Tex Série Normal: Ao Sul do Rio Grande
Argumento de Mauro Boselli, desenhos de Guglielmo Letteri e capas de Claudio Villa.
Com o título original A sud del Rio Grande, a história foi publicada em Itália nos nº 506 e 507 e no Brasil, pela Mythos Editora nos nº 415 e 416.
Recentemente incorporado no corpo dos Rangers, depois de uma vida de fora-da-lei, Juan Raza não é bem visto por muitos. Pelos seus antigos companheiros do roubo e do assassinato, que vêm em Raza um traidor, mas também pelos seus novos colegas que teimam em não o aceitar, em virtude do seu passado.
Por isso, quando a caravana que transporta o ouro dos Rangers é assaltada, sendo que esta era escoltada por Juan Raza que desaparece no acto, facilmente as culpas incidem sobre ele. No entanto, Tex e Carson, principais responsáveis pela inserção de Raza no caminho da lei, não aceitam deliberadamente que este possa ter voltado aos tempos do crime e vão investigar o sucedido.
Existe uma linha mestre que sustenta toda a aventura, uma linha muito ténue e que no fundo espelha a separação frágil entre estar ou não com a lei. Numa primeira parte Boselli insiste muito neste aspecto, caracterizando Raza como um homem com um passado manchado, mas que surge convertido pelos caminhos que a vida muitas vezes impõe.
Tendo sido no passado um temido fora-da-lei, hoje ele é um Ranger que insiste em ser respeitado, mas que não se furta a trilhar o seu caminho isoladamente, renegando directivas em nome de uma liberdade de que não abdica.
Apesar de ter saltado para o outro lado, Raza continua fiel aos seus princípios, com uma personalidade deveras vincada e um senso de justiça muito próprio. Um homem que extrai do conceito de liberdade um sentido muito amplo, levando-o a colidir muitas vezes com poderes instituídos, o que, a bem dizer, aproxima-o da acção e da conduta texiana.
Posteriormente, Boselli parte para uma segunda parte da aventura, onde mistura ingredientes e indícios próprios de uma investigação criminal. E é aqui que Tex e Carson acabam por intervir mais, tornando esta fase eventualmente mais interessante e menos monótona, mais pelo acumular de situações em crescendo, do que propriamente pela originalidade dramática.
Infelizmente, se Boselli assina aqui um dos seus mais fracos argumentos, o desenho de Letteri, entretanto já desaparecido, não consegue erguer a aventura, revelando-se mesmo ser o seu lado mais débil. Sejamos justos e gratos ao trabalho prestado pelo autor à série ao longo de décadas, caracterizado por uma composição própria do Ranger, de personagens míticas e de páginas inolvidáveis.
Mas hoje teremos que ser sobretudo honestos, porque nesta fase o autor sublinhava uma enorme decadência e onde faltava tudo: planos, enquadramentos, dinâmica, ergonomia, anatomias, precisão e fluidez.
Texto de Mário João Marques
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Manfred Sommer. Com o título original Mercanti di Schiavi, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 17 em 2003 e no Brasil pela Mythos Editora também em 2003.
Em Mercadores de Escravos, apesar de Nizzi continuar a criticar a condição humana, a verdade é que o argumento rapidamente entra pelos caminhos da grande aventura, da pura aventura de western, onde uma extensa galeria de personagens chega e parte sem que lhe seja conferida uma verdadeira espessura dramática, uma construção psicológica capaz de enriquecer o argumento.
Personagens importantes como Dom Manuel Obregon ou Pablo Mendez são actores importantes no argumento, mas sem que tenham presença física constante no mesmo. Repare-se, por exemplo, que Pablo Mendez é variadíssimas vezes aludido, mas acaba por surgir fisicamente apenas em duas cenas.
O autor espanhol tem um estilo que, pessoalmente, cativa, mas toda a aventura está caracterizada por um desenho falho de um certo rigor: alguma falta de proporção nas personagens e um Tex que nunca se assume. A figura do ranger lembra vagamente um cow-boy dos primeiros filmes de Hollywood (existem semelhanças em algumas fases com o actor Randolph Scott), por vezes alude ao Tex de De La Fuente, ou chega a assemelhar-se com Paul Foran (um herói do espanhol Montero).
O Tex de Sommer nunca se assume verdadeiramente sommeriano, nunca está à vontade e repare-se, por exemplo, que numa só página (139) o Tex do primeiro quadrado é completamente diferente do Tex do quarto quadrado.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Jesus Blasco e capas de Aurelio Galleppini.
Em “Chumbo Ardente”, por exemplo, Nizzi também apresentou um Tex e os outros pards que chegam a uma cidade dominada por um senhor poderoso e contra ele vão lutar. Também o saudoso J. M. Charlier o fez com Blueberry em “O Homem da Estrela de Prata”.
O desenho do espanhol Jesus Blasco teve o seu tempo e marcou mesmo uma época. Mas não se adapta bem ao espírito texiano. O seu estilo é assente num traço grosso, pouco limpo e que explora muito os contrates entre claro e escuro. O seu Tex até é bem construído, a sua expressão adequa-se bem, mas todas as outras personagens (Carson incluído) surgem-nos muito à semelhança de um certo passado. Blasco nunca passa de uma certa mediania, parecendo apenas servir um trabalho com prazo de entrega expirado.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Vicenzo Monti e capa de Aurelio Galleppini. Com o título original Il testimone, a história foi publicada em Itália nos nº 395 a 397 e no Brasil pela Mythos Editora no Tex Especial Férias nº 7.

No entanto, Monti não é Ticci, não só porque falta ao seu Tex a imponência ticciana, mas também porque Monti não domina a ergonomia e a fisionomia como Ticci. Em tudo o mais, Monti demonstra estar à vontade em desenhar o velho oeste, conferindo aquela velha aura tão característica destes ambientes.
Argumento de Guido Nolitta, desenhos de Alberto Giolitti (Gilbert) e Giovanni Ticci e capas de Claudio Villa.
Nolitta gosta de incendiar ânimos, extremando ao máximo ódios e vinganças e tornando os argumentos muito maniqueístas. O autor exalta os sentimentos para poder justificar as acções futuras das suas personagens, porque o autor identifica Tex como seu pai o fizera, um justiceiro duro, implacável, racional, mas também cínico.
Também na construção de cada personagem, Nolitta extrema ao máximo o carácter de cada uma, revelando uma dualidade bem vincada e ímpar nas aventuras texianas.
Outra característica em Nolitta é a sua extrema apetência para escrever longos roteiros que, frequentemente acabam por se dissipar em pequenas tramas, tornando o resultado final algo desequilibrado.
Apesar das diferenças, convém realçar que Giolitti é um dos melhores desenhadores texianos. O seu estilo é limpo e preciso, com planos detalhados e um notável senso do movimento, bem patente nas cenas iniciais do ataque ao acampamento índio.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Alberto Giolitti. Com o título original Terra senza legge, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 2 em 1989 e no Brasil pela Mythos Editora em 1999.
É o velho argumento da caça aos fora-da-lei que, lido e relido, acaba por nunca nos cansar, quando o mesmo se afirma coerente e credível. Neste caso, Nizzi coloca sempre a cadência e o ritmo certos no desenvolvimento da história.
Desta vez, Nizzi escolheu um protagonismo a quatro, uma vez que Kit e Tigre dividem a acção com Tex e Carson, existindo também aqui um certo classicismo, um retorno a velhas aventuras do ranger.
Em Giolitti o desenho é menos imponente e altivo, tornando-se, a meu ver, mais romântico. Nota-se sobremaneira que o que o autor mais aprecia no western tem aqui marcada presença: movimento (veja-se a riqueza da cena da perseguição à diligência), animais, paisagens e aventura.
No entanto, a figura de Tex é algo pesada e envelhecida, surgindo com um semblante carregado, mais lembrando o xerife Matt Dilon em Gunsmoke, uma outra personagem brilhantemente ilustrada por Giolitti.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Giovanni Ticci. Com o título original Il Pueblo Perduto, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 7 em 1994 e no Brasil pela Mythos Editora em 2000.
Também Carson surge neste argumento como que a pretender querer ir mais além do que o ritmo que Nizzi entregou ao texto: em apenas dois exemplos, quando pretende perseguir quem baleou o acampamento (pág. 98), ou ainda quando quer chegar mais rapidamente ao grupo de Jackson que se dirigia ao ao Pueblo Perdido. Tex surge sempre a contrabalançar esses ímpetos e a conferir à trama o ritmo certo, o ritmo que o autor pretende.
Em relação a Ticci, voltamos ao início destas linhas, apresento-me como um suspeito, porquanto leio Tex desde há mais de vinte anos e habituei-me a ver no Tex de Ticci o seu expoente máximo. Não raras vezes, posteriores autores vieram desenhar a personagem, tendo por base o Tex ticciano, portentoso, duro, imponente, dinâmico e enérgico.
Existe em Ticci uma profunda e latente necessidade de expansão e liberdade, uma apetência natural pelos grandes espaços e por planos de conjunto, traduzíveis mesmo em variadas cenas de interior. As cenas de uma panorâmica geral transcritas nas páginas 110/111 são de grande intensidade, parecendo o próprio leitor ficar esmagado (é este literalmente o termo) pela força conferida no desenho de Ticci. A própria expressão de Tex (na pág. 110) é fantástica, rigorosíssima e perfeitamente identificável com o que o herói está a passar.
E que dizer das personagens Ticcianas?... São todas elegantemente elaboradas, altivas, soberbas, transmitindo uma força natural em face da personalidade de cada uma, todas estão perfeitamente adaptadas à dinâmica do enredo.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Goran Parlov. Com o título original L'Ultima Frontiera, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 11 em 1997 e no Brasil pela Mythos Editora em 2000.
O croata Goran Parlov, senhor de um traço muito semelhante ao de Pratt e bem na linha do estilo Ken Parker, assina aqui um trabalho despretensioso e que, para nós, acabou por constituir uma agradável surpresa. O seu desenho, também aqui e ali inspirado no seu grande ídolo, o espanhol Alfonso Font, igualmente autor de Tex, mantém sempre uma certa cadência, conseguindo transmitir ao leitor toda uma atmosfera calma e segura, característica dos ambientes retratados na própria história.
O argumento de Nizzi surge-nos algo "desenquadrado" daquilo que estamos habituados a ver nas aventuras do ranger, com a acção a decorrer no Canadá, longe das pradarias e das extensas planícies do velho oeste americano.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Colin Wilson. Com o título original L'Ultimo Ribelle, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 14 em 2000 e no Brasil pela Mythos Editora em 2002.
Na penitenciária, Tex dispõe de um tempo preciso e de um espaço exíguo para planear o encontro com Freemont e a posterior fuga. Mais tarde, já no covil dos rebeldes, o assalto ao cofre é também preparado dentro de um limite temporal relativamente curto e num espaço bem delimitado.
Uma das grandes qualidades deste O Último Rebelde também está na riqueza e no alcance psicológico que as personagens adquirem, uma característica que muitas vezes rareia nas aventuras de Tex. O herói surge-nos aqui com uma certa dualidade de sentimentos, uma vez que vai descobrir em Freemont um aliado para combater os rebeldes. Tex vai sentir que poderá estar a trair a confiança de alguém que, afinal, confiou nele, complicando, em certa medida, a missão para a qual fora incumbido.
Colin Wilson é um autor sobejamente conhecido, nomeadamente para quem acompanha regularmente a escola franco-belga. O autor neo-zelandês apresenta-se com um desenho nervoso e dinâmico, a que não será alheia a sua experiência a desenhar a Juventude de Blueberry ou Judge Dread. Apesar do seu Tex sofrer vários desenvolvimentos ao longo das páginas, lembra levemente Ticci, alude por vezes a De La Fuente, mas acaba por sofrer muito a influência do herói francês (já citado) de Gir e Charlier. Esqueçamos esse detalhe e foquemos a nossa atenção apenas para o desenho de Wilson e esse adquire uma rara elegância ao longo de toda a aventura.
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de G. Ticci e capa de Aurelio Galleppini.
O que Nizzi vem tratar é o tema da paternidade e dos laços de sangue. Randall, o rico rancheiro, nunca se conformou com o desaparecimento do seu filho e, apesar de tratar Willie (o seu jovem capataz) da mesma forma, a verdade é existe sempre um vazio paternal. Para Nizzi, os laços de sangue sobrepõem-se à adopção, conduzindo o leitor na mesma busca que Randall e os dois rangers. Qualquer que seja o resultado desta busca, o importante é mesmo encontrar o jovem, o importante é mesmo o pai nunca abandonar o filho, mesmo decorridos tantos anos.
Esta busca acaba por ser uma perseguição, mas se Willie e o seu grupo perseguem Tex, Carson e Randall, com intuitos pouco abonatórios, o pai persegue mais um desejo. Todo o enredo é preparado em crescendo, no sentido de um climax final, revelando-se este talvez demasiadamente feliz e em certa medida optimista. Mas a aventura é intensa, uma história de amor e de afecto, um hino à coragem em enfrentar uma
realidade por mais dolorosa que ela possa ser.
Seguimos também através de planos grandiosos e sequências plenas de uma acção notavelmente ritmada. Finalmente um Tex imponente. Tudo isto, e não é pouco, fazem com que o Tex Ticciano nos transmita toda a aura do velho oeste americano, estando as suas aventuras impregnadas de um sentimento romântico notável.
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Nas capas
Essas palavras só invocam os seres das trevas
Continue desenhando que você prome
Parabéns pela entrevista, mas ficou faltando