Entrevista exclusiva: PAULO GUANAES (tradutor de Tex)
Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Sílvio Raimundo na formulação das perguntas.
Para começar, fale-nos um pouco das suas origens, desde o nascimento até à sua formação profissional...
Paulo Guanaes: Nasci em 19 de Março de 1953, no bairro Estácio, no Rio de Janeiro. Hoje, a rua em que morei neste bairro não existe mais. Cedeu lugar ao metropolitano. Fiz o Curso Primário na Escola Pública José Pedro Varela. Naquela época, o Rio ainda era a capital do Brasil e o ensino público era de boa qualidade, tanto que o professor tinha um status importante na sociedade de então. Aliás, dentre outras coisas que vou morrer sem conseguir entender, uma é o tratamento indigno que todos os governos que conheci, desde os militares da ditadura até os ditos “democráticos” actuais, dispensaram aos professores. Fiz o Curso Ginásio e o Curso Científico no Colégio Pedro II, um óptimo colégio federal. Quando terminei o Colégio Pedro II, em 1970, aos 17 anos, fui trabalhar como revisor literário (assim eram chamados os revisores de texto) na editora Vecchi. Quatro anos depois, Tex entrou na minha vida para nunca mais sair. Fiz Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); cursei italiano no Istituto di Cultura Italiana; formação de tradutores inglês-português na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ); MBA em Marketing na Fundação Getulio Vargas.
Como se interessou pela Banda Desenhada e quando é que isso aconteceu?
Paulo Guanaes: Eu me interessei lendo Capitão Marvel, Super-Homem e Batman, o meu preferido. Isso aconteceu aos oito anos de idade, suponho. Também gostava de Bolinha e Luluzinha.
Quais as suas personagens favoritas e o que contém a sua, ou suas colecções de Banda Desenhada? E já agora, colecciona também revistas de outros países em virtude de ser um poliglota?
Paulo Guanaes: Meu personagem favorito é o Bat... não! É Ken Par... não, o que estou dizendo? É o Tex! Na verdade, adoro esses três. As minhas colecções são todas de revistas Bonelli. São tantas revistas que as encaminhei para a biblioteca da escola de um amigo meu. Não colecciono revistas de outros países.
De que forma se tornou tradutor? Foi aptidão ou consequência?
Paulo Guanaes: Acho que foram as duas coisas. Embora tenha me preparado para fazer vestibular de Engenharia, sempre tive muita facilidade no aprendizado de línguas estrangeiras. As circunstâncias da vida acabaram me proporcionando uma oportunidade de traduzir o italiano para o português. Eu era revisor de texto de traduções de fotonovelas italianas, na Editora Vecchi. Um dia pedi para traduzir uma, sem nunca ter estudado italiano. Tinha apenas a experiência de revisar textos traduzidos desse idioma para o português. O Editor, que certamente gostava de mim, aprovou e me permitiu trabalhar como tradutor free lance. Foi assim que comecei.
Como se deu o seu primeiro contacto com uma revista italiana do Tex? Você já dominava a língua nessa época?
Paulo Guanaes: Vi Tex nascer dentro da Editora Vecchi, em 1974. Meu primeiro contacto foi como revisor do texto traduzido e do letreiramento dos balões de Tex, este feito por Waldemar Valim, um excelente desenhador de letras que até hoje faz as tiras do jornal O Globo.
Há quantos anos é tradutor de Tex e como é que se deu o início dessa “relação”?
Paulo Guanaes: Traduzo o Tex há 30 anos. Mereço até um especial, não?
Quem me deu a oportunidade de começar a traduzir o Tex foi o Otacílio d’Assunção Barros, editor da versão brasileira da revista Mad e um activo participante do boom das histórias em quadradinhos no Brasil em meados da década de 1970. Não posso dizer que dominava, mas eu lia muito texto italiano nessa época, por força do meu trabalho como revisor, e estudava por conta própria a língua, além de consultar infinita e febrilmente o dicionário do Carlo Parlagrecco, tanto na Vecchi quanto em casa nas traduções como free lance. Depois, fiz o curso de italiano no Istituto Italiano di Cultura, no Consulado italiano do Rio de Janeiro.
Sempre foi o tradutor de Tex, ou teve alguma vez que fazer uma pausa nesse trabalho?
Paulo Guanaes: Houve uma pausa quando trabalhei como Subeditor da Divisão Infanto-Juvenil da Editora Globo, em 1987-1988. Tex ficou em boas mãos: Tizziana Giorgini, uma querida amiga, filha de imigrantes italianos e formada em Letras, traduziu o nosso herói nesse período.
Pode nos falar do seu método de tradução? E em média quanto tempo gasta para traduzir uma edição de 110 páginas?
Paulo Guanaes: Seria muito fácil deitar regras aqui, mas, na verdade, meu método sempre foi muito intuitivo. Na leitura do texto em italiano, logo percebi o talento de Gianluigi Bonelli. Apesar de ser por demais descritivo, suas histórias sempre foram ricas tanto no argumento quanto na composição de personagens. São duas coisas essenciais. Ele sabia criar uma trama como poucos. Isso, no fundo, é o que prendia o leitor. Então, sempre procurei fazer uma tradução muito aproximada do texto original, o que, para muitos, é um pecadilho, mas, no caso do Tex de Bonelli, eu acho uma obrigação, porque Bonelli revestia Tex de uma aura não encontrada nos demais heróis do western. Então, pensava eu com meus botões, por que querer ser mais realista que o rei?
O Tex actual tem menos texto; as reedições que a Mythos deu continuidade são mais trabalhosas.
Você é uma das principais vozes de Tex no Brasil. Em sua opinião qual a importância dessa missão? E o que é que significa para si ser o tradutor de Tex Willer no Brasil?
Paulo Guanaes: Nunca me dei conta disso. Agradeço pela vossa afirmação. Eu apenas procuro fazer as traduções usando todo o património cultural que acumulei em 38 anos de trabalho na área editorial. Tento também me esmerar na produção do texto, pois sei que ele pode auxiliar muita gente a pegar o gosto pela leitura e ter mais cuidado ao escrever. Essa é uma bela missão e um grande significado no meu acto de traduzir.
Para um fã, ler o seu herói preferido é sempre um prazer, mas para um tradutor, por se tratar de um trabalho, a rotina não cansa?
Paulo Guanaes: Não, porque também sou um fã.
Argumentistas e desenhadores sempre colocam algo de si nos personagens, é possível a um tradutor fazer o mesmo?
Paulo Guanaes: Sim, desde que não descaracterize o perfil do personagem.
Quando traduz um “fumetto” de Tex, faz uma tradução literal ou uma versão, adaptando aquilo que o Ranger diz à nossa forma de falar?
Paulo Guanaes: É preciso encontrar o correspondente na língua de chegada (o português), sem cair na facilidade da tradução literal. Sou contra adaptar totalmente à nossa forma de falar. Há que se respeitar as diferenças de épocas.
Paulo Guanaes, se depender apenas de si, por quanto tempo ainda pretende traduzir as aventuras do Tex?
Paulo Guanaes: Por todo o tempo em que ele for publicado.
Quais foram a melhor, e a mais fraca história do Tex que você já traduziu?
Paulo Guanaes: Gosto de todas do Mefisto. Não me lembro da mais fraca.
Em sua opinião, qual o desenhador que melhor dá vida ao Ranger? E argumentista?
Paulo Guanaes: Fabio Civitelli e Gianluigi Bonelli.
O facto de Tex ser desenhado por vários autores (de estilos bem diferentes) é, na sua opinião, mais ou menos vantajoso para a série? E porquê?
Paulo Guanaes: Não sei como aferir se é mais ou menos vantajoso. Há aí uma evidente questão de limitação humana. Só sei que os desenhadores são muito bem escolhidos.
Com a facilidade e rapidez de comunicação que a Internet nos proporciona, é comum leitores de todo o globo terem acesso a edições estrangeiras do Ranger. Com isso você hoje é conhecido não só no Brasil, mas também em Portugal, Espanha, Itália e além. Como você convive com isso?
Paulo Guanaes: Só me dei conta disso há pouco tempo, quando fui convidado pelo Portal TEXBR para dar uma entrevista e, em seguida, por vocês. Eu sinto-me lisonjeado em saber que meu trabalho é conhecido nesses países.
Sua família tem noção de o quanto você é conhecido e admirado? Como convivem com esse factor?
Paulo Guanaes: Creio que não têm noção. Aliás, nem eu mesmo tenho noção disso. Será mesmo que é assim?.
Comente aspectos positivos e negativos do seu trabalho com Tex...
Paulo Guanaes: De positivo: a possibilidade de me manter em constante contacto com a língua italiana; o exercício da escrita de minha língua, o português; a manutenção da chama do prazer lúdico que só as histórias em quadradinhos carregam. De negativo: vários momentos em família se perderam ao longo desse tempo de actividade tradutória....
Para além de Tex, quantas e quais as personagens da Sergio Bonelli Editore que traduz ou já traduziu?
Paulo Guanaes: Já traduzi Ken Parker, Zagor, Martin Mystère, Nick Raider, Nathan Never, Mister No, Dylan Dog e Júlia.
Existe alguma personagem com a qual você não se identificou ao traduzi-la?
Paulo Guanaes: Não. Embora não tenham perguntado, aquele com o qual mais me identifiquei: Ken Parker, do qual tive a honra de ser o primeiro tradutor no Brasil (toda a série da Vecchi).
Tex passou por vários editoras no Brasil; para a maioria dos leitores nenhuma outra deu um tratamento tão especial à personagem quanto a Mythos. Em sua opinião, a que devemos atribuir esse facto?
Paulo Guanaes: Atribuo esse facto à competência de meus contemporâneos Dorival Vitor Lopes e Helcio Carvalho.
Dando continuidade ao seu trabalho, que já vinha de outras editoras, como se processou a sua entrada na Mythos? E profissionalmente você é um membro do staff da Mythos, ou um prestador de serviços?
Paulo Guanaes: Foi uma continuidade do trabalho que eu já fazia para o estúdio de Dorival, que editava Tex para a editora Globo. Sou um prestador de serviços.
No universo editorial de Tex no Brasil, além de tradutor, o que mais você já foi?
Paulo Guanaes: Fui revisor dos textos traduzidos e do letreiramento dos balões, na editora Vecchi, e subeditor de Tex na editora Globo.
Tex está para fazer 60 anos de existência, enquanto tradutor dele no Brasil como vê essa marca e o que sente?
Paulo Guanaes: Sinto um orgulho imenso por ter contribuído com uma pequena parcela nessa longa jornada.
O Ranger Tex Willer é um viúvo convicto e celibatário, que sozinho criou e formou o carácter do seu único filho. Isso realmente é possível a um homem?
Paulo Guanaes: Acho possível, sim. A natureza humana é capaz de proezas inimagináveis.
Tex tem uma galeria de arqui-inimigos invejáveis, alguns deles, quando menos se espera, dão um ar da sua graça, você tem preferência por algum em especial? E dos Amigos, qual em sua opinião - exceptuando os Pards – é aquele que o Ranger sempre poderá contar?
Paulo Guanaes: Não dá para deixar de mencionar Mefisto como inimigo. Já como amigo, gosto do Pat, o irlandês, que dá a impressão de ser capaz de qualquer coisa pelo Ranger. Há outros óptimos, como o casaca-vermelha Jim Brandon, por exemplo.
Tex Willer, em sua opinião, é apenas uma personagem de história em quadradinhos, ou é mais que isso?
Paulo Guanaes: Tex já se tornou um mito.
Quais são para si, as características imutáveis de Tex, ou seja, a sua essência, algo que não pode ser mudado?
Paulo Guanaes: A virtude de dar a cada um aquilo que merece; a intolerância com a covardia; o tratamento isento que dá aos índios; o destemor. E tem muito mais...
Diferente do tempo em que Tex foi lançado no Brasil pela primeira vez, a garotada de hoje tem mil e uma possibilidades de diversão, que não apenas as histórias de banda desenhada. Nos dias actuais, existe ainda mercado para esta indústria?
Paulo Guanaes: Sim, apesar das inúmeras possibilidades de diversão, as histórias em quadradinhos ainda têm lugar nos dias de hoje porque têm o dom de ser encantadas.
Sabemos que está planeando para breve uma visita à Itália, inclusive para conhecer a Sergio Bonelli Editore. No dia em que conhecer o Sergio Bonelli, o que lhe dirá?
Paulo Guanaes: Sim, vou realizar o sonho de conhecer a Itália em Julho deste ano. Conheci Sergio Bonelli rapidamente na ocasião em que eu editava o Tex na editora Globo, nos idos de 1988. Certamente ele não se lembraria de mim. Se eu o encontrar, direi: “Muito obrigado por Tex existir.”.
Para finalizar, para além de banda desenhada, que tipo de livros lê? E a nível de cinema e de música, quais são as suas preferências?
Paulo Guanaes: Gosto de ler não-ficção. Quanto a cinema, não tenho um género predilecto, mas sim filmes: todos os longas-metragem de Charles Chaplin, “Amarcord”, “Blade Runner, o caçador de andróides”, James Bond, a nova safra de heróis de quadradinhos transformados em filmes... Quanto à música, Beatles é minha principal referência. Gosto de um género musical chamado Chorinho. Gosto da percussão na música.
Caro Paulo Guanaes, muito obrigado pela entrevista que gentilmente concedeu ao blogue do Tex.
(Para aproveitar a extensão completa das fotos acima, clique nas mesmas)








Por José de Matos-Cruz
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Exposto em mil façanhas, envolvido pela paixão de outras mulheres, enfrentando inimigos crónicos mas ardilosos, Tex identificar-se-ia, carismática e primordialmente, com o criador Bonelli - segundo o especialista Decio Canzio, que lhe aponta «alguns dos mais intensos sentimentos da alma humana»: dignidade da vida, conceito de justiça, defesa dos fracos e oprimidos, tenacidade, celebração da amizade e do companheirismo...


Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Alberto Giolitti. Com o título original Terra senza legge, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 2 em 1989 e no Brasil pela Mythos Editora em 1999.
É o velho argumento da caça aos fora-da-lei que, lido e relido, acaba por nunca nos cansar, quando o mesmo se afirma coerente e credível. Neste caso, Nizzi coloca sempre a cadência e o ritmo certos no desenvolvimento da história.
Desta vez, Nizzi escolheu um protagonismo a quatro, uma vez que Kit e Tigre dividem a acção com Tex e Carson, existindo também aqui um certo classicismo, um retorno a velhas aventuras do ranger.
Em Giolitti o desenho é menos imponente e altivo, tornando-se, a meu ver, mais romântico. Nota-se sobremaneira que o que o autor mais aprecia no western tem aqui marcada presença: movimento (veja-se a riqueza da cena da perseguição à diligência), animais, paisagens e aventura.
No entanto, a figura de Tex é algo pesada e envelhecida, surgindo com um semblante carregado, mais lembrando o xerife Matt Dilon em Gunsmoke, uma outra personagem brilhantemente ilustrada por Giolitti.









