.
E este mal repete-se quando ele cria três novas personagens "El Cobra", "Pat Garrett" (1962/1965 com textos de Ray Colïins) e "Kendall", com as mesmíssimas feições.
De 1974/1979 cria "El Cobra", que balança entre um "herói" bom e mau, possuidor de um passado misterioso. Os textos são de Ray Collins também.
Mantovi nasceu em Itália, em Janeiro de 1945 e veio para o Rio de Janeiro, aos 9 anos de idade. Para imitar o irmão, resolveria começar a desenhar. Em 1964 começa a trabalhar na Rio Gráfica e Editora, onde dá os primeiros passos na arte de Ilustração. A partir de Dezembro de 1965 desenha 8 histórias de uma personagem ligada aos "cow-boys" de que gostava, cujo nome era "Rocky Lane", uma figura do Cinema da década de 40. Terminaria essa tarefa em Janeiro de 1968. A sua actividade passa então a estar ligada à execução de capas de revistas, publicadas pela editora. Chegaria às 200 capas. Também se ocuparia de ilustrações.
A sua grande oportunidade dá-se, quando a revista "Recruta Zero" deixou de ter material norte-americano para publicar. A oferta veio e o desafio foi vencido pelo autor. Não só para a Rio Gráfica como para a Saber, escreveu e desenhou histórias daquela personagem de Novembro de 1968 a Janeiro de 1971. Em Janeiro de 1972 cria o palhaço "Sacarrolha", que atingiria tiragens na ordem dos 130.000/160.000 exemplares por revista.
Em 1980 funda a Pejota Produções Artísticas, para lançar "Sacarrolha" no campo do Merchandising. Em Outubro de 1983, juntamente com Rodolfo Zalla, com quem já tinha trabalhado em histórias do "Zorro" e numa história da vida do "Papa João Paulo II", resolve lançar a nova revista "Diversões do Sacarrolha". Depois liga-se às personagens do Walt Disney, de "Luluzinha", "Moranguinho" e "He-Man".
Mas este é um pequeno exemplo, pois há muitos mais. O engraçado é que houve coleccionadores a guardarem ciosamente o número dessa revista, convencidos que se tratava de um trabalho raro de John Prentice (autor de "Rip Kirby" e que nunca desenhou outra personagem senão esta, até à sua morte, recentemente).
O "Gringo" de Carlos Gimenéz transformou-se em "Dr. Robledo", que por sua vez se transformava em "O Cavaleiro Negro", através do hábil pincel de Walmir Amaral de Oliveira. E assim, pelas ruas da amargura, se posteriormente este autor tem continuado a criar material para as suas personagens "Sacarrolha" e "Veterinário", outra figura que entretanto tinha lançado no mercado, igualmente com algum êxito.
Iniciou-se na vida artística com trabalhos para o "Tico-Tico" (João Charuto) e para a "Vida Juvenil" (Aventuras de Armando).







Hugo Pratt nasceu a 15 de Julho de 1927, numa praia perto de Rimini (terra do realizador Fellini). Ali viveu até aos 10 anos de idade, altura em que, juntamente com os seus pais, partiu para a Etiópia (colónia italiana), ficando nesse país a estudar. Seu pai era um funcionário colonial e esse primeiro contacto com a realidade, marcaria muito o seu futuro de artista, influenciando toda a sua produção, o que se irá verificar logo em "Junglemen", executado na Itália, com um grafismo ainda incipiente, mas já com a influência de outros desenhadores. Em 1943 volta a Veneza e, pouco depois, com Ongaro e Faustinelli, cria as aventuras de "Asso di Piche", que não teve a aceitação dos leitores. Por esta altura Hugo Pratt parte para a Argentina, juntamente com outros desenhadores italianos seus colegas.
Convém fazer aqui um parêntesis. Quanto a nós, Hugo Pratt foi um dos melhores, para não dizer o melhor contador de histórias que apareceu na 9ª. arte. Dificilmente se poderá encontrar outro autor de argumentos tão bom...como ele... Talvez Héctor Oesterheld, Goscinny, Greg, Charlier e poucos mais... De qualquer dos modos, Hugo Pratt não era um bom desenhador. Era sim um bom aguarelista... As suas personagens eram esboçadas... Depois faltava o resto... os próprios rostos não primavam pela beleza...
De todas as suas personagens indicadas atrás, diremos que "Wheeling" seria a executada com maior cuidado, antes de se dedicar em pleno ao seu "herói" principal. Em 1960 vamos encontrá-lo a ensinar arte, na Escola Panamericana de Arte, em Buenos Aires. Ao mesmo tempo trabalha para a "Daily Mirror Group", para o "Sunday Pictorial" e para a "Amalgamated Press of London" (mais tarde Fleetway), todas de Inglaterra, fazendo histórias de guerra e ilustrando as aventuras de "Battler Britton". Em 1962 vai para o Brasil, onde conhecerá Jayme Cortez e outros autores brasileiros. De regresso a Itália passa a criar as seguintes obras, no mesmo ano: "Le Avventure de Billy James" e "Le Leggende Indiane".
Pratt colaborou também na colecção "Um Homem Uma Aventura", com "L'Uomo Dei Caraibi" (1977), "L'Uomo Del Sertão" (1978) e "L'Uomo Del Grand Nord" (1980). Neste mesmo ano retoma a série "Wheeling" para a revista "Metal Hurlant".
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Essas palavras só invocam os seres das trevas
Continue desenhando que você prome
Parabéns pela entrevista, mas ficou faltando