09 de Janeiro de 2008

Falecimento de Carlo Raffaele Marcello

Por Mário João Marques

CARLO RAFFAELE MARCELLO (1929-2007)

Ainda não refeitos dos recentes desaparecimentos de Guglielmo Letteri e de Manfred Sommer, os leitores texianos são novamente abalados com a notícia de mais uma perda, a do italiano Carlo Raffaele Marcello em 23 de Dezembro último e que, apesar de já retirado das páginas do ranger, continuava a ser considerado como um dos melhores desenhadores da série.

Nascido em 16 Novembro 1929 em Ventimiglia, é em França que desenvolve a maior parte da sua vida artística, criando séries como Loana e Nick Silver para Sagéditions ou colaborando com Opera Mundi e Mondial Press onde, a partir de 1950, desenvolve adaptações de grandes clássicos da literatura como Ben-Hur, Oliver Twist ou Jane Eyre e ainda frescos históricos como A Bíblia ou A História de Paris. Para a Larousse ilustra fascículos da História de França, À Descoberta do Mundo ou A História do Oeste. Teve uma longa carreira com a série Le Cavalier Inconnu (1955-1970), mas talvez o seu trabalho mais conhecido no mercado francês tenha sido Docteur Justice para a Pif em 1970, uma série que ainda recentemente teve honras de reedição.

No final da década de 80 regressa a Itália onde começa a colaborar com o mundo bonelliano. Inicialmente, com Zagor, posteriormente também com Tex, tornando-se rapidamente num dos elementos do staff regular de desenhadores desta série.

O seu primeiro trabalho em Tex surge em 1991 com a aventura I Diavoli Neri (Tex italiano 371 a 373) escrita por Claudio Nizzi. Depois sucederam-se mais oito aventuras (ver lista abaixo), algumas mesmo memoráveis em parceria com Mauro Boselli, que guindaram Marcello ao galarim dos desenhadores mais apreciados dos leitores texianos, muito por força de um traço maduro e convicto que lhe permitiu desde logo construir um Tex segundo os cânones ticcianos, mas ao mesmo tempo mantendo o seu próprio estilo.


Já na sua crítica a Gli Invencibili, o blogue Tex Willer escrevia o que pode ser considerado como a apreciação global de todo o trabalho do desenhador na série: “Marcello denota uma certa característica épica bem presente no seu  traço, um senso do movimento onde transpira poeira, sangue, suor e porque não também lágrimas. Os seus planos nunca são estanques e o seu traço, sem o detalhe de artistas como Villa ou Civitelli, atinge uma dimensão própria, um envolvimento natural com o leitor, convidando-o a permanecer sempre presente e atento na leitura. Marcello desenhou eventualmente algumas das melhores histórias texianas, mas a verdade é que o seu traço também contribuiu para deixar no leitor um sentimento de velho oeste, de um oeste carregado de simbolismos, de um oeste, afinal invencível no nosso imaginário.

Aventuras de Tex desenhadas por Marcello

I Diavoli Neri (1991) com Claudio Nizzi: Tex italiano 371 a 373

Il passato di Carson (1994) com Mauro Boselli: Tex italiano 407 a 409

Tulac! (1995) com Mauro Boselli: Tex italiano 416 a 418

Il Mistero della Pergamena (1996) com Claudio Nizzi: Tex italiano 425 a 428

Gli Invencibili (1997) com Mauro Boselli: Tex italiano 438 a 440

La Tragedia del Treno 809 (1997) com Mauro Boselli: Tex italiano 445 e 446

I Sette Assassini (1999) com Mauro Boselli: Tex italiano 463 a 465

Terra di Confine (1999) com Mauro Boselli: Tex italiano 469 e 470

La Grande Invasione (2002) com Mauro Boselli: Tex italiano 497 a 499


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10 de Outubro de 2007

Ernesto Rudesindo García Seijas: A Biografia

Ernesto Rudesindo García Seijas 

Ernesto Rudesindo García Seijas, nasceu a 1 de Junho de 1941 na cidade de Ramos Mejía, província de Buenos Aires (Argentina) e desde muito tenra idade começou a desenhar em cada pedaço de papel que lhe caía nas mãos. Quando jogava futebol com os seus amigos, logo deixava a bola, para desenhar na calçada, com pedaços de giz, daí ser apelidado na época como "Pincelito".

Motivado pela admiração ao seu irmão 12 anos mais velho, que era desenhador publicitário, decidiu ingressar com 12 anos na Escola Secundária de Belas Artes, a qual abandonou pouco tempo depois por falta de interesse em todas as demais disciplinas que não o desenho, coisa que lhe custou uma tareia do seu pai.
Pouco tempo depois inscreve-se na Academinas Pitman, onde estuda desenho por dois anos. Porém a sua curiosidade de aprendiz não se ficou só por aí, pois comprou vários livros do conceituado desenhador norte-americano Andrew Loomis, de quem aprendeu o que lhe faltava para lançar-se a desenhar profissionalmente.

Seu primeiro trabalho pago como desenhador foi na Editorial Fascinación, onde devia completar os quadros que faltassem nas novelas ilustradas que vinham de Itália. Em pouco tempo começa a desenhar para a revista Totem uma história que se intitulava Bill y Boss, cujo argumento era de Oesterheld. Como essa banda desenhada anteriormente era desenhada por outro desenhador chamado García, que tinha ido viver para França, Ernesto decidiu agregar o apelido materno: Seijas.

No ano de 1958 começou a trabalhar para a revista "Bucaneros, el gigante de la historieta", onde desenhava os piratas que davam o título à revista. Muito jovem, com 17 anos já trabalhava rotineiramente com desenhos, tanto que alguns o confundiam com o ajudante de García por vê-lo tão jovem levando os originais de Aventuras do Oeste escritas por Alfredo Grassi. A década de 60 encontrou o jovem porém maduro desenhador, abrangido na escola de Alex Raymond, com traços cada vez mais belos e pouco a pouco mais pessoais.

Colaborou para quase todas as revistas argentinas daquela época: Frontera, Hora Cero, Misterix (onde ilustrou no ano de 1963 León Loco, uma história de adolescentes e barcos com argumento de Oesterheld), Rayo Rojo e por fim Intervalo.
Também por essa altura ilustrou muitíssimas capas da colecção de livros Robin Hood. Na revista Intervalo, presumidamente feminina, da Editorial Columba, Ernesto Garcia Seijas ilustrou "novelas" românticas e séries intermináveis, assim como  adaptações de clássicos do cinema de então.

Em pouco tempo confiam-lhe Helena, personagem de Robin Wood, que permitiria ao artista utilizar toda a gama de recursos de que era capaz: uma mulher belíssima, heróis e vilões sofisticados, um ambiente tão realista que por vezes se dizia que era fotográfico. Indubitavelmente o melhor que publicou a revista Intervalo desde a sua aparição até ao seu encerramento.
Por essa altura começou a colaborar com as Ediciones Record. Foi nessa editora que teve a possibilidade de criar sem limites e dar rédea solta tanto à sua imaginação como aos seus estupendos recursos técnicos: Black Soldier, Skorpio, Mandy Riley, El pequeño Rey, La estirpe de Josh, onde Oswal fazia o lápis e Ernesto os finalizava com tinta, Los aventureros e El hombre de Richmond. Começa também a desenhar novamente para Columba, neste caso para a revista Nippur, o personagem Kevin.
No ano de 1987 sai a primeira tira ilustrada para o diário Clarin: El Negro Blanco. Desta série surge um personagem que conquista vários corações: Flopi.

Porém a Arte de Garcia Seijas não termina nas fronteiras latino-americanas. Seus desenhos podem ser apreciados em países como Espanha, Estados Unidos da América e Itália, países onde se publicaram e se publicam historietas como El Negro Blanco, Mandy Riley, Príncipe de las arenas, Bambi y Lenny, Radzel.
O Mestre argentino também fez diversas capas para edições encadernadas de personagens como Wonder Woman, Tarzan, Fantomas, Lone Rager, etc, para a Acme Agency, que distribuía os comics da Editorial Navarro.
Entrado nos anos 90, começa uma historieta de terror, que sai como suplemento da revista Espectador da Editorial Perfil.
Também passa pelo mítico diário La Prensa, onde ilustra o personagem Bardo.

Em 2005, faz a sua estreia na Sergio Bonelli Editore com o número 80 de Julia, embora anteriormente tenha desenhado durante 4 anos, uma história para a série Tex Gigante, história que somente deve ser editada no próximo ano, aquando dos 60 anos do Ranger. Após o seu trabalho em Julia, foi inserido definitivamente no staff de Tex, tendo visto precisamente em Janeiro deste ano de 2007, ser editada a sua primeira (que foi na realidade a segunda, já que a do Tex Gigante continua inédita) história de Tex; "Polizia apache", no Almanacco del West 2007.

No presente está a desenhar a sua terceira história na saga, ele que é referenciado como um especialista em desenhar mulheres bonitas e bem feitas, como é o caso do seu trabalho em Helena, a sua obra mais apreciada na Itália, onde há quem o considere mesmo como um dos melhores desenhadores do mundo.

Para finalizar, diga-se que Seijas, é dos únicos grandes desenhadores da época de Ouro da historieta argentina que ainda tem tido material seu publicado, mesmo que em reedições.

Texto de Jesus Nabor Ferreira e José Carlos Francisco.  
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Fonte:
http://www.garciaseijas.com.ar/cv.php

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03 de Outubro de 2007

Falecimento de Manfred Sommer

Por Mário João Marques

Esta é uma daquelas notícias que ninguém gosta de dar, muito menos nós aqui no blogue. Mas a verdade é que as coisas mais tristes também acontecem e o blogue do Tex acaba de ser informado da morte de Manfred Sommer, ocorrida hoje mesmo, dia 3 de Outubro. A banda desenhada está mais pobre, em particular a espanhola e o mundo texiano.

Manfred Sommer vinha desde há um ano a padecer da doença que acabou por vitimá-lo, e encontrava-se actualmente a desenhar uma nova aventura (escrita por Claudio Nizzi) para Tex, a sua terceira (tendo desenhado cerca de 90 páginas das 110 previstas), depois de "Mercadores de Escravos" (Tex Gigante 12) e "A Última Diligência" (Tex 452 e 453).

Nascido em 1934 na localidade espanhola de San Sebastian, filho de pai alemão e mãe andaluza, começou a desenhar aos catorze anos, sendo sempre um apaixonado pela ilustração e pela pintura.  Foi autor de séries como O Lobo Solitário, Pólux ou Frank Cappa (interessante e carismática personagem publicada em Portugal em finais da década de 80, primeiro na revista “O Mosquito” e mais tarde em álbum pela Meribérica), além de editor de revistas como Metropol e KO. Afastou-se do mundo da banda desenhada para se dedicar à pintura e à ilustração, mas Sergio Bonelli convidou-o para desenhar uma aventura de Tex e esse facto levou-o a reacender o amor pelas histórias aos quadradinhos e a entrada na equipa de desenhadores de Tex.

O seu trabalho era admirado e digno de elogios por parte dos leitores texianos e vale a pena sublinhar o que o blogue publicou sobre o seu derradeiro trabalho "A Última Diligência" (http://texwiller.blog.com/1932621/): "...porque o seu traço está muito mais preciso e seguro, fino e elegante, mas também pela construção do ranger. Tex surge sempre equilibrado e a sua fisionomia acaba por nos remeter, eventualmente, ao Tex de Marcello. Toda a aventura está muito bem desenhada, com um classicismo evidente e uma bela representação dos vários cenários."

Com o desaparecimento de Letteri e agora de Sommer, a juntar ao afastamento também por motivos de saúde de Marcello, os últimos tempos têm sido negativos para os desenhadores texianos, mas uma nova fornada se perfila no horizonte para dar novos horizontes ao ranger...

     

      

       

Entretanto, em homenagem ao Mestre espanhol, eis algumas das pranchas de Manfred Sommer, para o seu primeiro trabalho em Tex:

   

    

   

  

  




     

  

  

  

   

      

 


  

 

 

 

  

 

 

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21 de Setembro de 2007

Miguel Angel Repetto: A Biografia

Miguel Angel Repetto

Miguel Angel REPETTO, natural da pequena cidade de Lujan, província de Buenos Aires, onde nasceu em 17 de Fevereiro de 1929 (tendo portanto 78 anos), é um conceituado desenhador da prestigiosa escola clássica da BD argentina, que sempre deu grandes nomes à nona Arte, e no presente faz parte da equipa de desenhadores de "Tex", série que iniciou em 1993, apesar da sua estreia ter acontecido apenas em 1999, com a história "La montagna del mistero", 110 páginas escritas por Claudio Nizzi, na série Almanacco del west, em que nos apresenta um Tex forte e decidido, representado num traço harmonioso, limpo e detalhado, mostrando uma vez mais que Repetto encontra no Western o terreno ideal para verter todo o seu imenso talento, na linha de Arturo Del Castillo e de José Luís Salinas, desenhador do popular Cisco Kid.

A sua paixão pelo desenho, herdada em jovem idade da sua mãe, desenhadora amadora, transforma-se em profissão quando Ramón Columba, um dos mais prestigiosos caricaturistas e também o maior editor de banda desenhada da Argentina, o elege como vencedor de um concurso.
Após um tirocínio de mais de cinco anos, na maior parte do tempo como autodidacta, o artista argentino inicia um longo período de colaboração com a editora Columba, onde coloca a sua arte ao serviço de revistas como "Intervalo", "D’Artagnan", "El Tony" e "Fantasía", e ao lado de nomes consagrados da BD mundial, tais como Harold Foster, Alex Raymond, Alberto Breccia, Hugo Pratt, José Luis Salinas e Arturo del Castillo, só para citar alguns.
 
Em seguida, Repetto colabora também na revista "Hora Cero", da editora Frontera, ilustrando roteiros de um nome sagrado da BD argentina, Héctor Germán Oesterheld, sequestrado (e provavelmente assassinado) por militares argentinos durante o período da ditadura.
Também publicou na Dante Quinterno Editora o titulo "Patoruzito", e ainda na editora Bruguera. Para esta editora fez uma série chamada "Frontier Bill", editada também, mais tarde, pela editora Columba e que acabou sendo exportada para o Chile e a Espanha.
 
Já casado (com Maria Celina, que desposou aos 29 anos e de quem teve um casal de filhos, Alejandra - argumentista e poeta - e Miguel, que lhe deram 5 netos), iniciou os seus estudos universitários de Direito na Universidad de Salvador em Buenos Aires, onde se graduou como Notário em 1975. Ainda começou essa profissão, embora sem nunca abandonar a banda desenhada, tanto assim que quando teve de optar, por razões de tempo, escolheu a nona Arte, que sempre foi a sua verdadeira paixão.

Estuda depois por um período, sob a alçada de Alberto Breccia, na Escuela Panamericana, e colabora em seguida com a editora Record, publicando o western "El Cobra", iniciado por Arturo del Castillo, na revista argentina "Skorpio", onde desenhou mais de 70 episódios do personagem, que foram divulgados em diversos países, e trabalhando na série "Jet Power", uma história de aviação de guerra, para a qual escreveu também os argumentos.
Nesse período, cria algumas séries western, como "Diego", "Mapache", "Conrack" e "Dan Flynn". 
 
Miguel Angel Repetto também desenvolveu uma intensa actividade em importantes editoras americanas e inglesas, assim como italianas: D.C. Thompson & Co. (uma grande editora localizada na Escócia, que também contratou o português Vítor Péon),  Charlton Press Inc (EUA), Fleetway Publications Ltd (Inglaterra), Piero Dami Editore S.p.A (Itália), Editrici Lancio (Itália), Eura S.p.A (Itália) e King Features Syndícate (EUA).
Para a americana King Features Syndicate, entre 1985-87, desenhou a série "Green Force Five", com argumento de outro argentino, Alfredo J. Grassi, uma série ambientalista constituída por uma equipa de cinco pessoas e um leopardo - projecto eleito vencedor entre mais de dois mil outros a concurso - e que Repetto realizou em tiras diárias para os jornais norte-americanos, tendo sido também editada em vários países do mundo. Entre 1986-96, realizou cerca de 30 episódios de "Secret Agent Corrigan", nova versão das aventuras do Agente Secreto X-9, personagem nascido do talento narrativo de Dashiell Hammett e gráfico de Alex Raymond, em formato de tiras, episódios esses que foram publicados na Escandinávia (Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia) sob a forma de comic books; e também Ainda para a King Features Syndicate fez diversas amostras para um teste de Príncipe Valente, que acabaram por se "perder" ingloriamente nos escritórios da KFS.
 
E mesmo já colaborando com a italiana Sergio Bonelli Editore, o mestre argentino não abandonou o mercado americano, como comprova o seu trabalho reeditado em 2001 na revista "Star Western" nº 4, da ACG Comics, publicada em 2001, uma aventura curta, apenas com oito páginas, contrastando com as aventuras de centenas de páginas, que costuma realizar actualmente para o Tex.

Em Portugal, o seu trabalho mais conhecido, é justamente Tex, personagem para o qual desenhou as seguintes edições (referência italiana):
Tex inédito: 504, 505, 526, 527, 544 e 545;
Almanacco del West 1999 e Almanacco del West 2002;
Maxi Tex 2000, Maxi Tex 2002 e Maxi Tex 2005.

Na nossa língua, podemos apreciar a sua arte nas seguintes edições da brasileira Mythos Editora:
Tex inédito 432, 433, 450 e 451; Almanaque Tex 4, 13 e 23; Tex Anual 3, 5 e 8.

Texto de José Carlos Francisco com a colaboração de Jesus Nabor Ferreira. 
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09 de Julho de 2007

Alfonso Font: Um desenhador que fez escola!

De todos os desenhadores espanhóis aos quais Sergio Bonelli convenceu para que trabalhassem com a personagem criada pelo seu pai, Alfonso Font constituiu o caso mais inesperado; antes de mais porque não se trata de um autor com que qualquer apreciador de banda desenhada o identifique como desenhador de cowboys e pela tendência que sempre demonstrou de não trabalhar com guiões alheios.
Contudo, e de certa maneira, Font já era uma espécie de presença habitual em Tex, ante a manifesta influência que do autor catalão mostravam alguns dos desenhadores espanhóis que o precederam a laborar em Tex.

Alfonso Font Carreras nasce em Barcelona em 1946. Como a maior parte dos desenhadores da sua geração, e das anteriores, iniciou-se no mundo da banda desenhada muito jovem, e com 16 anos já trabalhava para a editora Toray, onde teve um dos seus poucos contactos com o género western anteriores ao seu trabalho em Tex, mediante a sua colaboração em alguns episódios da série Sioux. Durante a década de 70 trabalha para o mercado francês, sendo Los Robinsones de la Tierra, obra escrita por Roger Lecrueux, o seu trabalho mais difundido. Pouco depois, e já para o mercado autóctone, realiza as séries Géminis, escrita por Carlos Echeverría, e Tequila Bang, escrita por Victor Mora, esta última, obra coral realizada juntamente com Carlos Giménez e Adolfo Usero.

A partir de 1980 Font começa a escrever os seus próprios argumentos, numa sucessão de obras com cenários de ficção científica, nas quais alterna o tom dramático e a comédia: séries como Cuentos de un futuro imperfecto, El prisionero de las estrellas e Clarke & Kubrick com as quais se descobre um grande narrador para o grande público – a sua constatada qualidade como desenhador era já sobejamente conhecida por essa altura.
Alfonso abandona então o género da ficção científica para centrar-se em histórias mais contemporâneas, criando assim em 1985 Jann Polynesia, personagem a qual mais tarde rebaptizará como Rohner e é com ele que narra uma série de aventuras nos mares do Sul com um sabor deliberadamente próximo das novelas e contos de Robert Louis Stevenson e Jack London. Tal como nas narrações de ambiente fantástico, em que os roteiros assinados por Font possuíam uma forte componente de crítica social, as andanças de Rohner caracterizam-se também por conter essa mesma mensagem, por baixo do seu envoltório de aventura ou comédia.

Os géneros negro e histórico foram os que ocuparam os últimos trabalhos de Alfonso Font anteriores à sua chegada a Tex: Taxi era uma série sobre uma intrépida jornalista de investigação, enquanto que Privado era o livro de cabeceira que englobava várias histórias curtas cujo nexo de união era que nelas intervinham detectives privados e por sua vez Negras Tormentas era uma narração policial histórica, escrita por Juan Antonio de Blas – junto aos dois tomos de Alicia e os Argonautas, escritos por Patrick Cothias, uma das poucas ocasiões em que trabalhou com textos de outrem nos últimos vinte e cinco anos – e Bri D’Alban uma série desenvolvida na época medieval em território catalão. Todas elas confirmam uma sucessão de obras que nos serve para testemunhar que estamos, não só ante um excepcional narrador, mas também diante de um desenhador que fez escola, cujo nome aparece recorrentemente nas conversas de autores estrangeiros sobre a banda desenhada espanhola.

Alfonso Font começa a sua carreira em Tex com o Texone nº 12 publicado na Itália em Julho de 1998, única destas edições especiais até ao momento que não foi escrito por Claudio Nizzi, mas sim por Mauro Boselli; de facto esta excepção, acabou convertendo-se em regra no caso de Alfonso já que Boselli é o argumentista de todo o seu trabalho em Tex, inclusive na história que está a desenhar no presente. Font é além disso um caso peculiar ao ser um dos dois únicos desenhadores que trabalhou em todas as séries que Tex possui: Texone, Almanacco del West, Maxi-Tex e Tex inedito.

Gli Assassinni, título da história do seu Texone, apresenta-nos Tex e Carson atrás dos passos de uma organização secreta de assassinos, com a qual, Kit e Jack Tigre já tinham tido a má sorte de encontrá-la acidentalmente, com dolorosas consequências para ambos. A par dos protagonistas que iniciam a sua investigação para ajustar contas com os membros da dita organização, a história apresenta-nos um jovem chamado Mitch que também tem algumas contas a saldar com o mencionado grupo. Tal como sucedeu com os argumentos de Claudio Nizzi para Blasco ou De la Fuente, a história que Boselli escreveu para Font neste Texone correspondeu às características mais essenciais dos seus trabalhos: introduziu uma personagem como Mitch que goza de um protagonismo em alguns momentos equiparável ao do titular da série.

Esses mesmos parâmetros os encontramos também na sua história do Almanacco del West: La legge del deserto desenrola-se em algum lugar da fronteira entre o México e o Arizona, numa zona desértica na qual se encontra fugindo um grupo de bandidos que levavam um rapaz de curta idade como refém. Tex toma parte, junto do pai do jovem, na patrulha que perseguia o bando. Aparte das inclemências climatológicas a situação complica-se por acção de outro bando de bandidos que pretendem pôr em prática o velho ditado de ladrão que rouba ladrão… e assim ficar com o botim que transportam os primeiros. O argumento centra-se na relação entre um dos bandidos e o rapaz que levam como refém; de modo que o primeiro não hesitará em arriscar a sua vida para proteger o adolescente, ainda que não renuncie ao dinheiro por ele.

320 páginas abarca Nei territori del Nordovest, o Maxi-Tex ilustrado por Alfonso Font. A história arranca quando um cadáver aparece no interior de uma canoa, trazendo uma carta para Jim Brandon, coronel da Polícia Montada do Canadá. O coronel, depois de conhecer os factos, desaparecerá na fronteira entre o seu país e o Alasca, sem dar explicações e sem deixar rastos. Tex e Carson deverão deslocar-se em pleno Inverno ao norte para investigar o que se terá passado com o seu amigo, a quem declaram desertor e deverão enfrentar uma infinidade de perigos naturais e não só. O certo é que o volume constitui um dos trabalhos mais impressionantes dos surgidos nas revistas de Tex nos últimos anos. O argumento escrito por Boselli representa todo um exercício de ritmo, exercício que Font plasma em imagens de forma magistral, com sequências de acção que mostram um portento de solvência narrativa. Algo muito similar ao que Alfonso já havia levado a cabo, por exemplo, no seu Texone, que possui nas suas páginas finais uma sequência de um tiroteio ocorrido no interior de uma mansão cujo brilhantismo não se pode descrever em palavras. 

Após estas três edições especiais, Alfonso Font entrou para o staff oficial de desenhadores de Tex e na série normal já viu serem publicadas três histórias: I lupi rossi, Colorado Belle e Morte nella nebbia.

O que mais chama a atenção na globalidade do trabalho de Font em Tex, radica que ele elabora um tratamento gráfico distinto para cada uma das suas histórias. O seu Texone o realiza utilizando profusamente tramas mecânicas com um resultado esteticamente muito atractivo, enquanto que para a sua segunda história – que como já vimos se desenrola num deserto – abandona as tramas e realiza um desenho com muita claridade, com poucas sombras, linhas e grandes manchas de branco, o que facilita a ambientação do cenário da história e finalmente, no seu Maxi-Tex o resolve perante grandes manchas de tinta para os sombreados, criando uns negros sólidos e contundentes que lhe dão um estilo muito pessoal à obra e que ademais contrastam poderosamente com as manchas de branco das sequências que se desenrolam na neve.
Tudo isto nos leva ao que poderíamos considerar como a contribuição essencial de Font à série de Tex e que é algo muito difícil de definir mas que poderíamos chamar de arte. Porque o que Alfonso Font contribui não é tão só um trabalho de uma qualidade lógica num autor que durante muitos anos foi uma das referências do meio. Não vamos realizar vaticínios porém estamos seguros que a verdadeira repercussão do trabalho de Alfonso Font em Tex está todavia por chegar através da influência deste nos autores que se seguirão na realização da série. 

Texto de José Carlos Francisco, baseado no livro-catálogo "Tex Habla Español".

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08 de Julho de 2007

Antonio Segura: Tex, 60 anos a cavalgar

Fui convidado a redigir um texto, dedicado exclusivamente à personagem de banda desenhada Tex Willer e por extensão render homenagem aos seus criadores: Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini, e aos desenhadores e argumentistas que seguindo a sua criação, perpetuaram através dos tempos a continuação das suas novas aventuras.

Com Tex, aconteceu a curiosa circunstância de os seus criadores, ainda em vida – Galleppini faleceu em Maio de 1994 e G. L. Bonelli em Janeiro de 2001 – confiarem plenamente nos argumentistas e desenhadores da Sergio Bonelli Editore para que continuassem sem perda alguma de qualidade a saga de Tex, isto porque sabiam que a sua personagem tinha tanta força, havia acumulado um “curriculum vitae” tão bem definido, com tanta garra e personalidade própria, que, podia seguir cavalgando por muito tempo pelo universo de papel dos “fumetti” nas mãos de outros criadores, desde que estes se limitassem, simplesmente, a respeitar a sua personalidade.

Circunstância que não se cumpriu por exemplo com outra personagem tão mítica como O Príncipe Valente, que uma vez falecido o seu criador Harold Foster, após um breve intento de continuar as suas aventuras pelas mãos de um novo desenhador tão creditado como John Cullen Murphy, Valente, desmotivado, decide morrer e encontrar-se com seu pai, encerrando assim o seu ciclo vital. Tex é feito de outra matéria e demonstra-o cavalgando durante quase 60 anos.

Como comentei antes, o lógico era centrar-me por inteiro em contar o que conheço de Tex e de seus autores, mas detesto as linhas rectas, sua monotonia e amo sem dúvida as curvas, tão imprevisíveis e tão aventureiras. Excita-me não saber o que me espera por detrás de cada curva num caminho e sem embargo, acelerar o motor para descobri-lo.
E de curvas, de muitas curvas feitas com histórias pessoais vou falar-lhes. De como vi em Tex um convite a degustar a aventura mais pura, e como me enriqueci como argumentista ao escrever as suas aventuras de 350 páginas.

Em 1993, viajo a Milão acompanhado de José Ortiz, que já estava trabalhando para a Sergio Bonelli Editore na realização de uma história de Tex de 240 páginas sobre um roteiro de Claudio Nizzi. Numa sala da editora reunimo-nos Sergio Bonelli, Decio Canzio – Director geral - , Maria Baitelli – Redactora chefe – e nós os dois espanhóis.
Francamente naquela época estava muito preocupado. Pressentia – como assim aconteceu – que José Ortiz seria arrolado como desenhador fixo da editora e essa circunstância romperia a equipa que Ortiz e eu havíamos formado desde os anos 80. Por isso, em dado momento da entrevista ofereço-me para escrever argumentos de Tex.

Bonelli e Canzio – os dois foram argumentistas de Tex – não puderam ocultar um sorriso. Foram centenas os profissionais que através dos anos, lhes fizeram a mesma proposta. Bonelli, com a humanidade que o caracteriza, fez-me notar que a minha obra era conhecida e respeitada na Itália, mas que era quase impossível que eu pudesse escrever um argumento de Tex que eles mesmo não tivessem realizado e o mais importante, Tex, tinha uma personalidade tão definida, um passado tão denso, uma biografia de aventuras tão extensa que era quase impossível que um desconhecedor da sua saga, em resumo que um profano pudesse retractá-lo com justiça.

Ao cabo de uns meses começava a escrever o meu primeiro roteiro de Tex, mas isto não é o importante, não é o que quero realçar. O que quero realçar é o GRANDE RESPEITO que Bonelli e Canzio me demonstraram com as suas palavras com a personagem Tex. O seu AMOR por um ente de ficção que para eles era quase, um SER VIVO, digno da maior consideração.

Para mim, a experiência de escrever um roteiro de Tex de 350 páginas foi algo incrível. Obrigado pelo mesquinho sistema de produção dos editores espanhóis que nos vendiam como “taloneros” aos editores de revistas europeias – a narrar histórias de 8/10 páginas que eram concisos telegramas, magníficas histórias sacrificadas à criação, ideias apenas esboçadas, desperdiçadas para sempre; desfrutei da minha primeira experiência de liberdade ao romper o esquema maldito das 8/10 páginas escrevendo o meu primeiro roteiro de Eva Medusa, de 48 páginas, que me permitiu, sobretudo, desenvolver a personalidade das personagens secundárias e lograr narrar uma história mais redonda e complexa. Com Eva, havia passado do telegrama ao conto curto. Na minha primeira história de Tex, de 350 páginas, descobri o CÉU dos argumentistas – a NOVELA GRANDE E DENSA – e a razão primordial pela qual Tex se perpetuou como um ÊXITO através de tantos anos.

Suas histórias de 110 páginas, de 330 páginas, permitem desenrolar uma história perfeita em todos os sentidos, cheia de pequenos detalhes que fazem credível a narração. Suas personagens – independentemente do mítico Tex e seu amigo Carson – ainda que seu papel seja secundário, anedótico, humanizam-se, fazem-se credíveis e engrandecem a historia porque têm espaço para desenvolver as suas personalidades, encarnam o BEM ou o MAL. Poder narrar, por exemplo, uma sequência onde chove torrencialmente que ocupe 8/10 páginas é/era impensável para formatos como os das revistas espanholas dos anos 80/90. Em 8/10 páginas vias-te obrigado a contar toda uma história e por isso o “comic” espanhol está em pleno declive enquanto que Tex segue cavalgando em direcção ao horizonte.

Goscinny e Uderzo, trabalhando como equipe durante muitos anos, haviam tentado todos os géneros e estilos possíveis – desde o humor mais desatado, ao realismo mais estrito – sem lograr encontrar a personagem ou as personagens que significariam o seu êxito e a consequente consagração. Seus trabalhos eram realmente bons mas não conseguiam romper a misteriosa barreira do êxito. Num momento feliz criam Asterix e Obelix e alcançam o milagre há tanto tempo esperado. Suas novas personagens, tão vivas, tão originais alcançam a aceitação maioritária do público, primeiro em França e de seguida no resto da Europa. A partir desse momento Goscinny e Uderzo centram-se na escritura de novas aventuras de Asterix, sem embarcar em novos projectos, porque tinham encontrado, por fim, a sua mina de ouro, o FILHO DESEJADO há tanto tempo esperado.

Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini chegam à mesma conclusão depois de lançar no mercado italiano a personagem de Tex. E embarcam na gratificante tarefa de dotar a sua personagem de melhores e maiores registos de interpretação. Passo a passo, vão construindo um grande símbolo.

Também existem os FILHOS NÃO DESEJADOS, que sendo igualmente minas de ouro, economicamente falando, representado o êxito e a popularidade, são rechaçados, marginalizados e depreciados pelo seu próprio criador. Sir Arthur Conan Doyle, logra um êxito formidável com a sua personagem Sherlock Holmes, mas detesta-o , odeia-o, é um FILHO NÃO DESEJADO, que o enriqueceu, mas pelo qual não sente o menor apreço. Conan Doyle, criou uma personagem tão inteligente, tão complexa, que cada uma das histórias que escreve para ele tem que ser como uma elaborada e difícil partida de xadrez que o deixa esgotado.
O sonho de Conan Doyle é ser um novo Walter Scott da literatura anglo-saxónica, sentar-se no seu trono vazio. Por ele, em determinado momento, decide assassinar a sangue frio Sherlock Holmes, cavar a sua tumba literária e enterrá-lo para sempre (mas o tempo trata de redimi-lo, fazendo-o arrepender-se), ao escrever um maravilhoso enredo de aventuras com o título “O Mundo Perdido”, com a esperança que os leitores acabem esquecendo da existência de Sherlock Holmes. Caso perdido. A opinião pública através de centenas de cartas dirigidas a jornais reclama novos episódios do genial investigador, não aceitam a sua morte. A Câmara dos Comuns e a dos Lordes, pressionam o escritor e a própria rainha Victoria recrimina Conan Doyle numa carta pessoal por ter matado tão injustamente a sua genial personagem. Sir Conan Doyle dá-se por vencido, ressuscita o seu herói e continua escrevendo suas aventuras, odiando-o mais do que nunca. Se alguém viajar até Londres, poderá visitar, se o desejar, a casa estúdio, perfeitamente mobilada, decorada com todos os pertences privados de Sherlock Holmes descritas nas suas histórias, localizada no número 212 de Baker Street. Um verdadeiro MUSEU dedicado a uma personagem de ficção. O FILHO NÃO DESEJADO, ganhou a partida ao seu criador perpetuando-se no tempo, convertendo-se numa PERSONAGEM REAL, independentemente do seu próprio criador. Sherlock Holmes dança gozando em cima da sepultura do seu criador.

Pelo contrário Bonelli e Galleppini amaram intensamente a sua personagem, fundiram-se com ele no seu mundo de ficção de tal modo, que recordo uma foto de Galleppini no seu estúdio de trabalho, com as paredes decoradas com espingardas e pistolas do velho oeste com as armas que fazia empunhar nas suas aventuras o seu herói de papel.

Faço-lhes uma pergunta e respondo-a. Como é possível que Tex Willer, cuja primeira história se publicou em Setembro de 1948 tenha conseguido sobreviver até à actualidade e tenha, ademais assegurado a sua sobrevivência no futuro?
A minha resposta é que a personagem Tex foi criada pelos seus autores com uma grande carga de REALISMO e HUMANIDADE e essa identificação plena e sincera de Bonelli e Galleppini com o seu herói de ficção transcendeu aos seus leitores que perceberam de imediato que Tex era uma personagem viva, credível, dotada de uma forte e definida personalidade humana, em contraposição a tantas personagens literárias e de histórias em quadradinhos que nascem mortas porque os seus criadores não souberam insuflá-las com o alento da vida, a realidade de existir com as suas tristezas e alegrias, saber fazê-las rir e chorar, perder a sua esposa índia e sobreviver, como foi o caso de TEX.

Continuo a falar do fenómeno de personalidade real que representa Tex através de um episódio. Quando Sergio Bonelli aprovou o meu primeiro argumento de Tex, com o título Os Caçadores de Fósseis, pediu-me que antes de começar a minha escrita lesse as notas que ele me enviara desde a sua redacção. Essas notas continham uma breve e intensa biografia de Tex Willer e Kit Carson, acompanhadas de uma larga relação – sete páginas – das suas expressões coloquiais mais usuais: das piadas que compartilhavam - Tex e Carson -; dos insultos que dedicavam aos seus adversários; de suas exclamações de alarme e fúria; do modo como pronunciavam as suas preferências culinárias. Resumo algumas das suas frases de seguida, sem traduzi-las, para que possam saborear o seu encanto em italiano:

EXEMPLO DA LINGUAGEM DE KIT CARSON: “Funerali in vista”. “Mamma che brutto”. “Corna di mille bufali”. “Sento puzza di zolfo”. “Peste”. “Ehi pellegrini”. “Sta per entrare nel concerto il mio clarino”. “Signone onnipotente”. “Temporale in vista”. “Mente como un politicante”. “Messa funebre per violini calibre 45”. “Figli di Matusalemme”.

EXEMPLO DA LINGUAGEM DE TEX WILLER: “Mi venga un colpo”. “Non toccare il ferro da tiro”. “Cucciolo di bastardo”. “Señor sicario”. “Mio bueno Carson”. “Mister triponne”. “Pistoleri da strapazzo”. “Mangiatore de tortillas”. “Il cielo li fulmini”. “Pidocchiosi figli di cani”. “Manica di fusgastri”. “Peste e corna”.

SUAS PREFERÊNCIAS GASTRONÓMICAS: “Volete mangiare? Sí, Bistecche alte tre dita e birra, e una montagna di patatine fritte, seguita da una torta di mele” – Carson -. “Due birre gigantesche e gelate”. “Mezza pinta di caffé nero e forte”. “Mi mangerei un paio di bistecche alte mezzo metro”.

Depois de ler as biografias e as notas anexadas, compreendi, fascinado, que efectivamente, enfrentava um verdadeiro desafio. Não podia contar uma história à minha imagem e semelhança, tinha que contar uma história feita à medida de Tex e Carson, respeitando ao limite as personalidades que se haviam criado através de 50 anos de existência. Deveria escrever um argumento em que o próprio Tex aceitasse interpretar. Porque Tex poderia dizer: Não me reconheço nesta história. Não sou eu em nenhumas circunstâncias.

Para reforçar esta teoria conto um novo episódio. Passado uns meses, quando já tinha escrito 100 páginas do roteiro e José Ortiz as havia desenhado – a história completa era de 350 páginas – tive a oportunidade de falar de novo com Sergio Bonelli no Salón del Cómic de Barcelona. Perguntei-lhe se estava a gostar da maneira como eu estava a realizar o roteiro. Sergio pensou e respondeu-me que até ao momento não havia nenhum problema mas, advertia-me, que se os especialistas de Tex na editora decidissem que o meu tratamento narrativo não fosse o correcto, se viesse a trair ou a desvirtuar a personalidade de Tex, paralisava-se o álbum – e já tinha pago por ele, pelo meu trabalho e pelo do José Ortiz uma cifra realmente importante -, que não se importava de jogar o projecto para o cesto dos papeis se considerasse que o meu relato sobre Tex não fosse correcto. Incrível mas verdadeiro: Preferia perder milhões de liras do que trair Tex fazendo-o protagonizar uma aventura incorrecta. Amor de PAI, amor à personagem.

O meu avô materno era um apaixonado da cultura inglesa, sentia verdadeira paixão pelos Anglo-saxónicos – assim os chamava – e por isso, durante a Segunda Guerra Mundial sofreu profundamente com as batalhas dos seus amigos de alma. Contaram-me que ele comprou um grande mapa-múndi e ia assinalando nele, com bandeirinhas de diferentes cores as vitórias e as derrotas das forças aliadas. Eu herdei a sua paixão, mas centrada nas viagens de personagens históricos. Eu comprava, por exemplo, o Diário de navegação escrito pelo Capitão Cook e ia seguindo a sua viagem dia a dia através do Pacífico, assinalando cada um dos seus descobrimentos no meu próprio mapa-múndi, sofrendo com ele quando o seu navio, o Endeavour suportava uma brutal tempestade, desfrutando quando descreve, muito moralmente, as belas nativas dos Mares do Sul.

Igual experiência realizei com Alejandro Magno, Marco Polo, Juan Sebastian Elcano, Júlio Cesar e muitos mais. E o curioso era, que quando terminava a minha aventura de acompanhamento, era consciente de que conhecia muito melhor, mais intimamente a personagem histórica, que se havia convertido para mim em uma personagem REAL. Se agora um maduro e sensato historiador descobrisse e demonstrasse que Marco Polo nunca existiu na realidade, que foi uma personagem literária saída da imaginação de um contador de histórias, não me importaria, porque insisto, para mim Marco Polo é REAL.

Por isso pergunto se algum dos milhares de leitores que têm nas suas bibliotecas todos os exemplares que contam as aventuras de TEX, escritos durante quase 60 anos, compraram um mapa dos Estados Unidos da América, Canadá, México e tendo nas suas mãos a primeira revista de Tex, cravou a sua primeira bandeirinha, acompanhada de um breve resumo da sua aventura e uma lista com os nomes das personagens secundárias: bons ou vilãos, que o acompanharam. Quando este hipotético leitor terminar de ler o último número estaria contemplando um mapa quase coberto de bandeirinhas, pois Tex viajou de ponta a ponta da América do Norte. Se contabilizarmos o número de personagens secundárias que Tex conheceu nas suas viagens e aventuras, elas superariam as quinhentos mil... setecentas mil?
Se se decidisse a escrever um grande volume biográfico sobre Tex, sobre as centenas de eventos e experiências de que foi protagonista, o resultado seria descobrir que Tex É UM PERSONAGEM VIVO, porque viver, para mim, significa acumular experiências e Tex no seu universo de papel cumpriu exemplarmente, com essa tarefa.
Agora ofereço-lhes um desafio. Comprem toda a colecção de Tex – TODA UMA VIDA DEDICADA À AVENTURA -, um mapa-múndi, bandeirinhas e comecem a desfrutar.

Antonio Segura

Texto traduzido e adaptado por José Carlos Francisco, baseado no livro-catálogo "Tex Habla Español" da Fundacion Municipal de Cultura - Educacion y Universidad Popular (Espanha). 146 páginas a preto e branco, com uma tiragem de mil exemplares.

         

              

      

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27 de Junho de 2007

Orestes Suárez Lemus: Um cubano em Tex!

Apesar da nova vaga de desenhadores de Tex Willer, pelo que sabemos, Sergio Bonelli não tem a ambição de passar à história como “descobridor de talentos” mas no campo da banda desenhada, de facto, a intuição da capacidade gráfica de um jovem desenhador e o metódico e paciente treino de quem deseja submeter-se ao potencial artista, fazem parte do quotidiano de cada editor de banda desenhada. No caso, afinal, de Orestes Suárez, futura assinatura de um próximo Tex Gigante, os méritos de Sergio Bonelli são ainda menores.

O novo desenhador já estava habilitado há vários anos, com todas as qualidades necessárias para cuidar das páginas de qualquer publicação, mas impossibilitado de demonstrar a sua capacidade gráfica porque na ilha em que vivia não era fácil encontrar um editor, nem uma prancha de desenho, nem um pincel e muito menos tinta da china!

Naquela ilha, Cuba, Sergio Bonelli esteve no longínquo ano de 1994, para visitar um “festival” internacional de banda desenhada sem igual no mundo, já que o festival decorria num bar, cujas paredes, entre uma propaganda de rum e uma outra de cigarros, acolhiam algumas fotocópias de bandas desenhadas mexicanas, italianas e francesas.

Apesar da absoluta pobreza da organização, o festival cubano, segundo exprimiu Sergio Bonelli, demonstrou ser uma extraordinária ocasião para conhecer uma porção de pessoas cordiais, ricas de orgulho e vontade de viver. Foi aí também, que Sergio Bonelli conheceu Orestes Suárez Lemus, nascido em Pinar del Rio (Cuba), em 14 de Março de 1950.

A sua estreia no mundo da banda desenhada aconteceu em 1977 com as personagens Inés, Aldo e Beto, criadas por uma publicação da Organização Nacional de Pioneros José Marti, em cujas páginas publicou também inúmeras ilustrações. Diplomado pela Escuela Nacional de Diseño Gráfico, em 1983, colabora com a revista da Editora Abril, Zunzún e com outras séries da mesma editora argentina, como, Pionero e El Guia.

Os seus trabalhos mais importantes foram publicados pela editora Pablo de la Torriente: Vitralitos, Camila e alguns episódios da série histórico-geográfica intitulada precisamente de Pablo de la Torriente, jornalista cubano/porto-riquenho morto durante a Guerra Civil espanhola. Ainda o tema da guerra (mas desta vez tratou-se do conflito hispano-cubano para a independência da ilha das Caraíbas) retorna na produção de Suárez que colaborou graficamente também em algumas curtas-metragens de desenhos animados inspirados nesse argumento.

O seu ingresso oficial no mundo bonelliano aconteceu em 1994, quando o próprio Sergio Bonelli o recruta para a esquadra de artistas que realizava as aventuras de Mister No. A propósito do seu actual empenho na equipa Texiana, Orestes disse ao blogue do Tex: “Aqueles anos passados nas páginas de Mister No foram anos de duro labor e ao mesmo tempo de grande desenvolvimento profissional e pessoal. Jerry Drake deu-me muito trabalho, fosse pelo ambiente em que decorriam as suas histórias, fosse pelo meu estilo de trabalho. Faltando-me a documentação, era de enlouquecer quando devia representá-lo nas ruas de Nova York ou entre as tribos índias da Amazónia. Tex Willer mudou a minha perspectiva: de um homem jovem e com o espírito de um aventureiro, passei a um profissional da justiça no duro e hostil Oeste norte-americano. Neste sentido, Tex tem um carácter muito mais forte, persuasivo, reflexivo e é uma personagem muito mais carismática, mais madura…”.  

 Texto de José Carlos Francisco, baseado na rubrica "Caro Tex...", de Sergio Bonelli, inserida em Tex Nuova Ristampa nº 184 de 30 de Maio de 2007.  

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22 de Maio de 2007

Franco Devescovi: Em Tex, mas eternamente enamorado por Martin Mystère!

Caros amigos,
Continuando o elenco dos novos futuros ilustradores do nosso Tex, temos uma certa relutância em definir como “novo” um autor que já faz parte da história da banda desenhada italiana nos últimos quarenta anos.

Por um estranho acaso, na mais completa revista italiana não profissional que se ocupa da banda desenhada, Ink, o director editorial Paolo Telloli dedica-lhe uma longa e documentada entrevista que começa precisamente assim: “Presente na banda desenhada desde 1970, Franco Devescovi é um dos mais válidos desenhadores italianos. Procurado por diversas editoras italianas, passou por diversos géneros produzindo sempre pranchas de elevada qualidade. Depois de um parêntese de alguns anos dedicados à pintura retornou à banda desenhada e nestes últimos tempos está dedicando-se a Tex…”. Em suma, como agora viram, uma vez mais, para encontrar um ulterior “lápis” para juntar à já aguerrida esteira de prossecutores de Aurelio Galleppini, Sergio Bonelli não precisou atravessar os Alpes ou o Oceano, mas sim estar atento a um gabinete situado ao lado do seu.

Desde há dezassete anos, com efeito, na secretária “habitada” por Alfredo Castelli pousam as páginas de Martin Mystère realizadas por Devescovi. O seu clássico preto & branco tinha despertado a atenção de Sergio Bonelli, desde os tempos em que havia visto os seus primeiros trabalhos realizados para o “Intrepido”, um semanário publicado pela editora Universo, que, por decénios, constituiu o chefe de fila do mercado editorial italiano no quesito da banda desenhada. Atento e paciente como era no início da sua vida profissional, Sergio Bonelli, seguiu com curiosidade a passagem de Devescovi a um outro baluarte histórico do mercado editorial italiano, como era o Corriere dei Ragazzi que naquela época, podia gabar-se de apresentar nas suas páginas os maiores desenhadores italianos, de Dino Battaglia a Mario Uggeri, de Sergio Toppi a Ferdinando Tacconi, de Aldo Di Gennaro a Hugo Pratt.

E seguiu também em 1976, quando Devescovi (de quem vêm no início deste texto um auto-retrato) retornou à editora Universo, desenhando por anos personagens como Billy Bis, Cristal, Comissário Norton e Black Rider. Dado que as vias dos quadradinhos não são infinitas – e antes ou depois todos os profissionais desta área acabam por se encontrar um dia –  em 1990 apresentou-se a ocasião de Sergio Bonelli convidá-lo para fazer parte do grupo de autores da Via Buonarroti.

Uma trintena de álbuns de Martin Mystère, três de Zagor e um de Mister No representam uma espécie de “exame” antes que decidissem, de comum acordo, de enfrentar a empenhada prova constituída pelo mundo do Tex (a este propósito, mostramos aqui ao lado uma pequena prova do seu trabalho). Por ser um veterano profissional, Franco Devescovi levou muito a sério o novo desafio. Tanto é verdade, que sempre roubando aos colegas da Ink algumas declarações da entrevista já citada, disse: “Por agora devo pensar somente em Tex. Devo empenhar-me completamente e tornar o meu traço mais rápido. As histórias western sempre me deram muito prazer, mas depois de tantos anos desenhando ambientações modernas, acabei tornando-me lento, estou um pouco enferrujado. Devo encontrar a mão e a rapidez dos tempos de Black Rider”.

Estas palavras demonstram o grande profissionalismo do desenhador triestino, que esperamos, se afeiçoe a Tex Willer, como já sucedeu no passado com o herói de Castelli, no confronto dos quais deixou também à revista Ink um verdadeiro e próprio tributo de amor: “Amei sinceramente o Bom e Velho tio Marty e o amo ainda. Creio, ou melhor, foi a única personagem, entre tantas em que eu meti as mãos, que suscitou em mim um tal sentimento”.

Texto de José Carlos Francisco, baseado na rubrica "Caro Tex...", de Sergio Bonelli, inserida em Tex Nuova Ristampa nº 183 de 15 de Maio de 2007.  

Escrito por Autores do blogue em 00:33:23 | Link permanente | Comments (0) |

27 de Abril de 2007

Alessandro Piccinelli: De desenhador têxtil a Tex

Caros amigos,
Há cerca de um ano, em Maio de 2006 chegava aos quiosques italianos “Huron!”, o primeiro capítulo de uma longa aventura de Zagor que trazia a estreia no mundo bonelliano de Alessandro Piccinelli, um desenhador de traço clássico e dinâmico, particularmente ligado ao Rei de Darkwood. “Zagor foi a primeira banda desenhada “adulta” que eu li, quando tinha nove anos”, revelou Piccinelli numa entrevista publicada há algum tempo no sítio da Sergio Bonelli Editore, na Internet. 

Além disso, para uma pessoa nascida e criada como eu entre os bosques dos vales do lago de Como, era fácil identificar-me com o Espírito da Machadinha, tentando (ainda que com fracos resultados) saltar de uma árvore à outra como ele… Tudo isto para dizer que, como leitor, conhecia muito bem e há muito tempo a personagem, por isso imergir-me na atmosfera zagoriana não foi um problema”.

Satisfeito com o trabalho realizado por Piccinelli naquela ocasião, Sergio Bonelli requereu ao autor para entrar no restrito número de autores de Tex.
Apesar de ainda não sabermos quando será publicado a história em que está actualmente a trabalhar e da qual provém o belo retrato de Águia da Noite que podem ver um pouco mais abaixo, o blogue português do Tex, dedica a rúbrica de hoje a este cartoonista, cujo talento, estamos seguros saberá conquistar-vos e que poderá ser apreciado em antestreia mundial no XVI Salão Internacional de Moura a realizar de 27 de Maio a 3 de Junho, já que Piccinelli é um dos 15 autores da nova vaga de desenhadores de Tex, que terá material exposto em Moura. 

Nascido em 3 de Abril de 1975, Piccinelli conseguiu o diploma de desenhador têxtil tirado no Instituto Técnico “Setificio” da cidade de Como, para depois frequentar a “Scuola del Fumetto” em Milão. Naquele período concluído o serviço militar, começa a colaborar nas vestes de ilustrador para o quotidiano “Il Corriere di Como”. Em 2000 apresenta-se como autor completo na revista “M.A.R.E.”, para a qual realiza as capas dos primeiros dois números e as histórias em banda desenhada dos primeiros sete. A partir de 2001 assina para a Editora Meroni mais de trezentas ilustrações de fim didáctico, e para a Mediacomics o quarto episódio da primeira história de “Armadel”, uma banda desenhada consultável através da Internet.

Seguidamente a esta experiência, realiza para a Sergio Bonelli Editore provas para a série de Zagor e de imediato entra no staff do “Espírito com a Machadinha”, estreando-se com a quádrupla aventura “Huron!” publicada a partir de Maio de 2006.

Indicando os desenhadores dos quais se sente mais influenciado, ao lado de mestres estrangeiros como Alex Raymond, John Buscema, Hermann e Jean Giraud, Piccinelli cita Claudio Villa junto do qual frequentou um período de tirocínio: “Eu tive a felicidade de conhecê-lo e de vê-lo a trabalhar no seu estúdio: lá fez-me compreender o que significa ser um profissional. Um que não se contenta jamais, que com uma paixão infinita procura sempre a melhor solução para descrever cada vinheta, metendo-se ao serviço do leitor. É um grande narrador que une riqueza de particulares, potência do claro-escuro, precisão na anatomia e tantas outras qualidades, sem jamais perder de vista a legibilidade do desenho.”.

Para Piccinelli, o western sempre foi o género preferido, e Águia da Noite “o segundo amor” (o primeiro é Zagor, obviamente), e portanto, diz: “chegar a desenhá-lo é como ter realizado um sonho, mesmo que o impacto inicial tenha sido traumático, porque tinha a sensação de estar a enfrentar um repto titânico, sentindo o peso da responsabilidade… Depois, porém, comecei a sentir-me cada vez mais à vontade. O meu pai era um leitor de Tex desde o primeiro número, e portanto encaminhou-me também à cultura western, seja através da banda desenhada, seja pela via cinematográfica: não sei quantas vezes vi o meu filme preferido, “Ombre rosse”, do mestre John Ford! Mesmo que pareça ter passado de moda, não creio que o western tenha acabado: no fundo, cada vez que sai um filme com actores famosos, como Clint Eastwood ou Kevin Costner, as salas estão sempre cheias. E não creio que nem o advento da Internet possa representar uma ameaça para a banda desenhada em geral. A Rede é um meio interessante que custa pouco e permite um usufruto imediato. Ao fim e ao cabo, porém, a banda desenhada impressa tem todo um outro fascínio, pois permite um contacto físico com os álbuns e estimula o prazer do coleccionismo. Para mim, a banda desenhada estampada é imortal”.  

Texto de José Carlos Francisco, baseado na rubrica "Caro Tex...", de Sergio Bonelli, inserida em Tex Nuova Ristampa nº 181 de 14 de Abril de 2007.  
Escrito por Autores do blogue em 03:40:14 | Link permanente | Comments (0) |

02 de Abril de 2007

Pasquale Del Vecchio: Do sonho à realidade

Continuando a apresentar os novos autores que já se começaram a estrear ou se estrearão num futuro próximo, nas páginas de Tex, vamos deter-nos desta vez no desenhador, cujo auto-retrato podem ver aqui ao lado. O seu nome é Pasquale Del Vecchio, e a primeira história de Águia da Noite ilustrada por si estará nas bancas italianas no próximo Verão, dividida por duas edições: não vos antecipamos o enredo, mas mostramo-vos em estreia, um pouco mais abaixo, como é o rosto do “seu” Tex.

Descobrir o traço gráfico de Del Vecchio, fará seguramente felizes quantos perguntaram a Sergio Bonelli, com uma certa apreensão, que fim teria tido – do ponto de vista profissional, obviamente – este jovem cartoonista que no passado colaborou com a série Napoleone, encerrada em Julho de 2006. E precisamente nas histórias do detective entomologista criado por Carlo Ambrosini, Pasquale Del Vecchio demonstrou ter alcançado plena maturidade profissional.

Nascido em Manfredonia, na província de Foggia, em 17 de Março de 1965 e diplomado em Arquitectura em 1992, dá os primeiros passos no mundo da banda desenhada já depois da maturidade científica, com a publicação de algumas pequenas histórias de banda desenhada na revista “1984”. Colabora, além disso, com “Il Giornalino” e transforma em imagens, para a editora Baldini, as aventuras em África de Walter Bonatti. Em 1991, desenha com Davide Tuffolo a história “Memphis Blue”, com argumento de Daniele Brolli e publicada em “Cyborg”.

Poucos anos depois, entra em contacto com a Sergio Bonelli Editore, que o recruta para o universo policial de Nick Raider, se bem que a primeira prova bonelliana de Del Vecchio tenha sido uma história para “Zona X” permanecido inédito. A sua estreia oficial, portanto, acontece em 1993, quando ilustra um episódio do detective nova-iorquino (“Duri a morire”), com texto do grande Gino D’Antonio.
Em seguida, entra no staff de Napoleone, ainda que dois anos após se empenhará novamente na série “Zona X”, com um episódio assinado por Pier Carpipara, para depois passar, como já dissemos anteriormente, à de Tex.

O western foi sempre uma minha paixão desde quando era criança”, diz Del Vecchio. “Tex era a minha personagem preferida, juntamente a Zagor, à série História do Oeste e a Ken Parker. Posso dizer que era um estudioso do Oeste (gabava-me de conhecer até algumas palavras na língua dos Sioux Lakota), e devorava um após outro, todos os romances que saíam numa colecção de livros de bolso, da editora Longanesi, numa inconfundível série de capa verde; ali encontrei escritores como Louis L’Amour e Gordon D. Shirreffs, dos quais recordo em particular algumas histórias ambientadas num perdido fortim em território Apache.

Quando na época dava na televisão um filme western, para mim era dia de festa nacional! Em torno dos doze, treze anos descobri outro tipo de revistas (por exemplo os super-heróis) e as várias experiências profissionais levaram-me para longe do Selvagem Oeste. Com efeito, o trabalho com Nick Raider foi a minha escola: eu sou um desenhador realista e não me desagradavam as suas aventuras metropolitanas, que me recordavam as atmosferas de telefilmes dos anos setenta, como “Sulle strade di San Francisco”. Com Nick Raider aprendi a não me exceder nos detalhes do ambiente, a não me concentrar demais nos particulares, perdendo de vista ao mesmo tempo o principal da vinheta. Mostrar quanto somos bons, por vezes, pode ser pernicioso.

Com Napoleone, pelo contrário, diverti-me porque pude mover-me sobre dois planos diversos, um realista e um lírico… A história de Tex que estou a terminar por estes dias desenvolve-se no Deserto de Gila, e, no início vi-me em situação delicada, porque não sabia bem como “dosear” os pretos e brancos naqueles fundos ora planos, ora rochosos, ofuscantes devido ao sol. Para a documentação revi os livros de um artista do Oeste que tinha idolatrado muito no passado, Frederic Remington e procurei os DVD di grandes obras cinematográficas, desde “Ombre rosse” a “Il massacro di Fort Apache”, que podiam ajudar-me a render melhor as várias sequências. Em suma, posso dizer, que graças a Tex, rememorei um sonho, que finalmente se realizou
”.

Texto de José Carlos Francisco, baseado na rubrica "Caro Tex...", de Sergio Bonelli, inserida em Tex Nuova Ristampa nº 180 de 31 de Março de 2007.
Escrito por Autores do blogue em 01:13:07 | Link permanente | Comments (0) |
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