22 de Julho de 2008

Tex Série Normal: Ao Sul do Rio Grande

Argumento de Mauro Boselli, desenhos de Guglielmo Letteri e capas de Claudio Villa.
Com o título original A sud del Rio Grande, a história foi publicada em Itália nos nº 506 e 507 e no Brasil, pela Mythos Editora nos nº 415 e 416.

Recentemente incorporado no corpo dos Rangers, depois de uma vida de fora-da-lei, Juan Raza não é bem visto por muitos. Pelos seus antigos companheiros do roubo e do assassinato, que vêm em Raza um traidor, mas também pelos seus novos colegas que teimam em não o aceitar, em virtude do seu passado.

Por isso, quando a caravana que transporta o ouro dos Rangers é assaltada, sendo que esta era escoltada por Juan Raza que desaparece no acto, facilmente as culpas incidem sobre ele. No entanto, Tex e Carson, principais responsáveis pela inserção de Raza no caminho da lei, não aceitam deliberadamente que este possa ter voltado aos tempos do crime e vão investigar o sucedido.

Existe uma linha mestre que sustenta toda a aventura, uma linha muito ténue e que no fundo espelha a separação frágil entre estar ou não com a lei. Numa primeira parte Boselli insiste muito neste aspecto, caracterizando Raza como um homem com um passado manchado, mas que surge convertido pelos caminhos que a vida muitas vezes impõe.
Tendo sido no passado um temido fora-da-lei, hoje ele é um Ranger que insiste em ser respeitado, mas que não se furta a trilhar o seu caminho isoladamente, renegando directivas em nome de uma liberdade de que não abdica.

Apesar de ter saltado para o outro lado, Raza continua fiel aos seus princípios, com uma personalidade deveras vincada e um senso de justiça muito próprio. Um homem que extrai do conceito de liberdade um sentido muito amplo, levando-o a colidir muitas vezes com poderes instituídos, o que, a bem dizer, aproxima-o da acção e da conduta texiana.

Posteriormente, Boselli parte para uma segunda parte da aventura, onde mistura ingredientes e indícios próprios de uma investigação criminal. E é aqui que Tex e Carson acabam por intervir mais, tornando esta fase eventualmente mais interessante e menos monótona, mais pelo acumular de situações em crescendo, do que propriamente pela originalidade dramática.
 
Infelizmente, se Boselli assina aqui um dos seus mais fracos argumentos, o desenho de Letteri, entretanto já desaparecido, não consegue erguer a aventura, revelando-se mesmo ser o seu lado mais débil. Sejamos justos e gratos ao trabalho prestado pelo autor à série ao longo de décadas, caracterizado por uma composição própria do Ranger, de personagens míticas e de páginas inolvidáveis.

Mas hoje teremos que ser sobretudo honestos, porque nesta fase o autor sublinhava uma enorme decadência e onde faltava tudo: planos, enquadramentos, dinâmica, ergonomia, anatomias, precisão e fluidez.

Texto de Mário João Marques
 

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11 de Julho de 2008

Tex Gigante: Mercadores de Escravos

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Manfred Sommer. Com o título original Mercanti di Schiavi, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 17 em 2003 e no Brasil pela Mythos Editora também em 2003.

Não é novidade Nizzi apresentar um tema ou uma sua visão de uma certa actualidade enquadrando-a no cenário do velho oeste e nas aventuras de Tex Willer. Já o havia feito, por exemplo, em Sangue no Colorado, quando criticou um certo materialismo e uma certa dualidade de visões, decorrente do confronto geracional entre pai e filho. Nessa aventura, Nizzi construiu um argumento onde personagens e sentimentos se interpunham e digladiavam.

Em Mercadores de Escravos, apesar de Nizzi continuar a criticar a condição humana, a verdade é que o argumento rapidamente entra pelos caminhos da grande aventura, da pura aventura de western, onde uma extensa galeria de personagens chega e parte sem que lhe seja conferida uma verdadeira espessura dramática, uma construção psicológica capaz de enriquecer o argumento.

Personagens importantes como Dom Manuel Obregon ou Pablo Mendez são actores importantes no argumento, mas sem que tenham presença física constante no mesmo. Repare-se, por exemplo, que Pablo Mendez é variadíssimas vezes aludido, mas acaba por surgir fisicamente apenas em duas cenas.
Nizzi nunca consegue construir uma galeria de personagens capazes de levar o leitor a aderir ao argumento, uma vez que, ao seguir pelo caminho da mera aventura, perde-se aqui uma boa oportunidade de exploração do tema implícito no título.

Obviamente, as características de Nizzi aparecem bem patentes ao longo da obra: uma organização precisa do argumento, alguns bons diálogos, paisagens dignas e muita acção, mesmo um certo suspense à mistura, mas no final, fica-nos uma certa sensação de um falso caminho trilhado.



Sommer esteve longos anos sem trabalhar em Banda Desenhada e isso é bem patente nesta aventura do ranger. É certo que o autor confessou ter sentido novamente o prazer de desenhar e preparava mesmo uma nova aventura de Tex com argumento de Boselli. Quem desenha um dia, desenha todos os dias, é certo, mas existem pormenores, um estilo ou uma técnica que se perde facilmente com a falta de prática e que só esta pode voltar a dar.

O autor espanhol tem um estilo que, pessoalmente, cativa, mas toda a aventura está caracterizada por um desenho falho de um certo rigor: alguma falta de proporção nas personagens e um Tex que nunca se assume. A figura do ranger lembra vagamente um cow-boy dos primeiros filmes de Hollywood (existem semelhanças em algumas fases com o actor Randolph Scott), por vezes alude ao Tex de De La Fuente, ou chega a assemelhar-se com Paul Foran (um herói do espanhol Montero).

O Tex de Sommer nunca se assume verdadeiramente sommeriano, nunca está à vontade e repare-se, por exemplo, que numa só página (139) o Tex do primeiro quadrado é completamente diferente do Tex do quarto quadrado.

Em Mercadores de Escravos, Sommer está bem mais à vontade no desenho das cenas de acção ou nos grandes espaços.

Texto de Mário João Marques
 

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25 de Junho de 2008

Tex Série Normal: A Cidade do Medo

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Jesus Blasco e capas de Aurelio Galleppini.
Com o título original La città della paura, a história foi publicada em Itália nos nº 397 a 399 e no Brasil, pela Editora Globo nos nº 308 a 310.

Em perseguição a uma quadrilha, Tex e Carson chegam a Topeka, uma pequena cidade em pleno desenvolvimento. Mas aqui reina a lei e a palavra de Jack Torrey, dono de um saloon e que domina tudo e todos a seu bel prazer.

Os dois rangers vão ajudar o xerife na sua luta contra Torrey, mas este vai preparar sucessivos golpes e emboscadas.
O fio condutor desta aventura parece ser déjà vu, é mais do mesmo. Nizzi já construiu outros argumentos que se inspiraram nesta mesma ideia da exploração do mais forte pelos mais fracos e de uma justiça que os rangers vão tentar defender.



Em “Chumbo Ardente”, por exemplo, Nizzi também apresentou um Tex e os outros pards que chegam a uma cidade dominada por um senhor poderoso e contra ele vão lutar. Também o saudoso J. M. Charlier o fez com Blueberry em “O Homem da Estrela de Prata”.

Muitas vezes nem sequer é o tema que faz uma boa história, já que, não raramente, assistimos a grandes aventuras que partiram até de uma base pouco original.



O importante mesmo é o modo e a maneira como se explora e desenvolve toda a trama. Nizzi limitou-se aqui à pura acção, a uma luta entre duas facções, e afinal onde os rangers acabam por levar sempre a melhor nas sucessivas investidas em que intervêm.

O desenho do espanhol Jesus Blasco teve o seu tempo e marcou mesmo uma época. Mas não se adapta bem ao espírito texiano. O seu estilo é assente num traço grosso, pouco limpo e que explora muito os contrates entre claro e escuro. O seu Tex até é bem construído, a sua expressão adequa-se bem, mas todas as outras personagens (Carson incluído) surgem-nos muito à semelhança de um certo passado. Blasco nunca passa de uma certa mediania, parecendo apenas servir um trabalho com prazo de entrega expirado.

Texto de Mário João Marques
 

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16 de Junho de 2008

Tex Férias: A Testemunha

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Vicenzo Monti e capa de Aurelio Galleppini. Com o título original Il testimone, a história foi publicada em Itália nos nº 395 a 397 e no Brasil pela Mythos Editora no Tex Especial Férias nº 7.

Dois índios apanham um comboio para uma cidade onde Tex e Carson os aguardam. No entanto, durante a viagem, são vítimas de assassinato. Tex e Carson vão tentar descobrir o que está por detrás destas mortes, acabando por concluir estarem em presença de um grupo de notáveis, cujo passado está ligado aos índios.



O tema da civilização do velho oeste e o avanço da modernidade em detrimento dos povos autóctones, nomeadamente os índios, é recorrente em Claudio Nizzi. Uma vez mais, o autor italiano assina um argumento que apela a uma distinção entre brancos e índios sob um fundo de certa maneira maniqueísta, o que também não é novidade em Nizzi.

Em “A Testemunha”, os índios surgem-nos como estando presentes no fio condutor da trama, mas ausentes em quase toda a acção da mesma. Nizzi opta por um enredo em jeito de investigação policial,  deixando de lado algumas considerações psicológicas.

Se há desenhador texiano que mais se inspirou em Ticci ele foi Monti. O desenhador genovês não serviu apenas na adopção de um modelo para o ranger, todo o traço de Monti vai desembocar em Ticci. Não raras vezes, pensamos estar em presença de uma aventura desenhada por Ticci,  quando por exemplo o Tex de Monti é representado em planos médios. 

No entanto, Monti não é Ticci, não só porque falta ao seu Tex a imponência ticciana, mas também porque Monti não domina a ergonomia e a fisionomia como Ticci. Em tudo o mais, Monti demonstra estar à vontade em desenhar o velho oeste, conferindo aquela velha aura tão característica destes ambientes.
 
Texto de Mário João Marques
 
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06 de Junho de 2008

Tex Série Normal: O Massacre de Red Hill

Argumento de Guido Nolitta, desenhos de Alberto Giolitti (Gilbert) e Giovanni Ticci e capas de Claudio Villa.
Com o título original La strage di Red Hill, a história foi publicada em Itália nos nº 431 a 435 e no Brasil, pela Editora Globo nos nº 343 a 348.

Na fronteira dos EUA com o Canadá, uma aldeia de índios Assiniboins é massacrada por caçadores de lobos, os Wolfers. No momento da tragédia, Tex e Jack Tigre encontram-se na aldeia, mas pouco ou nada podem fazer. O governo americano incumbe Tex de liquidar a quadrilha dos Wolfers que, entretanto, criaram um vasto comércio clandestino de uísque. Tex e Carson recorrem ao velho amigo Jim Brandon e adoptam nomes falsos para se infiltrarem no seio da quadrilha.

Nolitta gosta de incendiar ânimos, extremando ao máximo ódios e vinganças e tornando os argumentos muito maniqueístas. O autor exalta os sentimentos para poder justificar as acções futuras das suas personagens, porque o autor identifica Tex como seu pai o fizera, um justiceiro duro, implacável, racional, mas também cínico.

Nolitta preocupa-se em preparar o terreno convenientemente para que Tex possa agir de determinada forma. O ataque dos caçadores Wolfers à tribo índia é levada ao extremo, é um ataque traiçoeiro e duro, extremamente violento. Nolitta serve assim um prólogo sangrento para afirmar ao leitor qual o caminho que doravante vai seguir e cabe a nós prepararmo-nos para os actos seguintes.

Também na construção de cada personagem, Nolitta extrema ao máximo o carácter de cada uma, revelando uma dualidade bem vincada e ímpar nas aventuras texianas.

Bem entendido, o modo como Nolitta apresenta sempre os factos, mais não é do que um estratagema que pretende aumentar a tensão por um lado, mas sobretudo criar sentimentos firmes e convictos em Tex, preparando o ranger para combates terríveis. Nolitta não gere expectativas, pretende sim aumentá-las para justificar o comportamento texiano.


Outra característica em Nolitta é  a sua extrema apetência para escrever longos roteiros que, frequentemente acabam por se dissipar em pequenas tramas, tornando o resultado final algo desequilibrado.

Em "O Massacre de Red Hill" isso não acontece, uma vez que a trama, apesar das muitas páginas do argumento, consegue sempre manter viva a ideia principal do mesmo, nunca saltando para episódios secundários.

Aventura desenhada a duas mãos, primeiro por Giolitti (que viria a falecer) e finalizada pelo seu discípulo Ticci. Os estilos são diferentes, mais elaborado e detalhado o de Giolitti, mais profundo e pujante o de Ticci.

Apesar das diferenças, convém realçar que Giolitti é um dos melhores desenhadores texianos. O seu estilo é limpo e preciso, com planos detalhados e um notável senso do movimento, bem patente nas cenas iniciais do ataque ao acampamento índio.

Mas o seu Tex não é de modo algum o Tex que estamos habituados. O seu Tex surge algo envelhecido e sem a pujança do Tex ticciano. Para além disso, a comparação surge na mesma aventura, com Ticci, apesar do desgaste dos anos já patente em muitos detalhes, a desenhar um ranger duro, altivo e sobretudo pujante.

Texto de Mário João Marques
 

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24 de Maio de 2008

Tex Gigante: Terra Sem Lei

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Alberto Giolitti. Com o título original Terra senza legge, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 2 em 1989 e no Brasil pela Mythos Editora em 1999.

Terra sem lei é um western clássico, caracterizado por um argumento despretensioso, sem outro objectivo que uma bela homenagem ao velho oeste: Tex e os seus companheiros têm por missão acabar com a actividade de um conjunto de malfeitores que dominam, a seu bel prazer, uma cidade.
Mais uma vez, Nizzi faz gala em apresentar-nos todo um conjunto de valores sólidos  do velho oeste, misturando, ao longo das suas páginas, exército, índios, mexicanos, pistoleiros e até uma perseguição a uma diligência, tão do agrado do argumentista.

É o velho argumento da caça aos fora-da-lei que, lido e relido, acaba por nunca nos cansar, quando o mesmo se afirma coerente e credível. Neste caso, Nizzi coloca sempre a cadência e o ritmo certos no desenvolvimento da história.
Primeiro, a chegada à cabana do sargento retirado Mac Cormick, depois, no rancho de Bill Gorman, mais tarde na pousada de Paco Chavez, passando pela perseguição à diligência e, finalmente, terminando no duelo final em Stanford. Tudo é feito por etapas precisas, à boa maneira dos velhos clássicos. Não há, por assim dizer, precipitações nem falha de coerência no desenvolvimento da acção.

Desta vez, Nizzi escolheu um protagonismo a quatro, uma vez que Kit e Tigre dividem a acção com Tex e Carson, existindo também aqui um certo classicismo, um retorno a velhas aventuras do ranger.
Para um grande clássico, como é este Terra sem lei, nada melhor que um desenho pleno de aura, como só o velho oeste nos consegue transmitir. Giolitti caracteriza-se por um desenho extremamente detalhado, uniforme e feito de inúmeros grandes planos ao nível das suas personagens, como também nos habituámos a ver e a apreciar em Ticci.
Aliás, são muitas e por demais evidentes as semelhanças com o traço do desenhador genovês, mas foi certamente este que sofreu a influência de Giolitti e não o contrário.

Em Giolitti o desenho é menos imponente e altivo, tornando-se, a meu ver, mais romântico. Nota-se sobremaneira que o que o autor mais aprecia no western tem aqui marcada presença: movimento (veja-se a riqueza da cena da perseguição à diligência), animais, paisagens e aventura.
Em cada quadrado sentimo-nos mergulhados no velho oeste, tão grande é a profundidade, a rudeza, o jogo de sombras e o detalhe colocado no desenho.
É a isto que nós chamamos a aura  que nos referimos anteriormente.

No entanto, a figura de Tex é algo pesada e envelhecida, surgindo com um semblante carregado, mais lembrando o xerife Matt Dilon em Gunsmoke, uma outra personagem brilhantemente ilustrada por Giolitti.

Texto de Mário João Marques
   
     
       
       
    
 
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08 de Maio de 2008

Tex Gigante: O Pueblo Perdido

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Giovanni Ticci. Com o título original Il Pueblo Perduto, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 7 em 1994 e no Brasil pela Mythos Editora em 2000.

O Pueblo Perdido é um western grandioso e contido. Grandioso na sublime apresentação dos espaços e dos cenários, contido no ritmo imprimido pelo argumento de Nizzi.
A BD atrai-nos, ora por um excelente desenho, ora por um argumento credível e bem construído, ou ainda pela conjunção de ambos os factores. Com Ticci, seguramente que uma aventura já está servida por um grande desenho e este Pueblo Perdido só poderia levantar-nos eventuais dúvidas na questão do argumento. No entanto, mais uma vez o referimos, Nizzi sabe construir bem os seus argumentos e, melhor ainda, sabe como os temperar com doses quante baste  de acção e de bons diálogos.

O Pueblo Perdido é um western grandioso, pleno de suspense, onde tudo gira em torno de um mapa que poderá levar a um eventual tesouro arqueológico. Nizzi confere um tempo próprio ao desenrolar da acção, tudo é contido, tudo tem o seu tempo e tudo  nos é apresentado no tempo e ritmo certos. O enredo surge-nos sempre ao mesmo ritmo que aquele que a personagem do Prof. Montoya quer chegar ao tesouro. O seu guia (Shepard) insiste com ele, pretendendo saber sempre mais dos planos para chegar ao tesouro, mas é sempre refreado nos seus intentos pelo Professor: cada coisa no seu tempo.

Também Carson surge neste argumento como que a pretender querer ir mais além do que o ritmo que Nizzi entregou ao texto: em apenas dois exemplos, quando pretende perseguir quem baleou o acampamento (pág. 98), ou ainda quando quer chegar mais rapidamente ao grupo de Jackson que se dirigia ao ao Pueblo Perdido. Tex surge sempre a contrabalançar esses ímpetos e a conferir à trama o ritmo certo, o ritmo que o autor pretende.

Este ritmo contido e pensado é bem patente, de igual forma, nas inúmeras cenas de acampamentos nocturnos, onde as personagens aproveitam para descansar, meditar, mas também para assumirem e concretizarem acções futuras. Não nos lembramos de uma aventura de Tex com tantas cenas semelhantes.



Para além desta sensação de western ritmado, Nizzi faz gala de toda uma panóplia de cenários grandiosos e reveladores do nosso imaginário do velho oeste: a reserva índia, o rancho de Jackson, a cidade fronteiriça de Tupac, as grandes planícies, o perturbante deserto e, em clímax final, o pueblo perdido.
Fechando com chave de ouro, com mão de mestre, Nizzi finaliza o enredo de modo previsível, mas conferindo um desenvolvimento e uma linha de acção coerente.

Em relação a Ticci, voltamos ao início destas linhas, apresento-me como um suspeito, porquanto leio Tex desde há mais de vinte anos e habituei-me a ver no Tex de Ticci o seu expoente máximo. Não raras vezes, posteriores autores vieram desenhar a personagem, tendo por base o Tex ticciano, portentoso, duro, imponente, dinâmico e enérgico.
Ticci é um dotado, o seu desenho não cabe num mero e redutor quadrado, recorrendo o autor, vezes sem conta, aos planos de grandes e extensos cenários, apenas traduzíveis em vinhetas rectangulares. O quadrado surge para Ticci como que uma asfixia e, neste album, lembramo-nos de três, quatro, no máximo cinco páginas, onde o desenhador não tenha recorrido ao rectângulo, revelador de toda a sua habilidade.

Existe em Ticci uma profunda e latente necessidade de expansão e liberdade, uma apetência natural pelos grandes espaços e por planos de conjunto, traduzíveis mesmo em variadas cenas de interior. As cenas de uma panorâmica geral transcritas nas páginas 110/111 são de grande intensidade, parecendo o próprio leitor ficar esmagado (é este literalmente o termo) pela força conferida no desenho de Ticci. A própria expressão de Tex (na pág. 110) é fantástica, rigorosíssima e perfeitamente identificável com o que o herói está a passar.

E que dizer das personagens Ticcianas?... São todas elegantemente elaboradas, altivas, soberbas, transmitindo uma força natural em face da personalidade de cada uma, todas estão perfeitamente adaptadas à dinâmica do enredo.
Por isso e, em resumo, quando nos é dado ler um album como este Pueblo Perdido, com um argumento pausado e credível, servido por um superior desenho, só poderemos sentirmo-nos felizes por gostarmos tanto de BD e de Tex em particular.

Texto de Mário João Marques
 
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28 de Abril de 2008

Tex Gigante: A Última Fronteira

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Goran Parlov. Com o título original L'Ultima Frontiera, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 11 em 1997 e no Brasil pela Mythos Editora em 2000.

A Última Fronteira é uma história de amor e vingança, uma aventura filosófica, recheada de impenetráveis florestas e inúmeros cursos de água, no fundo uma sentida e justa homenagem a Hugo Pratt, o inesquecível criador de variadas obras primas, mas que permanece entre nós mais conhecido pela criação do mítico Corto Maltese.

O croata Goran Parlov, senhor de um traço muito semelhante ao de Pratt e bem na linha do estilo Ken Parker, assina aqui um trabalho despretensioso e que, para nós, acabou por constituir uma agradável surpresa. O seu desenho, também aqui e ali inspirado no seu grande ídolo, o espanhol Alfonso Font, igualmente autor de Tex, mantém sempre uma certa cadência, conseguindo transmitir ao leitor toda uma atmosfera calma e segura, característica dos ambientes retratados na própria história.

O argumento de Nizzi surge-nos algo "desenquadrado" daquilo que estamos habituados a ver nas aventuras do ranger, com a acção a decorrer no Canadá, longe das pradarias e das extensas planícies do velho oeste americano.
Nizzi não contrapõe a Tex um fora da lei puro, uma personagem odiável, antes pelo contrário, em lugar de um certo maniqueísmo, quase sempre presente nas aventuras do ranger, a figura de Jesus Zane é alguém que, exasperado pela sua infância infeliz, procura justiça e que quer ligar o seu ideal de vida a uma razão íntima. Por isso, em nosso entender, toda a questão que perpassa pela aventura é sabermos ou tentarmos distinguir a fronteira entre razão e injustiça, porque Zane, ao procurar a sua razão está, por assim dizer, a cair no campo da injustiça.



Nizzi desenvolve o seu argumento com base num triângulo de personagens, uma vez que, para além de Jesus Zane, Nat representa a índole suave e idealista do argumento, enquanto que, por fim, Sheewa é o maior (e mesmo único) amor da vida de Jesus, representando tudo o que ele sempre desejou, mas que sempre viu negado.
Jesus Zane nasceu de uma união maldita, toda a sua vida foi um inferno, sempre movida pelo ódio e  pela vingança. Por isso, no final, o leitor acaba por não se surpreender quando Zane assume a sua morte como uma libertação.

Texto de Mário João Marques
 
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12 de Abril de 2008

Tex Gigante: O Último Rebelde

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Colin Wilson. Com o título original L'Ultimo Ribelle, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 14 em 2000 e no Brasil pela Mythos Editora em 2002.

O Último Rebelde tem como pano de fundo um grupo de soldados sulistas derrotados na Guerra Civil Americana e que anseia o regresso às armas para, deste modo, poder vingar a humilhação sofrida. O grupo vai preparando o terreno com acções de guerrilha, visando com isso a obtenção de fundos para a compra de armamento.

O argumento encontra-se perfeitamente localizado em dois cenários: a penitenciária de Peterburg e o covil dos renegados. Podemos, deste modo, afirmar que Nizzi nos apresenta um enredo que se desenrola sempre em círculo fechado, carregado de uma certa densidade dramática, onde Tex e Carson não têm tempo sequer para meditar.

Na penitenciária, Tex dispõe de um tempo preciso e de um espaço exíguo para planear o encontro com Freemont e a posterior fuga. Mais tarde, já no covil dos rebeldes, o assalto ao cofre é também preparado dentro de um limite temporal relativamente curto e num espaço bem delimitado.

Nizzi gosta de apresentar enredos com certas doses de suspense e, como já tem feito noutras aventuras do ranger, é adepto de crescendos dramáticos que o elemento natureza proporciona: o temporal que surge na noite do assalto ao cofre, mais não é do que um adensar emocional da acção, como já tínhamos visto, por exemplo, em O Cavaleiro Solitário, quando Tex derrotou os irmãos Barret. Se a chuva copiosa serve de ajuda ao plano, ela também vem contribuir para a sobrecarga dramática da acção. Repare-se, como curiosidade, que quando se inicia a fuga de Tex, Carson e Corbett, a chuva desaparece.

Uma das grandes qualidades deste O Último Rebelde também está na riqueza e no alcance psicológico que as personagens adquirem, uma característica que muitas vezes rareia nas aventuras de Tex. O herói surge-nos aqui com uma certa dualidade de sentimentos, uma vez que vai descobrir em Freemont um aliado para combater os rebeldes. Tex vai sentir que poderá estar a trair a confiança de alguém que, afinal, confiou nele, complicando, em certa medida, a missão para a qual fora incumbido.

O Capitão Freemont, regendo-se por interesses específicos e concretos, é no fundo alguém com preocupações humanas, não se furtando a salvar dois companheiros, ou quando acaba por unir o seu destino ao do general Jackson.
Este mesmo General, surgindo poucas vezes durante o enredo, acaba por revelar ao leitor ser senhor de grandes ideais e paixões, continuando a lutar até ao fim por uma causa em que nunca deixou de acreditar.
Por fim, a figura do Major Corbett, o perfeito vilão com quem Nizzi começa e termina a saga dos rebeldes. No fundo, Nizzi apresenta nesta personagem tudo o que Tex sempre desprezou.

Colin Wilson é um autor sobejamente conhecido, nomeadamente para quem acompanha regularmente a escola franco-belga. O autor neo-zelandês apresenta-se com um desenho nervoso e dinâmico, a que não será alheia a sua experiência a desenhar a Juventude de Blueberry ou Judge Dread. Apesar do seu Tex sofrer vários desenvolvimentos ao longo das páginas, lembra levemente Ticci, alude por vezes a De La Fuente, mas acaba por sofrer muito a influência do herói francês (já citado) de Gir e Charlier. Esqueçamos esse detalhe e foquemos a nossa atenção apenas para o desenho de Wilson e esse adquire uma rara elegância ao longo de toda a aventura.

Texto de Mário João Marques
 

Escrito por Autores do blogue em 00:25:14 | Link permanente | Comments (0) |

04 de Abril de 2008

Tex Ouro 13: O Garoto Selvagem

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de G. Ticci e capa de Aurelio Galleppini.
Com o título original Il Ragazzo Selvaggio
, a história foi publicada em Itália nos números 317 a  319 em 1987 e no Brasil pela Mythos Editora em Julho de 2004. 

Há 15 anos atrás, um menino desaparece quando a caravana onde seguiam os seus pais é atacada por índios Arapahos. Anos mais tarde, o seu pai, agora um rico rancheiro, não desiste de o encontrar e o seu desejo torna-se mais forte quando dois caçadores afirmam ter visto um jovem branco nas montanhas. Tex e Carson vão ajudar nesta busca, embrenhando-se numa aventura com algumas surpresas desagradáveis.

O que Nizzi vem tratar é o tema da paternidade e dos laços de sangue. Randall, o rico rancheiro, nunca se conformou com o desaparecimento do seu filho e, apesar de tratar Willie (o seu jovem capataz) da mesma forma, a verdade é existe sempre um vazio paternal. Para Nizzi, os laços de sangue sobrepõem-se à adopção, conduzindo o leitor na mesma busca que Randall e os dois rangers. Qualquer que seja o resultado desta busca, o importante é mesmo encontrar o jovem, o importante é mesmo o pai nunca abandonar o filho, mesmo decorridos tantos anos.

Esta busca acaba por ser uma perseguição, mas se Willie e o seu grupo perseguem Tex, Carson e Randall, com intuitos pouco abonatórios, o pai persegue mais um desejo. Todo o enredo é preparado em crescendo, no sentido de um climax final, revelando-se este talvez demasiadamente feliz e em certa medida optimista. Mas a aventura é intensa, uma história de amor e de afecto, um hino à coragem em enfrentar uma realidade por mais dolorosa que ela possa ser.

Que dizer do desenho de Ticci? Aqui, o traço do autor genovês encontra-se em pleno auge e as suas muitas qualidades estão bem presentes. Primeiro, um traço fino, seguro e vigoroso. Depois, um conjunto de personagens com uma expressividade evidente.
 

Seguimos também através de planos grandiosos e sequências plenas de uma acção notavelmente ritmada. Finalmente um Tex imponente. Tudo isto, e não é pouco, fazem com que o Tex Ticciano nos transmita toda a aura do velho oeste americano, estando as suas aventuras impregnadas de um sentimento romântico notável.

Texto de Mário João Marques

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