04 de Julho de 2008

Índice de entrevistas



Ano 2008

Stefano ANDREUCCI - 04/07

Marco SANTUCCI - 27/06

Paulo GUANAES - 30/05

Pasquale DEL VECCHIO - 15/05

Marcos MALDONADO Rodrigues - 25/04

Gianfranco MANFREDI - 07/02

Claudio VILLA - 23/01

Dr. José Maria Prazeres PÓS-DE-MINA - 10/01

Ano 2007


Carlos RICO - 28/10

Ernesto Garcia SEIJAS - 23/09

Fabio CIVITELLI - 19/09

Miguel Angel REPETTO - 11/09

Fabio CIVITELLI - 28/05

Fabio CIVITELLI - 12/04
  
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Entrevista exclusiva: STEFANO ANDREUCCI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Carlo Monni e Enzo Pedroni na formulação das perguntas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão.

Stefano Andreucci, profissão desenhador de BD: como foi o seu início como desenhador e, em especial, quando e como começou a trabalhar para a Bonelli?
Stefano Andreucci: Eu comecei com o estúdio de Dino Leonetti, em Roma. Depois, conheci Francesco Coniglio (Coniglio Editore), fiz algumas histórias eróticas e trabalhei para as revistas Splatter e Mostri. No final de 1991 apresentei meu material à Sergio Bonelli Editore. Da primeira vez não deu certo, mas apenas um mês depois tentei de novo e fui aceito (bondade deles!) Foi assim que comecei a desenhar Zagor.

Na sua actividade de desenhador, quais são os seus mestres, se existem? Há desenhadores que você estima de modo particular? Em caso positivo, quais e porque?
Stefano Andreucci: São tantos desenhadores que eu gostaria de "imitar". Muitos, para poder citar todos. Mas se devo dizer o nome de um, digo Giovanni Ticci. Eu gostava e gosto imenso. Mas também acrescento o meu professor do Secundário, Nino Giammarco, com seus traços quentes e pastosos. Por fim, o meu irmão Roberto, que eu olhava desenhar quando eu era pequeno.

Que lugar tiveram os quadradinhos, principalmente os Bonellis, na sua infância?
Stefano Andreucci: Eu lia todas as revistas que os meus irmãos compravam: Batman, Superman, O Fantasma e por aí fora, mas principalmente Zagor e Tex. Fantásticos!

Quando e como seus primeiros trabalhos foram publicados?
Stefano Andreucci: Foi com o estúdio romano de Dino Leonetti, ao desenhar para Tilt e Boy Comics por volta de 1986.

O seu primeiro personagem bonelliano foi Zagor, para quem você desenhou 4 histórias, três delas escritas por Boselli. Qual foi seu impacto com Zagor e o que você achou de Boselli como roteirista?
Stefano Andreucci: No início foi difícil dever adaptar-se ao estilo de outro - embora grande - desenhador. Mas havia muito a aprender e eu me dediquei com afinco. Mas com as histórias de Cain (que eu criei graficamente) eu me senti à vontade e me diverti bastante. A colaboração com Boselli seguia bem e eu colocava algo de meu, apesar da nossa visão narrativa não ser exactamente a mesma. Eu gosto muito de Mauro, com quem colaboro desde 1993.

Passemos ao Ranger que dá nome a este blogue: na sua opinião, quem ou o que é Tex? O que mais lhe agrada e o que menos lhe agrada no Ranger?
Stefano Andreucci: Tex vai bem como está, e os números confirmam isso. Porém eu gostaria de ver o Tex Gigante (Texone) ser explorado de outra forma. Um trabalho de autor, é isso. Eu também chamaria argumentistas diferentes.

Em 2003 saiu o Almanaque do Oeste com a sua história "Herói por Acaso". Depois disso você não desenhou mais Tex. Porque a sua colaboração com Ranger foi tão curta.
Stefano Andreucci: Creio que não agradei a Sergio (Bonelli). Eu me explico deste modo.

Você gostaria de continuar a desenhar as aventuras do Ranger mais famoso da BD ou, como aconteceu com alguns de seus colegas, que recentemente começaram e tiveram que parar, a tarefa faz tremer os pulsos, como diria o próprio Tex?
Stefano Andreucci: Tremer os pulsos? Que nada! Ao contrário, "raios me partam!". Eu gostaria de desenhar histórias de Tex de vez em quando, porque ele me é familiar. Mas eu gosto de variar e de não ligar-me demasiado a uma série, senão eu cairia na rotina.

Continuemos com Tex: De que modo você foi escolhido para desenhar aquela única história do Almanaque 2003?
Stefano Andreucci: Sergio (Bonelli) pediu-me, é só o que sei.

Ao trabalhar com o personagem você espelhou-se em algum modelo preciso?
Stefano Andreucci: Não, apesar de que Ticci entra na minha cabeça de modo instintivo.

Na sua opinião, o que faz de Tex o ícone que ele é?
Stefano Andreucci: Sei lá! A sério, eu nunca pensei nisso. Talvez a sua falta de meios-tons...

Como você definiria os quatro pards com um só adjectivo?
Stefano Andreucci: Granítico, paternal e livre, respectivamente para Tex, Kit Carson e Jack Tigre. Kit Willer seria... alinhado.

Em 2007 tivemos em Portugal uma antecipação mundial de quinze novos desenhadores de Tex. Como você vê essa entrada de tantos novos elementos na equipa texiana? Isso poderia ser um novo curso na vida da série?
Stefano Andreucci: Vejo com olhar positivo. São novos elementos que darão oxigénio extra à série. Quanto ao novo curso, não sei, veremos.

Ultimamente também houve um reforço de roteiristas. Você acha que isso era algo inevitável? E, com tantos roteiristas, não acha que há o risco de Tex ser desnaturado?
Stefano Andreucci: Isso poderia acontecer, mas não acho provável. Tex é tão sólido que fez de todas as suas características um bloco único. Colocada a questão nesses termos, ele só pode enriquecer.

Você acha que Tex mudou nos últimos anos? Se sim, sob quais aspectos?
Stefano Andreucci: Eu sou um desenhador. Com uma opinião, mas um desenhador. Esta pergunta deve ser feita aos tantos críticos de povoam a rede.

Para concluir o tema, como você vê o futuro do Ranger?
Stefano Andreucci: Extremamente sólido!

Há muitos anos você é um dos desenhadores de ponta da série Dampyr, da qual recebeu a missão de desenhar o número 100, a sair agora em 2008. Uma responsabilidade, mas no fundo também a sua consagração como o desenhador mais importante da série depois de Majo. O que você pode dizer sobre isto?
Stefano Andreucci: Sou grato a Bonelli e a Boselli pela chance que me deram e agora, com o trabalho concluído, posso dizer que o resultado final desse número 100 foi muito bom. Eu não creio que seja o desenhador mais adequado para Dampyr. Mas talvez eu esteja enganado.

Fale alguma coisa da história e de como você se sente a desenhar Dampyr.
Stefano Andreucci: Dampyr é a coisa mais difícil que já desenhei, mas também é um desafio. A história é... reveladora e fantástica, e ainda tem o título "O Rei do Mundo"! Draka é o grande destaque, fascinante como nunca.

Você trabalhou com Zagor, Dampyr e uma única vez com Tex. Você achou alguma diferença em trabalhar com estes três personagens?
Stefano Andreucci: Quase todas são histórias de Boselli, por isso não acho muita diferença. É claro que cada série tem suas peculiaridades, mas de um modo geral é o autor diferente que traz uma diferença sensível, não tanto a série em si.

Em todas essas experiências você teve um relacionamento, digamos assim, privilegiado com um roteirista, qual seja, Mauro Boselli. Isso tornou mais fácil a passagem a personagens tão diferentes entre si?
Stefano Andreucci: Sem dúvida alguma!

Qual a importância de Tex, Zagor e Dampyr na sua vida?
Stefano Andreucci: Eu gosto de quadradinhos. Além de tudo, eles são o meu ganha-pão. É o máximo.

Há alguma série bonelliana com a qual você não trabalhou e que gostaria de desenhar? Em caso positivo, qual seria e porque?
Stefano Andreucci: Não, eu gostaria de desenhar Tex novamente. Além dos trabalhos que já estou a escrever.

E quem sabe um personagem não-bonelliano?
Stefano Andreucci: Batman.

Você já pensou em escrever e desenhar um personagem todo seu, texto e desenhos?
Stefano Andreucci: Estou a escrever, mas não é para uma série. E não é para a Bonelli. Eu gosto de escrever fábulas para todos, adultos e crianças.

E os seus projectos para o futuro? Pode nos antecipar alguma coisa?
Stefano Andreucci: Acabei de fazer isso: estou a escrever uma coisa que espero possa ser publicada. Trata-se de uma fábula meio de terror, mas não uma coisa splatter. Veremos.

Quando desenha, você tem ambientações e/ou temáticas preferidas? Quais?
Stefano Andreucci: Sim. O mar ou as montanhas da América do Norte. Mas também condições particulares que deixam o que vai ser desenhado mais interessante, como vento ou chuva.

Você mora em Roma, como outros desenhadores bonellianos (Laurenti, Mastantuono e outros). Os contactos entre vocês são frequentes ou cada um trabalha em total solidão?
Stefano Andreucci: Já há 14 anos que eu moro em Narni, uma pequena cidade a quase 100 km de Roma.
Eu tenho um estúdio junto com um meu ex-aluno, Michele Rubini, desenhador de Zagor. Tenho contactos frequentes com Laurenti, mas com os outros a gente encontra-se nas várias feiras de quadradinhos, nada além disso.

Quais BD's você lê actualmente? Com quais você mais se identifica?
Stefano Andreucci: Eu não me identifico com nenhuma BD já há algum tempo, mas leio Tex, Zagor, Dampyr (obviamente) e muitos outros, inclusive estrangeiros, mas só ocasionalmente. Vou a uma loja de Banda Desenhada, procuro, folheio e, quando gosto, compro.

Além de BD, que tipo de livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Stefano Andreucci: Eu não tenho preferências. Encontro coisas que me entusiasmam onde menos espero. Seja na leitura, no cinema ou na música. Eu gosto muito de ser surpreendido.

Caro Stefano, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que tão gentilmente nos concedeu.
Stefano Andreucci: Obrigado a vocês e um abraço a todos que lêem este bate-papo amigável.



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27 de Junho de 2008

Entrevista exclusiva: MARCO SANTUCCI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Carlo Monni, Enzo Pedroni e Sílvio Raimundo na formulação das perguntas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão.

Caro Santucci, vamos começar com uma pequena apresentação e o caminho percorrido na sua carreira.
Marco Santucci: Salve a todos. Meu nome é Marco Santucci e moro na Itália, mais precisamente na Toscana, região central do País. Eu desenho profissionalmente desde 1994 e trabalhei com vários títulos como Nembo para a pequena editora Phoenix, Samuel Sand para a Star Comics e Mister No e Tex para a Sergio Bonelli Editore.

Como e quando você se bandeou para o desenho e em que momento você decidiu que essa seria a sua profissão?
Marco Santucci: O desejo de narrar por imagens eu sempre tive desde menino. Ainda tenho um monte de cadernos cheios de histórias que eu mesmo criava. A decisão de fazer isso como profissão nasceu por volta dos dezasseis anos. Apaixonado por quadradinhos Marvel, eu me divertia em imitar autores como Todd Mc Farlane. Naquele período eu tive a sorte de encontrar autores como Fabio Civitelli e Marco Bianchini que me orientaram para estilos mais clássicos e mais adequados a uma formação técnica digna do nome.

Você teve uma formação artística? De que tipo?
Marco Santucci: Como eu disse, meus primeiros mentores foram Civitelli e depois Bianchini. Para o resto, na verdade, eu sou totalmente autodidacta. Nenhuma escola me ajudou a aprender anatomia, perspectiva e contrastes. Estudei tudo sozinho, apoiado pela vontade e determinação. Até posso ter sacrificado boa parte do meu tempo livre, mas não me arrependo, honestamente.

Pergunta padrão: quais artistas, italianos e não, você considera que tenham influenciado seu trabalho?
Marco Santucci: Se falamos da parte técnica, devo citar novamente Civitelli e Bianchini. Se falamos de estilos, os autores são vários: Castellini, Villa, Alan Davis, Neal Adams, John Buscema, Garcia Lopez, Alex Ross, Brian Hitch e muitos outros!

Qual foi a importância de Fabio Civitelli e Marco Bianchini na sua carreira profissional e como vocês se conheceram?
Marco Santucci: A importância eu mencionei acima. Como os conheci? Quando apresentei meus primeiros trabalhos amadorísticos a um jovem que trabalhava na Star Comics, ele deu-me os nomes de alguns desenhadores que moravam em Arezzo: Civitelli, Bianchini, Dell'Uomo, Rossi e Valdambrini. Escolhi o primeiro da lista, Fabio. Jamais uma sorte foi tão grande. Foi ali que começou meu verdadeiro caminho para a BD profissional.

Como funciona a sua colaboração com Bianchini?
Marco Santucci: Boselli envia o roteiro a mim, eu leio, busco documentar-me se o próprio roteirista não fornece referências, estudo a montagem da página (até onde me é permitido), desenho uma série de páginas a lápis com todos os contrastes e meios-tons (até onde o lápis permite, claro). Em seguida envio as imagens digitalizadas ou fotocopiadas a Boselli, o qual indica o que está bom e o que não, e refaço com base nas directivas do próprio Boselli. Com as páginas corrigidas, eu as entrego a Bianchini para a arte-final, a passagem de tinta nos desenhos.

Na Europa não é comum que um desenhador faça o lápis e outro a arte-final. Como isso aconteceu na sua carreira e porque? Acha que no futuro ainda será assim?
Marco Santucci: Não, não é comum. Mas isso não significa que não seja uma coisa boa. Depende das situações. No meu caso aconteceu porque há dez anos Bianchini gostava que alguém lhe fizesse o lápis e eu queria trabalhar, depois que Samuel Sand, a série Star Comics na qual eu trabalhava, havia sido encerrada. Eu diria que foi uma necessidade recíproca que gerou um relacionamento de trabalho bastante longo. Mas com o tempo eu decidi separar-me de Marco para ter uma identidade profissional e, principalmente, para obter novos estímulos criativos. Com essa situação eu entendi que não há evolução sem mudança. Na Itália muitas pessoas têm a tendência de se adaptar às situações porque lhes parecem cómodas e seguras. É errado, porque com o tempo isso leva a pessoa a dar sempre menos de si. É melhor suar um pouco e mudar, mesmo que isso às vezes seja um pouco traumático! No estado actual das coisas, estou ainda mais convencido de ter feito a escolha certa. Recomeçar a fazer tudo sozinho não é fácil mas é muito estimulante!

Antes de chegar à Sergio Bonelli Editore, quais foram as suas experiências profissionais?
Marco Santucci: Bem, não muitas. Como eu disse no início, fiz um trabalho pequeno para Daniele Brolli, na editora Phoenix, depois fiz Samuel Sand na Star Comics e, em seguida, entrei na Sergio Bonelli Editore e fiz Mister No.

Você participou da última história de Mister No, escrita por Nolitta: pode nos dizer alguma coisa sobre o roteirista Nolitta/Bonelli, que métodos ele usa, se é muito detalhado, se deixa espaço ao desenhador ou esse deve seguir orientações precisas?
Marco Santucci: Nolitta é um roteirista com quem trabalhei muito bem. Depois de um primeiro momento de espanto, achei os famosos roteiros desenhados muito divertidos e fáceis de desenvolver.

O seu presente é Tex. Pode nos antecipar alguma coisa sobre a sua história de estreia, quem é o roteirista, qual é a ambientação, como você se sentiu ao passar para temática de faroeste, em comparação aos trabalhos anteriores?
Marco Santucci: Não, eu devo dizer que o meu presente não é mais Tex. No momento em que decidi separar-me de Bianchini, ficou definido que eu não mais poderia trabalhar com Tex. Sem um segundo de hesitação, pedi para trabalhar com algo mais adequado à minha formação artística e profissional. De todo modo, os detalhes deste "one-shot" que tive com Tex: a história é de Mauro Boselli, a ambientação é Nova Orleans e os pântanos da Louisiana. Devo dizer que foi uma história muito bela de desenhar. A passagem para a temática faroeste? Bem, antes de começar eu tinha muito medo. Agora estou aterrorizado! Estou a brincar, claro... ou quase. Bem, o faroeste é um género muito difícil e exige muita cultura sobre o assunto, que eu não tinha. Os únicos faroestes que me agradam são os de Sergio Leone que, no fim das contas, não são faroestes "puros". A documentação representou um grande trabalho de pesquisa. Ainda bem que existe a internet!

Como foi trabalhar com Tex e com Mauro Boselli como roteirista? Ele o ajuda muito em seu trabalho como desenhador ou você deve documentar-se sozinho?
Marco Santucci: Trabalhar com Mauro foi um trauma positivo para mim. Digo isso no sentido de que inicialmente foi muito duro, tanto que tive vontade de largar tudo. Depois recomecei devagar e acabei por não me abalar com suas impiedosas críticas, tanto que acabei fortificado na alma e na técnica. Eu acho que dei um grande passo à frente graças a Boselli. No final, para minha grande surpresa, Mauro apoiou bastante o meu trabalho e lhe sou imensamente grato. Não por acaso pedi para continuar a trabalhar com ele mesmo depois de Tex.

Como você passou a trabalhar com Tex Willer? Escolha pessoal ou imposição?
Marco Santucci: Claramente não foi uma imposição. Foi mais uma proposta que era difícil recusar. Mas bastou-me a experiência de dois anos com Tex para ter 100% de certeza que prefiro fazer outra coisa. Eu fiz algumas provas de arte-final em minhas próprias páginas mas elas não foram julgadas adequadas ao género. Mas foi melhor assim. Porque este é um género que pode ser muito belo mas também desgasta muito. O único desenhador que eu conheço que consegue fazer isso há muitíssimo tempo sem jamais se cansar é Fabio Civitelli, por quem tenho uma admiração sem fim! Em todo caso, não há com que se preocupar, porque a editora, de forma acertada, manteve Bianchini como desenhador da série em razão de sua actividade decenal nesse campo!

O que significa para si desenhar uma lenda dos quadradinhos como Tex, que está para completar 60 anos de vida editorial?
Marco Santucci: Bem, preferências de género à parte, é com certeza uma bela etapa profissional. Quem não conhece o famoso ranger? Pela primeira vez meus pais e amigos, todos eles, conheciam o personagem que eu desenhava... o que não acontece sempre! :-)

Você consegue fazer muitas páginas por mês ou desenhar Tex o deixou em dificuldades?
Marco Santucci: Foi como eu disse acima. Muitas dificuldades, poucas páginas, infelizmente!

Quando começou a desenhar o seu Tex, buscou inspiração em alguém já conhecido?
Marco Santucci: Evidente: Claudio Villa, Fabio Civitelli, Ticci.

Você sente-se satisfeito pelo seu trabalho com Tex?
Marco Santucci: Isso eu responderei quando vir toda a história concluída e arte-finalizada. Por enquanto eu não faço ideia de como a arte-final está a sair. Creio que vi somente pouco mais da metade da história pronta. Quando sair nos quiosques será uma bela surpresa também para mim.

O que você achou mais difícil em se defrontar com o Ranger?
Marco Santucci: Um pouco de tudo. Roupas, cavalos, os malditos chapéus e principalmente as armas. Fabio Civitelli, com seu grande conhecimento técnico, pegou-me uma considerável quantidade de vezes sobre as armas. Não há modo, rifles e revólveres não entram na minha cabeça!

Quem ou o que é Tex, na sua opinião? O que mais lhe agrada nele e o que agrada menos?
Marco Santucci: Tex é um mito. Um símbolo da BD italiana. Um personagem conhecido por todos, até por minha mãe, que não entende nada de quadradinhos! O que me agrada menos? A sua invencibilidade que não permite identificar-me com ele. Prefiro heróis mais imperfeitos.

Que ambições você tinha ou tem na SBE, principalmente com relação a Tex?
Marco Santucci: Em relação a Tex nenhuma, como eu disse. No âmbito da SBE, eu pedi para fazer Dampyr, que considero um género mais próximo dos meus gostos. Aprecio muito acção e sobrenatural. Neste período estou a começar uma história escrita por Diego Cajelli.

Em 2007 tivemos em Portugal uma antecipação mundial de quinze novos desenhadores de Tex como, por exemplo, é o seu caso. Como você vê esta entrada de tantos novos elementos na equipa de Tex? Isso poderia significar um novo curso na vida da série?
Marco Santucci: Absolutamente sim! Novas energias, renovação, evolução estilística. Todas coisas positivas, segundo o meu modo de ver.

Falou-se muito sobre o facto de que Tex é uma série desenhada por muitíssimos autores: você considera este facto positivo ou negativo para quem chega pela primeira vez à série?
Marco Santucci: Positivo, como eu disse acima.

Ultimamente também houve um reforço de roteiristas. Na sua opinião isso era inevitável? E com tantos roteiristas, você não acha que se pode correr o risco de ver Tex desnaturado?
Marco Santucci: Sim e creio que é inevitável. O costume de se querer sempre o mesmo autor numa série é, ao meu ver, errado. É preciso renovar, evoluir, para que qualquer série vá em frente. É melhor desnaturar e talvez até rejuvenescer um pouco o personagem com histórias novas de novos roteiristas, do que sobrecarregar os poucos de sempre que acabariam por fazer histórias ruins, não é verdade?

Deixemos Tex um pouco de lado. Para fazer Dampyr você tomou como referência outros desenhadores do título? Em caso positivo, quais?
Marco Santucci: A série de Dampyr conta com excelentes artistas, mas os que adoptei como maior referência são os óptimos Luca Rossi e Alessandro Bocci.

Em Dampyr você finalmente terá uma protagonista, personagem feminina e importante como Tesla, coisa impossível em Tex. Isso o atrai, dá novos estímulos como desenhador?
Marco Santucci: Sem dúvida. Ter uma personagem feminina para desenhar por várias páginas, tentar caracterizá-la da melhor forma, é certamente um novo estímulo, especialmente se é uma vampira! Diverte-me a ideia de ter uma personagem que num momento surge como uma bela mulher e num momento seguinte como uma criatura da noite, monstruosa! Uma dualidade estimulante!

Você disse que está a desenhar uma história escrita por Cajelli. Pode nos antecipar alguma coisa?
Marco Santucci: A história é mesmo muito boa e fala de um demónio com feições femininas (de novo!). Mais que isso não falo... :-)  Cajelli escreveu um roteiro com o qual, como percebi já na primeira página, trabalharei com muito entusiasmo. Deve-se louvar o profissionalismo de Diego, que enviou-me muita documentação que, além de simplificar-me o trabalho de pesquisa, permite-me dar a ele e a Mauro um trabalho o mais próximo possível do que o roteiro exige. Bem, ao menos é o que tentarei fazer!

Uma curiosidade: você declarou amar o sobrenatural. Não lhe agradaria, então, desenhar Dylan Dog?
Marco Santucci: Certamente.

Sabemos que actualmente você está ocupado a desenhar para a Marvel. Pode nos falar um pouco desse novo trabalho? Como aconteceu o contacto? Quais personagens você desenha? Quem escreveu a história? Que artista fez a arte-final?
Marco Santucci: Vamos lá: o contacto aconteceu porque, no período em que eu estava aos poucos a retomar contacto com a arte-final, decidi exercitar-me num género que amo muito, o de super-heróis. Nas horas livres fiz algumas páginas de Homem-Aranha, Wolverine e X-Men. Alguns meses antes de terminar Tex, Simone Bianchi (a quem nunca agradecerei o suficiente pela disponibilidade!) mostrou algumas dessas páginas ao editor de Homem-Aranha, Stephen Wacker, que, depois de alguns meses, contactou-me e propôs um trabalho.
Da primeira vez eu tive que recusar, porque antes devia concluir a primeira história de Tex. Em seguida, quando a Bonelli permitiu-me passar para Dampyr, tendo em conta os longos prazos que teria (mais de um ano para fazer uma história), eu não hesitei em aceitar o trabalho americano. Por outro lado, era difícil dizer não ao Homem-Aranha! A história na qual estou a trabalhar é, na verdade, uma minissérie de três números que deverei concluir em Agosto, ligada ao megaevento Marvel "Invasão Secreta". A minissérie será intitulada Homem-Aranha Invasão Secreta, claro. A minha história tem roteiro de Brian Reed e está a ser arte-finalizada pelo veterano Mark Pennington. Eu mesmo gostaria de fazer a arte-final mas os prazos eram muito apertados para obter um trabalho com o máximo de qualidade. No meu sítio já é possível ver as primeiras três páginas a tinta e a primeira capa, feita por Mike McKone.

Você está satisfeito com essa nova experiência? Crê que ela se repetirá no futuro?
Marco Santucci: Sim, estou muito satisfeito com a experiência. É incrível o eco que teve a notícia do meu trabalho nessa minissérie! Honestamente, isso jamais havia acontecido comigo e estou muito feliz. Outra coisa que me entusiasma muitíssimo é ver as minhas páginas finalmente em cores. Sobre repetir-se, não posso dizer, visto que não depende apenas de mim. Por agora, espero uma boa acolhida do meu trabalho também nos Estados Unidos!

Quanto tempo emprega para desenhar uma página? Você tem horários? Como é um dia normal, entre trabalho, leituras, manter-se informado, ócio, vida familiar?
Marco Santucci: De costume tento fazer uma página por dia. Não é sempre que consigo; aliás, dificilmente. Tento determinar horários, mas nunca consigo cumprir. Eu não nasci para fazer um trabalho com horários precisos. Fico na prancheta o tempo necessário para obter o que quero obter. Ponto. Leio muito, de quadradinhos a romances e revistas, geralmente antes de dormir. A noite, no infelizmente pouco tempo que me resta, é dedicada à família e amigos.

Falemos de como você trabalha, quais instrumentos usa e como procede ao realizar a página.
Marco Santucci: Eu costumo criar um esboço do quadradinho rápido e aproximativo numa folha de papel de fotocópia ou papel de seda. Depois o projecto no quadradinho da página final por meio de um projector de opacos. Muitas vezes não consigo desenhar dentro da grade da página. Isso sufoca-me e creio que se percebe pelo modo como os meus personagens parecem ficar apertados nos quadradinhos :-) Para a arte-final eu uso muito o pincel e, para coisas técnicas e retoques, caneta hidrocor, aquelas de ponta porosa.

Nos seus desenhos, que métodos usa para compor os ambientes, as moradias, roupas, armas etc.? Você faz pesquisas? Usa fotos ou modelos?
Marco Santucci: Uso muitas fotos de documentação histórica, fotos de jornais para as poses e, às vezes, fotos que tiro de mim mesmo, de parentes e amigos para os personagens. Eu gosto muito do aspecto realístico da BD e usar foto é o único modo para obtê-lo, na minha opinião. Ultimamente também estou a usar a computação gráfica 3D para auxiliar-me a criar ambientes coerentes mas principalmente para estudar os enquadramentos de maneira mais cinematográfica.

Você ainda sente prazer no desenhar, visto que, por ser seu trabalho, você é obrigado a fazê-lo?
Marco Santucci: Quase sempre. É claro que desenhar coisas que te agradam ajuda muito.

Além de desenhador, você também é roteirista de uma personagem própria, ou seja, Termite Bianca. Como se sentiu na posição daquele que dá indicações a outro desenhador?
Marco Santucci: Muito bem. É muito mais simples dar indicações sobre como você quer um enquadramento do que desenhá-lo. Se, além disso, o autor que faz os desenhos é Patricio Evangelisti, então é realmente uma satisfação enorme! De todo modo, escrever uma boa história é outra coisa bem diferente, claro.

Que tipo de BD lê actualmente? Com quais você mais se identifica?
Marco Santucci: Eu adoro os comics americanos. Ultimates é uma das melhores séries que eu li nos últimos anos! Pena que tenha terminado a fase Millar e Hitch.

Além de Banda Desenhada, quais livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Marco Santucci: Normalmente romances, fora algumas excepções. Li quase todos os livros de King (a saga da Torre Negra é a minha preferida!), algumas coisas de Asimov (excepcional a saga da Fundação!), dois ou três livros de Stephen Hawking (incrível a física quântica explicada por ele!) e alguns outros autores. Sobre cinema, eu tive uma cultura na maior parte baseada em filmes americanos, e não apenas filmes de acção, mas também coisa mais pesada, tipo Babel, Crash ou 21 Grams. Quanto ao resto, não resisto aos filmes de ficção científica ou de super-heróis, excepto algumas produções intragáveis que aparecem de vez em quando. Com relação a música, devo dizer que não tenho uma grande cultura, ouço bastante rádio, principalmente Radio Deejay, que me acompanha o dia todo. De vez em quando eu gosto de ouvir trilhas sonoras de filmes, e nisso John Williams é o meu compositor preferido. Também aprecio U2, Tori Amos, Green Day e por aí vai...

Caro Marco Santucci, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que tão gentilmente nos concedeu.
Marco Santucci: Obrigado a vocês! E espero a visita de todos ao meu sítio www.marcosantucciart.com

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30 de Maio de 2008

Entrevista exclusiva: PAULO GUANAES (tradutor de Tex)

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Sílvio Raimundo na formulação das perguntas.

Para começar, fale-nos um pouco das suas origens, desde o nascimento até à sua formação profissional...
Paulo Guanaes: Nasci em 19 de Março de 1953, no bairro Estácio, no Rio de Janeiro. Hoje, a rua em que morei neste bairro não existe mais. Cedeu  lugar ao metropolitano. Fiz o Curso Primário na Escola Pública José Pedro Varela. Naquela época, o Rio ainda era a capital do Brasil e o ensino público era de boa qualidade, tanto que o professor tinha um status importante na sociedade de então. Aliás, dentre outras coisas que vou morrer sem conseguir entender, uma é o tratamento indigno que todos os governos que conheci, desde os militares da ditadura até os ditos “democráticos” actuais, dispensaram aos professores. Fiz o Curso Ginásio e o Curso Científico no Colégio Pedro II, um óptimo colégio federal. Quando terminei o Colégio Pedro II, em 1970, aos 17 anos, fui trabalhar como revisor literário (assim eram chamados os revisores de texto) na editora Vecchi. Quatro anos depois, Tex entrou na minha vida para nunca mais sair. Fiz Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); cursei italiano no Istituto di Cultura Italiana; formação de tradutores inglês-português na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ); MBA em Marketing na Fundação Getulio Vargas.

Como se interessou pela Banda Desenhada e quando é que isso aconteceu?
Paulo Guanaes: Eu me interessei lendo Capitão Marvel, Super-Homem e Batman, o meu preferido. Isso aconteceu aos oito anos de idade, suponho. Também gostava de Bolinha e Luluzinha.

Quais as suas personagens favoritas e o que contém a sua, ou suas colecções de Banda Desenhada? E já agora, colecciona também revistas de outros países em virtude de ser um poliglota?
Paulo Guanaes: Meu personagem favorito é o Bat... não! É Ken Par... não, o que estou dizendo? É o Tex! Na verdade, adoro esses três. As minhas colecções são todas de revistas Bonelli. São tantas revistas que as encaminhei para a biblioteca da escola de um amigo meu. Não colecciono revistas de outros países.

De que forma se tornou tradutor? Foi aptidão ou consequência?
Paulo Guanaes: Acho que foram as duas coisas. Embora tenha me preparado para fazer vestibular de Engenharia, sempre tive muita facilidade no aprendizado de línguas estrangeiras. As circunstâncias da vida acabaram me proporcionando uma oportunidade de traduzir o italiano para o português. Eu era revisor de texto de traduções de fotonovelas italianas, na Editora Vecchi. Um dia pedi para traduzir uma, sem nunca ter estudado italiano. Tinha apenas a experiência de revisar textos traduzidos desse idioma para o português. O Editor, que certamente gostava de mim, aprovou e me permitiu trabalhar como tradutor free lance. Foi assim que comecei.

Como se deu o seu primeiro contacto com uma revista italiana do Tex? Você já dominava a língua nessa época?
Paulo Guanaes: Vi Tex nascer dentro da Editora Vecchi, em 1974. Meu primeiro contacto foi como revisor do texto traduzido e do letreiramento dos balões de Tex, este feito por Waldemar Valim, um excelente desenhador de letras que até hoje faz as tiras do jornal O Globo.

Há quantos anos é tradutor de Tex e como é que se deu o início dessa “relação”?
Paulo Guanaes: Traduzo o Tex há 30 anos. Mereço até um especial, não?
Quem me deu a oportunidade de começar a traduzir o Tex foi o Otacílio d’Assunção Barros, editor da versão brasileira da revista Mad e um activo participante do boom das histórias em quadradinhos no Brasil em meados da década de 1970. Não posso dizer que dominava, mas eu lia muito texto italiano nessa época, por força do meu trabalho como revisor, e estudava por conta própria a língua, além de consultar infinita e febrilmente o dicionário do Carlo Parlagrecco, tanto na Vecchi quanto em casa nas traduções como free lance. Depois, fiz o curso de italiano no Istituto Italiano di Cultura, no Consulado italiano do Rio de Janeiro.

Sempre foi o tradutor de Tex, ou teve alguma vez que fazer uma pausa nesse trabalho?
Paulo Guanaes: Houve uma pausa quando trabalhei como Subeditor da Divisão Infanto-Juvenil da Editora Globo, em 1987-1988.  Tex ficou em boas mãos: Tizziana Giorgini, uma querida amiga, filha de imigrantes italianos e formada em Letras, traduziu o nosso herói nesse período.

Pode nos falar do seu método de tradução? E em média quanto tempo gasta para traduzir uma edição de 110 páginas?
Paulo Guanaes: Seria muito fácil deitar regras aqui, mas, na verdade, meu método sempre foi muito intuitivo. Na leitura do texto em italiano, logo percebi o talento de Gianluigi Bonelli. Apesar de ser por demais descritivo, suas histórias sempre foram ricas tanto no argumento quanto na composição de personagens. São duas coisas essenciais. Ele sabia criar uma trama como poucos. Isso, no fundo, é o que prendia o leitor. Então, sempre procurei fazer uma tradução muito aproximada do texto original, o que, para muitos, é um pecadilho, mas, no caso do Tex de Bonelli, eu acho uma obrigação, porque Bonelli revestia Tex de uma aura não encontrada nos demais heróis do western. Então, pensava eu com meus botões, por que querer ser mais realista que o rei?
O Tex actual tem menos texto; as reedições que a Mythos deu continuidade são mais trabalhosas.

Você é uma das principais vozes de Tex no Brasil. Em sua opinião qual a importância dessa missão? E o que é que significa para si ser o tradutor de Tex Willer no Brasil?
Paulo Guanaes: Nunca me dei conta disso. Agradeço pela vossa afirmação. Eu apenas procuro fazer as traduções usando todo o património cultural que acumulei em 38 anos de trabalho na área editorial. Tento também me esmerar na produção do texto, pois sei que ele pode auxiliar muita gente a pegar o gosto pela leitura e ter mais cuidado ao escrever. Essa é uma bela missão e um grande significado no meu acto de traduzir.

Para um fã, ler o seu herói preferido é sempre um prazer, mas para um tradutor, por se tratar de um trabalho, a rotina não cansa?
Paulo Guanaes: Não, porque também sou um fã.

Argumentistas e desenhadores sempre colocam algo de si nos personagens, é possível a um tradutor fazer o mesmo?
Paulo Guanaes: Sim, desde que não descaracterize o perfil do personagem.

Quando traduz um “fumetto” de Tex, faz uma tradução literal ou uma versão, adaptando aquilo que o Ranger diz à nossa forma de falar?
Paulo Guanaes: É preciso encontrar o correspondente na língua de chegada (o português), sem cair na facilidade da tradução literal. Sou contra adaptar totalmente à nossa forma de falar. Há que se respeitar as diferenças de épocas.

Paulo Guanaes, se depender apenas de si, por quanto tempo ainda pretende traduzir as aventuras do Tex?
Paulo Guanaes: Por todo o tempo em que ele for publicado.

Quais foram a melhor, e a mais fraca história do Tex que você já traduziu?
Paulo Guanaes: Gosto de todas do Mefisto. Não me lembro da mais fraca.

Em sua opinião, qual o desenhador que melhor dá vida ao Ranger? E argumentista?
Paulo Guanaes: Fabio Civitelli e Gianluigi Bonelli.

O facto de Tex ser desenhado por vários autores (de estilos bem diferentes) é, na sua opinião, mais ou menos vantajoso para a série? E porquê
?
Paulo Guanaes: Não sei como aferir se é mais ou menos vantajoso. Há aí uma evidente questão de limitação humana. Só sei que os desenhadores são muito bem escolhidos.

Com a facilidade e rapidez de comunicação que a Internet nos proporciona, é comum leitores de todo o globo terem acesso a edições estrangeiras do Ranger. Com isso você hoje é conhecido não só no Brasil, mas também em Portugal, Espanha, Itália e além. Como você convive com isso?
Paulo Guanaes: Só me dei conta disso há pouco tempo, quando fui convidado pelo Portal TEXBR para dar uma entrevista e, em seguida, por vocês. Eu sinto-me lisonjeado em saber que meu trabalho é conhecido nesses países.

Sua família tem noção de o quanto você é conhecido e admirado? Como convivem com esse factor?
Paulo Guanaes: Creio que não têm noção. Aliás, nem eu mesmo tenho noção disso. Será mesmo que é assim?.

Comente aspectos positivos e negativos do seu trabalho com Tex...
Paulo Guanaes: De positivo: a possibilidade de me manter em constante contacto com a língua italiana; o exercício da escrita de minha língua, o português; a manutenção da chama do prazer lúdico que só as histórias em quadradinhos carregam. De negativo: vários momentos em família se perderam ao longo desse tempo de actividade tradutória....

Para além de Tex, quantas e quais as personagens da Sergio Bonelli Editore que traduz ou já traduziu?
Paulo Guanaes: Já traduzi Ken Parker, Zagor, Martin Mystère, Nick Raider, Nathan Never, Mister No, Dylan Dog e Júlia.

Existe alguma personagem com a qual você não se identificou ao traduzi-la?
Paulo Guanaes: Não. Embora não tenham perguntado, aquele com o qual mais me identifiquei: Ken Parker, do qual tive a honra de ser o primeiro tradutor no Brasil (toda a série da Vecchi).

Tex passou por vários editoras no Brasil; para a maioria dos leitores nenhuma outra deu um tratamento tão especial à personagem quanto a Mythos. Em sua opinião, a que devemos atribuir esse facto?
Paulo Guanaes: Atribuo esse facto à competência de meus contemporâneos Dorival Vitor Lopes e Helcio Carvalho.

Dando continuidade ao seu trabalho, que já vinha de outras editoras, como se processou a sua entrada na Mythos? E profissionalmente você é um membro do staff da Mythos, ou um prestador de serviços?
Paulo Guanaes: Foi uma continuidade do trabalho que eu já fazia para o estúdio de Dorival, que editava Tex para a editora Globo. Sou um prestador de serviços.

No universo editorial de Tex no Brasil, além de tradutor, o que mais você já foi?
Paulo Guanaes: Fui revisor dos textos traduzidos e do letreiramento dos balões, na editora Vecchi, e subeditor de Tex na editora Globo.

Tex está para fazer 60 anos de existência, enquanto tradutor dele no Brasil como vê essa marca e o que sente?
Paulo Guanaes: Sinto um orgulho imenso por ter contribuído com uma pequena parcela nessa longa jornada.

O Ranger Tex Willer é um viúvo convicto e celibatário, que sozinho criou e formou o carácter do seu único filho. Isso realmente é possível a um homem?
Paulo Guanaes: Acho possível, sim. A natureza humana é capaz de proezas inimagináveis.

Tex tem uma galeria de arqui-inimigos invejáveis, alguns deles, quando menos se espera, dão um ar da sua graça, você tem preferência por algum em especial? E dos Amigos, qual em sua opinião - exceptuando os Pards – é aquele que o Ranger sempre poderá contar?
Paulo Guanaes: Não dá para deixar de mencionar Mefisto como inimigo. Já como amigo, gosto do Pat, o irlandês, que dá a impressão de ser capaz de qualquer coisa pelo Ranger. Há outros óptimos, como o casaca-vermelha Jim Brandon, por exemplo.

Tex Willer, em sua opinião, é apenas uma personagem de história em quadradinhos, ou é mais que isso?
Paulo Guanaes: Tex já se tornou um mito.

Quais são para si, as características imutáveis de Tex, ou seja, a sua essência, algo que não pode ser mudado?
Paulo Guanaes: A virtude de dar a cada um aquilo que merece; a intolerância com a covardia; o tratamento isento que dá aos índios; o destemor. E tem muito mais...

Diferente do tempo em que Tex foi lançado no Brasil pela primeira vez, a garotada de hoje tem mil e uma possibilidades de diversão, que não apenas as histórias de banda desenhada. Nos dias actuais, existe ainda mercado para esta indústria?
Paulo Guanaes: Sim, apesar das inúmeras possibilidades de diversão, as histórias em quadradinhos ainda têm lugar nos dias de hoje porque têm o dom de ser encantadas.

Sabemos que está planeando para breve uma visita à Itália, inclusive para conhecer a Sergio Bonelli Editore. No dia em que conhecer o Sergio Bonelli, o que lhe dirá?
Paulo Guanaes: Sim, vou realizar o sonho de conhecer a Itália em Julho deste ano. Conheci Sergio Bonelli rapidamente na ocasião em que eu editava o Tex na editora Globo, nos idos de 1988. Certamente ele não se lembraria de mim. Se eu o encontrar, direi: “Muito obrigado por Tex existir.”.

Para finalizar, para além de banda desenhada, que tipo de livros lê? E a nível de cinema e de música, quais são as suas preferências?
Paulo Guanaes: Gosto de ler não-ficção. Quanto a cinema, não tenho um género predilecto, mas sim filmes: todos os longas-metragem de Charles Chaplin, “Amarcord”, “Blade Runner, o caçador de andróides”, James Bond, a nova safra de heróis de quadradinhos transformados em filmes... Quanto à música, Beatles é minha principal referência. Gosto de um género musical chamado Chorinho. Gosto da percussão na música.

Caro  Paulo Guanaes, muito obrigado pela entrevista que gentilmente concedeu ao blogue do Tex.

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15 de Maio de 2008

Entrevista exclusiva: PASQUALE DEL VECCHIO

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Enzo Pedroni e Mário João Marques na formulação das perguntas e de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão.

Caro Pasquale Del Vecchio, para os que ainda não o conhecem, pode fazer uma pequena auto-apresentação?
Pasquale Del Vecchio: Eu nasci em Manfredonia, na Itália, há 43 anos. Mudei-me para Milão em 1985, para estudar, e não saí mais daqui, onde tive a oportunidade de começar a trabalhar no campo da Banda Desenhada..

Quando se apercebeu que sabia desenhar? E quando soube que o seu futuro era ser um desenhador profissional?
Pasquale Del Vecchio: Eu desenho desde tenra idade. Os meus pais e parentes elogiavam os meus dons de desenhador, mas eu sei que eles não eram muito objectivos nos seus julgamentos. Mas eu sempre tive uma paixão enorme pelo desenho. Comecei muito cedo a ler quadradinhos de aventuras: Zagor, Tex e Tarzan estavam entre os primeiros.

De um modo geral, quais são os seus desenhadores preferidos, mesmo fora da Bonelli?
Pasquale Del Vecchio: São muitos os desenhadores que me influenciaram e que adorei com o passar dos anos. Eu poderia fazer uma espécie de relato cronológico, a começar por Giovanni Ticci e Gino D'Antonio, que me transmitiram uma grande paixão pelo Oeste. Depois Joe Kubert, que eu apreciava por demais em Tarzan e cujas páginas espirravam energia e movimento. Ivo Milazzo e o seu Ken Parker, que mostrou um modo novo de contar a epopeia do faroeste. José Muñoz e o seu branco e preto expressionista. Dino Battaglia e Sergio Toppi. Moebius-Jean Giraud, Andrea Pazienza e Vittorio Giardino.

Quais são as suas influências?
Pasquale Del Vecchio: De algum modo todos os autores acima citados influenciaram-me. De cada um deles eu aprendi alguma coisa. Mas o que mais marcou meu modo de desenhar foi Giardino, de quem sempre admirei a limpeza e essencialidade do traço.

Que lugar tiveram os quadradinhos, sobretudo os Bonellis, na sua infância?
Pasquale Del Vecchio: A minha aproximação aos quadradinhos começou com Bonelli, num relacionamento que nunca se interrompeu: a primeira BD que li foi Zagor. Muitas vezes tentei fazer uma machadinha igual à dele, usando pedras polidas, mas para minha grande frustração eu nunca consegui! Depois de alguns anos eu apaixonei-me por Tex, graças a Ticci e às suas histórias ambientadas no Grande Norte. Depois foi a vez de Mister No, seguido por Ken Parker, até chegar a Dylan Dog.

Quando e onde começou a publicar os seus primeiros trabalhos?
Pasquale Del Vecchio: O meu primeiro trabalho foi publicado numa revista chamada "1984". Era uma história curta de 4 páginas feita no Verão, logo depois das provas de admissão, à espera de ir a Milão para frequentar a universidade. Alguns anos depois fiz duas histórias para o "Giornalino", sob a supervisão de um dos meus ídolos, Gino D'Antonio.

Como entrou para a equipa da Sergio Bonelli Editore? Qual foi o seu primeiro trabalho?
Pasquale Del Vecchio: Foi D'Antonio quem me indicou a Renato Queirolo para fazer Nick Raider, e as primeiras duas histórias que realizei tinham roteiros do próprio D'Antonio. Mas na verdade já há dois anos que eu trabalhava numa série que seria publicada pela SBE mas que era editada por uma equipe externa à Editora. Eu já havia desenhado duas histórias dessa série (Zona X) quando comecei a trabalhar com Nick Raider em 1992.

Antes de chegar a Tex você desenhou Nick Raider e Napoleone. Houve alguma dificuldade em mudar de cenários completamente diferentes, às pradarias do Oeste, ou a passagem foi fácil?
Pasquale Del Vecchio: Depois de uma série de histórias metropolitanas, no início tive algumas dificuldades em administrar os grandes espaços abertos que emolduram as histórias de Tex. Mas creio que depois de certo tempo consegui um bom equilíbrio e maior domínio dos novos cenários de faroeste.

O que é que cada uma destas séries trouxe a Del Vecchio?
Pasquale Del Vecchio: Nick Raider foi uma grande escola: aprender a administrar as cenas de grupos, desenhar os ambientes metropolitanos, os automóveis, caracterizar os muitos personagens que apinham as histórias do detective nova-iorquino. Com Napoleone eu tive a oportunidade de medir armas com muitas ambientações diferentes e, principalmente nas várias cenas oníricas, eu pude usar algo diferente do ponto de vista estilístico: os reticulados e linhas claras.

Como passou a trabalhar com Tex Willer? O que sentiu quando recebeu o convite para integrar a equipa de Tex?
Pasquale Del Vecchio: Passar a fazer parte da equipa de Tex deu-me um grande prazer e encheu-me de orgulho, por desenhar um personagem que eu amava desde a mais tenra idade!

Uma história de Tex feita por si já foi publicada (na Itália, Tex 561/562; no Brasil, Tex 464/465). Para desenhar a figura de Tex, como interpretou o roteiro de Claudio Nizzi? Quais foram os seus pontos de referência?
Pasquale Del Vecchio: Os roteiros de Nizzi são enxutos e deixam muita liberdade ao desenhador. Por isso, digo que o balanço é absolutamente positivo. O meu principal ponto de referência foi Giovanni Ticci, mas também Claudio Villa ajudou-me muito, na minha opinião ele é o desenhador que, depois de Galleppini, mais contribuiu para caracterizar o rosto de Tex.

Apesar de você ter desenhado várias aventuras de Nick Raider (uma série criada por Claudio Nizzi), imaginamos que o seu encontro com este autor aconteceu somente com Tex, na recente aventura “Soldi Sporchi” (Dinheiro Sujo). O que representou para si desenhar Tex, o melhor resultado editorial da SBE e um dos nomes inatingíveis da Banda Desenhada?
Pasquale Del Vecchio: Repito: para mim foi um motivo de orgulho e uma grande satisfação desenhar um personagem que faz parte da história da BD, um verdadeiro totem.

Como se preparou para Tex e quais foram as suas principais dificuldades?
Pasquale Del Vecchio: Antes de começar a desenhar e mesmo durante o trabalho com as primeiras páginas de Tex eu assisti a uma grande quantidade de filmes de faroeste, dos clássicos de John Ford aos directores que, nos anos Setenta e Oitenta, rescreveram este género. Eu vi as pinturas de Frederic Remington e vários livros com fotos da época. A principal dificuldade, no início, foi administrar os cavalos e seus complexos movimentos.

O que é que significava Tex para si? Entretanto mudou algo na sua percepção do personagem?
Pasquale Del Vecchio: Durante o passar dos anos, e agora com os novos argumentistas, Tex tornou-se um pouco introspectivo, mas talvez o que tenha mudado foi o panorama editorial e, por consequência, o personagem. Hoje é necessário ser sempre politicamente correcto. Creio que antigamente o mundo dos quadradinhos era um território um pouco mais "anárquico" e possivelmente havia mais liberdade de expressão.

O que mais lhe agrada em Tex? O que lhe agrada menos?
Pasquale Del Vecchio: De Tex eu sempre gostei do posicionamento "de peito aberto", instintivo com as situações e com os homens que encontra. Sempre amei essa sua espontaneidade. Depois de uma olhada ele já sabe se tem pela frente uma boa pessoa ou um patife. O que gosto menos são as botas de cano curto com as calças enfiadas dentro delas!

Pelo que sabemos, você está a desenhar uma nova história de Tex. Pode antecipar-nos alguma coisa sobre o seu segundo trabalho com Tex, quem é o argumentista, como é a ambientação, etc.?
Pasquale Del Vecchio: A nova história, é tal como a anterior, de Claudio Nizzi e é ambientada no Great Basin, entre os índios cheyennes, que estão entre os meus preferidos.

Quais ambições teve ou tem dentro da SBE, principalmente com relação a Tex?
Pasquale Del Vecchio: Isso não sei responder: espero fazer bem o meu trabalho e continuar a melhorar, conseguir contar aquela epopeia e aquele mundo da fronteira que sempre me fascinou muito.

Nas suas páginas prefere usar só a imaginação ou também usa materiais de suporte como fotografias ou outros itens?
Pasquale Del Vecchio: Eu sempre tive o costume de documentar-me, para apresentar melhor os ambientes e a caracterização dos personagens. Mas isso não exclui que, ao mesmo tempo, eu também use a criatividade.

Como é a sua forma de trabalhar? Você faz uma página completa (lápis e tinta) e depois passa para outra? E quais materiais usa?
Pasquale Del Vecchio: Geralmente eu faço uma página a lápis e logo de seguida passo a tinta. Se uma sequência é particularmente complexa, às vezes eu a desenho inteira a lápis, para ver se funciona, e depois passo a tinta. Para a arte-final, ultimamente tenho usado caneta de ponta porosa e pincel de pêlo de marta (n° 3-5).

Em média quantas páginas por mês consegue desenhar? A sua média é constante ou varia?
Pasquale Del Vecchio: Eu não tenho uma produção constante por mês, mas creio que posso dizer que sou bastante constante na produção feita no arco de um ano. Depende muito da complexidade das cenas a desenhar, algumas páginas exigem mais tempo que as outras. Mas eu consigo fazer cerca de um edição completa por ano.

Em 2007 nós tivemos em Portugal uma antecipação mundial de quinze novos desenhadores de Tex, como foi o seu caso. Como vê esta entrada de tantos novos elementos na equipa de Tex? Isso pode significar um novo curso na vida da série?
Pasquale Del Vecchio: Espero que sim e, principalmente, espero que seja um curso positivo!

Sabia que Tex é publicado no Brasil e que é um personagem muito popular também em Portugal?
Pasquale Del Vecchio: Sim, porque visitei muitas vezes o vosso blogue.

Ultimamente também houve um acréscimo de argumentistas. Pensa que isso era inevitável? E, com tantos argumentistas, não acha que se pode correr o risco de ver Tex desnaturado?
Pasquale Del Vecchio: Esse risco até pode existir, mesmo com o sempre atento trabalho da redacção para tentar evitar que ocorra. Mas um personagem que vai aos quiosques há 60 anos tem uma necessidade fisiológica de novas forças criativas. É o positivo e o negativo de uma publicação em série: depois de um certo número de anos os argumentistas inevitavelmente devem se alternar, infelizmente as ideias não são inesgotáveis.

Entretanto, começou a trabalhar para o mercado francófono, onde desenha Russel Chase, com argumentos de Richard Nolane. O que significou trabalhar para o mercado francófono?
Pasquale Del Vecchio: Foi uma oportunidade que aproveitei e que, nos intervalos de tempo, busco levar adiante.

Para um desenhador, quais são as principais diferenças entre o mercado italiano e o mercado francófono?
Pasquale Del Vecchio: O que mais chama a atenção na França é que a imprensa interessa-se muito mais pela BD do que na Itália, apesar da qualidade geral dos quadradinhos italianos não me parecer em nada inferior à dos nossos primos transalpinos e do facto de que os álbuns deles saem em livrarias e não em quiosques como os nossos.

Consegue conciliar bem o trabalho para os dois mercados, conhecendo as exigências editoriais?
Pasquale Del Vecchio: É um pouco difícil, porque fazer quadradinhos é um trabalho artesanal bastante demorado e trabalhoso. Mas até aqui creio que tenho me arranjado bastante bem.

De que lado vêm as maiores pressões para respeitar os prazos de entrega?
Pasquale Del Vecchio: De nenhum em particular. Até hoje consegui administrar o duplo compromisso suficientemente bem.

Como analisa a evolução da sua carreira?
Pasquale Del Vecchio: Bela pergunta, mas não sei responder. Eu sou parte interessada e tenho muito senso de pudor.

Onde continuaremos a ver Del Vecchio?
Pasquale Del Vecchio: Espero que ainda por muito tempo em Tex, onde trabalho com grande satisfação, e, de vez em quando, em alguns álbuns coloridos na França.

Quais BD's lê actualmente, ou seja, com quais mais se identifica?
Pasquale Del Vecchio: Eu gosto dos novos autores que estão usando a mídia quadradinhos com resultados que têm dignidade artística ao mesmo nível da literatura: David B., Satrapi, Blutch, Peeters...

Além dos quadradinhos, que livros lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Pasquale Del Vecchio: Eu leio muito. Os meus autores preferidos são, entre vários outros: Dostoevskj, Simenon, Celine, Philip Roth. No cinema eu adoro Fellini e Kubrick. Sobre a música, ouço um pouco de tudo, mas entre os meus preferidos coloco Paolo Conte.

Caro Pasquale Del Vecchio, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Pasquale Del Vecchio: Obrigado a vocês pelo espaço que me concederam.

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25 de Abril de 2008

Entrevista exclusiva: MARCOS MALDONADO RODRIGUES (letrista de Tex)

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Sílvio Raimundo na formulação das perguntas.

Comecemos por falar um pouco de si. Onde e quando nasceu? Qual a sua formação académica? O que faz profissionalmente?
Marcos Maldonado: Sou Marcos Maldonado Rodrigues, letrista de Banda Desenhada desde 1969, nasci em um sítio em Sorocaba, Estado de São Paulo, em 25 de Abril de 1940, filho de lavradores espanhóis. Éramos seis irmãos, quatro homens e duas mulheres.
Sou casado com Dolores Maldonado, temos três filhos e oito netos. Quando tinha seis anos, os meus Pais mudaram-se do sítio para a cidade de Sorocaba onde iniciei meus estudos. A minha formação académica pouco tem a ver com BD, pois sou formado em ajustador, torneiro mecânico e fresador. Mudei-me para a cidade de São Paulo em 1960, tendo trabalhado como torneiro mecânico até 1969 e profissionalmente trabalho como letrista de Histórias em Quadradinhos.

Como o Senhor se interessou pela Banda Desenhada e quando é que isso aconteceu?
Marcos Maldonado: Desde a minha infância estive próximo da Nona Arte, pois meu irmão mais velho, Antonio Maldonado, desde criança já se arriscava a desenhar algumas páginas de BD. Em 1962 já morando em São Paulo, meu irmão iniciou a sua carreira de letrista de fotonovelas para a Editora Abril passando depois a letreirar também BD. Foi a partir daí que comecei a demonstrar interesse pelas letrinhas.

Quais os seus personagens favoritos e o que contém a sua, ou suas, colecções de Banda Desenhada?
Marcos Maldonado: Quanto aos meus personagens favoritos, o primeiro não poderia ser outro se não o nosso grande herói TEX. Com tantos anos no mundo dos quadradinhos fiz letras para muitos personagens que posso destacar, começando por Zagor, Mister No, Akim, o qual letreirei durante quase 20 anos, desde o nº 1 junto com a Dolores, Chet, Fantasma, Mandrake, Tex-Tone e muitos personagens que se perderam no tempo. Quanto às colecções não tenho nenhuma completa, tenho muitas revistas que por algum motivo resolvi guardá-las. Um dos motivos de não ter colecções é que por ser um trabalho profissional a gente envolve-se com muitas revistas, o que torna quase impossível coleccionar alguma delas.

De que forma se tornou letrista? Foi aptidão ou consequência?
Marcos Maldonado: Como eu tinha me desligado da empresa onde trabalhei por mais de 9 anos como torneiro mecânico, o meu irmão incentivou-me a fazer letrinhas, pois quando estudava mecânica eu sempre tinha óptimas notas em caligrafia técnica. Foi a partir daí que iniciei a minha trajectória no mundo das Histórias em Quadradinhos, começando por editoras pequenas até chegar nas principais editoras do Brasil, fazendo letras de super-heróis, Disney, aventuras, suspense, terror e tudo que se relacionava com BD.

Há quantos anos o Senhor é letrista do Ranger mais temido do Oeste, o Tex?
Marcos Maldonado: Segundo as minhas anotações da Editora Vecchi, eu iniciei a minha primeira edição de Tex no dia 3 de Março de 1980, portanto lá se vão 28 anos participando das aventuras desse destemido herói do oeste. Às vezes começo a imaginar quantas mil páginas deste nosso herói passaram pelas minhas mãos, quantos dias e horas passei debruçado na minha prancheta com a caneta de nanquim letreirando Tex.

Além de Tex, de que outros personagens foi ou é letrista? E para além da Banda Desenhada, para que outras áreas letreirou?
Marcos Maldonado: Com tanto tempo no meio dos quadradinhos é lógico que letreirei para muitas revistas; iniciei em 1970 fazendo a revista Akim para Editora Noblet desde o nº 1 junto com a minha esposa Dolores, também desde o nº 1, Mister No ainda para a Noblet, Tex-Tone e Giddap Joe também desde o 1º. Para outras editoras da época letreirei revistas como Fantasma, Mandrake, Lobisomem, Combate, terror, suspense, sobrenatural e tive  a honra de letreirar na década de 70, Chico Anisio em Quadrinhos com a história "Era Xixo um Astronauta?", revista essa que somente foi publicada a nº 1; o argumento foi de Arnaud Rodrigues, conhecido actor humorista e que escrevia para a TV, e desenhada por um dos grandes desenhadores da época, Nico Rosso, já falecido, um grande amigo italiano para qual letreirei muitas revistas, como Lobisomem, Chico de Ogum e muitas outras. Ainda para a Editora Vecchi letreirei meu primeiro exemplar de Zagor, o nº 20 ("O Mistério do Moinho") no dia 14/01/1980, Chet desde o nº 1 ("Os Renegados") no dia 27/12/1979. Passei também pela Editora Abril fazendo letras de super-heróis, Disney e muitas revistas infantis... a estrada é tão longa que de muita coisa já não me recordo, mas dá para ter uma ideia de quanto já letreirei de BD. Além da Banda Desenhada letreirei durante um tempo Fotonovelas para a Editora Abril  (Capricho e Noturno), para a revista Melodias, era uma revista que noticiava sobre artistas e era complementada com uma fotonovela.

Recorda-se qual foi a primeira aventura de Tex que letreirou?
Marcos Maldonado: Como não me recordar? Foi para a Editora Vecchi no dia 03/03/1980. Tratava-se de Tex nº 110 ("A Sombra do Patíbulo"), 130 páginas, o segundo, Tex nº 111, ("Ao Sul de Nogales") 97 páginas, depois o Tex nº 112 no dia do meu aniversário, 25 de Abril de 1980, seria um dos maiores presentes de aniversário que já recebi, letreirar aquele que para mim seria o maior de todos, "EL MUERTO", 185 páginas. Meu único motivo de tristeza é que por gostar tanto dessa edição eu fazia questão que meus amigos a lessem, e não sei como, ela desapareceu e nunca mais consegui essa edição letreirada por mim, mas fazer o quê?

O seu nome sempre está presente no expediente do Tex, independente das editoras. O Senhor sempre fez parte do staff delas ou em alguma foi freelancer?
Marcos Maldonado: Muitas revistas têm o meu nome no expediente como letrista, mas também fiz letras como freelancer, por esse motivo mesmo nos Tex que letreirei para a Editora Globo não consta o meu nome, uma vez que eu letreirava através da Art & Comics.

O processo de letreiramento manual, usado até ao Tex nº 400 era totalmente artesanal, o Senhor pode nos falar a respeito desse método?
Marcos Maldonado: O letreiramento manual começou junto com os desenhos de Banda Desenhada, pois naquela época não existiam outros métodos, os letristas em sua maioria tinham suas fontes de letras próprias, por esse motivo dificilmente existiam letras iguais, às vezes até parecidas, mas nunca iguais. No início usava-se nanquim com uma caneta de pena, depois foram surgindo algumas canetas chamadas canetas tinteiro, o que veio facilitar muito o trabalho dos letristas. As penas dessas canetas tinham bitolas de vários diâmetros, que eram usadas de acordo com a letra que se iria fazer, por exemplo o Tex que era uma letra um tanto pequena, era usada a pena 0.2.



Como o Senhor recebia o material a ser letreirado e como era o processo de envio para a Editora?
Marcos Maldonado: As revistas que eram desenhadas no Brasil, eu recebia o texto e as páginas ainda desenhadas a lápis, fazia as letras já com nanquim, fechava os balões fazia as setinhas e devolvia para o desenhador fazer a arte final. Quando eram revistas já publicadas, como o caso do Tex, era necessário fazer uma montagem, que normalmente era feita pela minha esposa Dolores. O envio para a editora era feito pessoalmente, por correio ou através de malotes.

O Senhor trabalhava em parceria com a sua esposa, a Senhora Dolores Maldonado, e reza a lenda que quando do letreiramento manual, as suas caligrafias eram tão se