01 de Setembro de 2007

Póster Tex Nuova Ristampa 59

 

Vemos neste desenho de Claudio Villa, o prepotente Freddie Baker no interior de um "Saloon" na cidade de Silver Bell, com a pistola ainda fumegando devido a vários disparos a esmo, somente por diversão, ameaçando sorridentemente, Tex Willer quando este entrava no estabelecimento para se inteirar do porquê de tamanha festança.
Claro que depois, Freddie Baker acabou por levar uma merecida lição do Ranger, como resposta à ameaça....  

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #55 e inspirado na história, "Silver Bell" de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #98 e #99).
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Texto de José Carlos Francisco
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31 de Agosto de 2007

O Homem de Atlanta

Por José Carlos Francisco


Embora esta rubrica do blogue seja denominada de "Entre vinhetas", o assunto que abordarei é "Entre capas", ou melhor, entre um esboço inicial de uma capa e o resultado final dessa mesma capa.

Capa essa da história "O Homem de Atlanta", editado no Brasil, pela Mythos Editora, em Março de 1999, no número 1 da colecção "Tex Gigante", originária da série italiana "Albo Speciale", conhecida popularmente por "Texoni", número 10, que deveria ser somente editado em 1997, mas ao ver o fantástico trabalho de Jordi Bernet, Sergio Bonelli não pôde resistir à tentação e alterou para Novembro de 2006 a aparição da história do criador de Kraken, tornando-se assim a primeira e única vez na história dos "Texoni" que uma segunda edição saísse num mesmo ano.

Como dissemos, “O Homem de Atlanta” aparece em Novembro de 1996. O seu escritor é Claudio Nizzi que para a ocasião fez um guião especialmente pensado para Bernet. Para ele cria uma personagem feminina à qual dá um grande protagonismo na narração para permitir o brilho do desenhador; algo que não é habitual nos argumentos de Nizzi, já que nos quais não abundam personagens femininas com verdadeiro peso nas histórias. No arranque da história, Tex e Carson encontram-se a caminho ante um pedido de ajuda por parte de Johnny Butler, um ex-oficial do exército confederado que salvou a vida a Tex durante a Guerra Civil Americana. E aqui é onde entra em jogo Lola Dixieland, cantora de salão e noiva de Johnny, que será quem serve de contacto entre o seu companheiro sentimental e os protagonistas.

E paramos por aqui, porque é precisamente sobre Lola Dixieland, a curiosidade que pretendo abordar, mais precisamente, a sua presença num primeiro esboço feito por Jordi Bernet, para a capa deste "Texone".
Esboço inicial aliás, um pouco na linha das suas bedês eróticas, com a imagem da rapariga sentada sobre o piano, que faz lembrar a Marilyn Monroe no filme "Rio Sem Regresso", como se pode ver nesta imagem que apresento de seguida:

 

Fica agora uma dúvida, que deixo ao critério de cada um tentar desvendar... teria sido o autor espanhol que pensou que estava a ir longe demais, até por ser a sua estreia (e única presença até ao momento) no Mundo de Tex? Foi o editor Sergio Bonelli que julgou que o desenho não se adequava à saga de Tex? Ou foi apenas um de vários esboços, optando o desenhador pela versão final, onde a imagem principal de Tex é a mesma do esboço acima, mudando totalmente o fundo, considerando este mais "natural"?

O que posso afirmar, é que foi pena o esboço inicial não ter sido finalizado (ou aprovado), porque está muito longe, apesar de tudo, das imagens provocantes que Jordi Bernet costuma desenhar e porque estamos na presença de uma série especial de Tex, como o próprio nome da colecção o prova.

Finalizo esta curiosidade, aproveitando para mostrar em todo o seu esplendor, o desenho de Jordi Bernet, que serviu então para a capa da história "L'uomo di Atlanta".
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30 de Agosto de 2007

Collezione storica a colori, nº 21 - L'uomo dal teschio

Tex  nº 21 - L'UOMO DAL TESCHIO

 

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29 de Agosto de 2007

Tex Série Normal: Intriga em Santa Fé

Argumento de Claudio Nizzi, desenhos de Fabio Civitelli e capas de Aurelio Galleppini.
Com o título original Intrigo a Santa Fe, a história foi publicada em Itália nos nº 393 a 395 e no Brasil pela Editora Globo nos nº 304 a 306 e pela Mythos Editora no Tex Especial de Férias nº 5. 

Tex e Carson testemunham a perseguição que um grupo de homens faz a dois agentes da Pinkerton. No entanto, os dois rangers não vão a tempo de salvar os homens da Pinkerton e até são alvo de uma emboscada preparada pelos assassinos, conscientes que não poderá haver testemunhas do seu acto.

Tex e Carson logram abater quase todos os homens do grupo, com excepção de um que consegue fugir e chegar a Santa Fé. Os rangers também se dirigem a esta cidade, porque sabiam que os homens da Pinkerton encontravam-se aqui a investigar um caso de assaltos a comboios. Mas nos meandros da política de Washington prepara-se um complot com o objectivo de abater o Presidente Ulisses Grant durante a sua próxima visita, precisamente a Santa Fé.

Bem construída, mas sobretudo bem desenvolvida, Intriga em Santa Fé leva-nos aos meandros de uma conspiração política plena de suspense e sempre em ambiente de crescente tensão dramática.
Toda esta envolvência que mistura a realidade com ficção acaba por trazer dose acrescida de curiosidade, tensão e interesse por parte do leitor.

Nizzi utiliza personagens da História, a começar no próprio Presidente dos Estados Unidos Ulisses Grant, mas também o agente índio Ely "Donehogawa" Parker e Mac Parland da agência de detectives Pinkerton. O autor vai mais tarde recuperar a mesma envolvência entre ficção e realidade histórica em “Os Assassinos de Lincoln”.

Civitelli tem aqui um trabalho de grande fôlego, não só porque a aventura é extensa, mas também pelos cenários onde decorre e no ritmo empregue. O autor está perfeitamente à vontade na construção texiana e das personagens, logrando desenhar páginas de rara beleza e intensidade dramática.

Toda a cena da emboscada na ponte fica nos anais da história texiana, porque a juntar ao elemento cénico, Civitelli utiliza planos e ângulos que conseguem transportar o leitor para outros patamares, no fundo como se estivéssemos a viver a carga dramática latente.

Toda a cena do incêndio na cabana ou a captura do atirador furtivo durante a visita de Grant contribuem também para um trabalho que fica na memória de todos os que apreciam a série. Desenhador urbano por excelência, Civitelli passeia toda a sua arte pelas ruas de Santa Fé ou pelos corredores dos seus edifícios, mas mantendo também elevada qualidade nos outros cenários da aventura, denotando uma energia nas planícies do oeste que poucos sabem interpretar.

Texto de Mário João Marques

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28 de Agosto de 2007

Arte de Ivo Milazzo

 

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27 de Agosto de 2007

TEX no Diário do Alentejo: 10 de Novembro de 2006

Texto do Suplemento Alentejo Ilustrado de 10/11/2006
Espaço bd
Por Luiz Beira

* Tex agrada a adolescentes e adultos, independentemente do sexo, porque representa o Grande Irmão, o Grande Companheiro e Amigo, o Anjo da Guarda...

Tex, o “Cowboy italiano”

Classificar o herói-BD "Tex Willer" de "cowboy" é uma força de expressão, um tanto e propositadamente exagerada, para facilitar em abertura o que abaixo se segue.
Maioritariamente, Tex Willer, vive as suas aventuras no mítico Longe Oeste (norte-­americano). Mas Tex não é um vaqueiro nem um vulgar pistoleiro, mas sim, um "ranger" (um justiceiro, mais por conta própria do que oficialmente). O curioso é que Tex "nasceu" em Itália, pelo entusiasmo do novelista e editor Giovanni Luigi Bonelli (1908-1994) e daí também a poderosa editora italiana Sergio Bonelli Editore.

São já quase incontáveis as aventuras de Tex, constantemente editadas nos mais diversos países... excepto Portugal! As edições em lusofonia que por cá vamos lendo chegam-nos do Brasil, pela Mythos Editora. A única edição portuguesa aconteceu apenas e até agora na "Série Ouro – Os Clássicos de Banda Desenhada", em 2005, sob apoio do jornal "Correio da Manhã"...

Tex "trabalha por conta própria", é viúvo de uma ameríndia navajo de nome Lilyth e tem como seus directos amigos e companheiros o filho Kit Willer, o resmungão Kit Carson (tão diferente do personagem histórico e autêntico) e Jack Tigre (um índio navajo).

Têm sido muitos os argumentistas (desde G.L. Bonelli) e desenhadores (desde Aurelio Galleppini) que têm assegurado e continuado as aventuras de Tex. Em Portugal, há um jovem que é o "embaixador" de Tex para o nosso espaço:
José Carlos P. Francisco, nasceu a 13 de Dezembro de 1967 em Lourenço Marques (Moçambique). É casado e pai de duas filhas. Reside na Anadia, onde é chefe de produção numa indústria de mobiliário metálico. Mas é também um coleccionador imenso das aventuras de Tex e o representante em Portugal da brasileira Mythos Editora e, de certo modo, "os olhos e ouvidos do rei" da Sergio Bonelli Editore. Parcialmente, o seu trabalho "texiano" esteve exposto no salão internacional "Viseu­BD / 2005".
E vamos lá à nossa breve conversa:

Quando descobriste Tex?
Descobri Tex, já em Portugal, em 1980, quando os meus avós ao mudarem de residência, foram morar para uma quinta em Vila Nogueira de Azeitão. Durante o decurso das limpezas do sótão da habitação principal, descobri uma caixa com muitas revistas de BD e entre elas somente um exemplar de Tex, mas logo uma edição especial, que muito me cativou de imediato. Tratava-se do Tex 094, "Pacto de Sangue", uma aventura completa, onde acontece o casamento deste herói.

Porquê esta paixão por Tex?
Esta paixão por Tex resultou de amor à primeira vista. A curiosidade e a gula com que li aquele primeiro Tex permanece até hoje. Os anos passaram e o mundo mudou, menos esta minha paixão. Quem lê Tex não consegue ficar indiferente ao ranger... Além disso, Tex tem-me proporcionado momentos inolvidáveis, como coleccionador do personagem há mais de 20 anos e, como todo o fã deste herói, sempre tivera o desejo e a esperança de conhecer a casa onde ele é produzido em Itália, ou seja, a Sergio Bonelli Ediore, assim como o seu grande responsável, o próprio Sergio Bonelli. E também conheci no Brasil a Mythos Editora, que hoje represento em Portugal.

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis da banda desenhada?
Tex agrada a adolescentes e a adultos, independentemente do sexo, porque representa o Grande Irmão, o Grande Companheiro e Amigo, o Anjo da Guarda... Viver num mundo tão complexo e cheio de violência, repleto de injustiças e discriminação, faz-nos ansiar por uma divindade capaz de acertar o passo da humanidade. E Tex Willer é a personificação procurada. Tex transcende até os seus criadores e editores.

*
Muito haveria a conversar com José Carlos Francisco sobre a temática de Tex, mas o espaço é curto....

Copyright: © 2006 Diário do Alentejo; Luiz Beira
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26 de Agosto de 2007

Tex Willer por Thiago Krening



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25 de Agosto de 2007

Póster Tex Nuova Ristampa 58

 

Claudio Villa mostra-nos neste histórico desenho, o preciso momento em que Ruby Scott disparando mais rápido que Tex Willer, o venceu num infame duelo de pistolas, algo que ocorreu uma só vez, ao longo de quase 60 anos de vida editorial do ranger!
Mas conforme o desenho já dá a entender,
Ruby Scott só venceu porque utilizava um coldre especial que lhe permitiu usar o colt sem sacar, fazendo o próprio coldre girar sobre um pino central.
Logicamente que depois a coisa não fica assim, e Tex, pese estar ferido e ter o braço direito inutilizado, voltará a defrontar o pistoleiro utilizando a mão esquerda. Ao já conhecer o truque usado por Ruby, o resultado só pode ser a vitória de Tex e a morte do adversário.

Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #56 e inspirado na história, "Silver Bell" de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #98 e #99).
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Texto de José Carlos Francisco
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24 de Agosto de 2007

Collezione storica a colori, nº 20 - Il figlio del fuoco

Tex  nº 20 - IL FIGLIO DEL FUOCO

 

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23 de Agosto de 2007

O WESTERN NA BD EUROPEIA

Texto da Revista Selecções BD nº 29, de Março de 2001
Por Jorge Magalhães[1] 

O "WESTERN" NA BD EUROPEIA

FOI NA EUROPA QUE AS HISTÓRIAS AOS QUADRADINHOS DE "COW-BOYS” ENCONTRARAM O SEU CAMPO FAVORITO E OS SEUS CRIADORES PRIVILEGIADOS, GRAÇAS AO INTENSO FASCÍNIO PELO GÉNERO QUE, ALIADO A CONSIDERÁVEIS DOTES ARTÍSTICOS, PERMITIU AOS AUTORES EUROPEUS TRANSPLANTAREM PARA O SEU PRÓPRIO TERRENO AS RAÍZES DO MITO SEM PERDA DE CREDIBILIDADE, FENÓMENO QUE TEVE CORRESPONDÊNCIA NOS "WESTERNS SPAGHETTI" DIRIGIDOS POR REALIZADORES COMO SERGIO LEONE, DUCCIO TESSARI E SÉRGIO
CORBUCCI, EMBORA OS ACTORES QUE ENCARNAVAM OS PAPÉIS PRINCIPAIS FOSSEM PREFERENCIALMENTE AMERICANOS.

Muitos dos maiores desenhadores europeus renderam-se á magia e ao sortilégio do “western" desde os primórdios da sua carreira. E escolas como a inglesa, a italiana e a francesa, em que a tradição da BD realista cedo começou a impor-se, como catalisadora de uma intriga puramente aventurosa, produziram um florilégio de séries e de personagens que procuravam imitar o ritmo e o movimento dos "westerns" americanos, por vezes ainda com menores resultados.
Desde os pioneiros como Walter Booth com Rob the Rover [Pelo Mundo Fora] (1920), Marijac com Jim Boum (1931), Reg Perrott com a sua mítica The Golden Arrow [A Flecha de Ouro] (1937), que deslumbrou os leitores do Mosquito, Rino Albertarelli e Walter Molino com Kit Carson (1937), Le Rallic com Poncho Libertas (1944), René Giffey com Buffalo Bill (1946), Jesus Blasco com Cuto nos Domínios dos Sioux (1946), E.T. Coelho com Falcão Negro (1946), Francisco Batet com El Coyote (1947), Camilo Zuffi com O Pequeno Xerife (1948), Bonelli e Galleppini com Tex Willer (1948) — Inquestionavelmente o mais famoso "cow-boy" da BD europeia, tanto pela sua longevidade como pela evolução gráfica que sofreu, ao longo de 50 anos, nas mãos de diversos desenhadores —, Dut e Marijac com Sitting Bull (1948) — uma obra-prima com mais de 300 paginas e um dos primeiros "westerns" realistas a abordar sem maniqueísmos o confronto entre brancos e índios, antecipando-se a filmes como Broken Arrow [Flecha Quebrada] —, De Vita e Paparella com Pecos Bill (1949), Lecureux e Nortier com Sam Billie Bill (1949), Vitor Péon com Tomahawk Tom (1950), os artistas da velha Europa mantiveram sempre vivo o seu fascínio pelo "western", acompanhando com entusiasmo o desenvolvimento da própria matriz cinematográfica. E o fruto dessa intensa relação foram algumasobras admiráveis, cujos padrões artísticos, temáticos, sociológicos, éticos e culturais elevaram o género a um nível raramente atingido nos "comics" norte-americanos.

A IDADE DE OURO DO "WESTERN" EUROPEU

A evolução do "western" nos anos 50 fez com que o género, seguindo rumos diferentes na Europa e nos Estados Unidos se alargasse progressivamente a outros tópicos, englobando-os no mesmo esquema típico, como, por exemplo, a aventura de fundo histórico baseada em acontecimentos verídicos — viagens de exploração, guerras coloniais e da Independência, episódios da conquista do Oeste, biografias de figuras célebres —, sem esquecer um tema com múltiplos atractivos: a saga dos índios vista por dentro, numa perspectiva mais romântica e redutora do que cultural.

Todas essas vertentes desaguaram no mesmo espaço mítico, alargando geográfica e temporalmente as fronteiras do género, cujos códigos se tornaram, assim, muito mais difusos. Em vez da imagem, criada pelo Cinema, do tradicional "cow-boy" de lenço ao pescoço, chapéu de abas largas e safões compridos, cujo raciocínio era tão simples como o do seu inseparável "mustang", mas disparava "mais depressa do que a própria sombra", surgiram heróis dos mais variados tipos, mergulhando as suas raízes na tradição histórica e etnográfica, incomensuravelmente mais genuína, libertos do primarismo psicológico que se encontra em larga escala nas criações dos anos 30 e 40. Entre as séries que caracterizam a abordagem peculiar da mitologia do "western" pela BD europeia, na segunda metade do século XX, há várias dezenas de títulos que se distinguem pelo seu fulgor criativo, tendo alguns deles aberto novas vias à expressão gráfica da epopeia do Oeste:

Riders of the Range (1950), por Charles Chilton e Frank Humphris — o primeiro grande "western" inglês dos anos 50, publicado na Eagle, revista de referência dessa década;
Bessy (1952), por Willy Vandersteen — as aventuras de um herói canino, émulo da popular cadela Lassie, recheadas de apontamentos sobre a natureza e a vida animal, que fizeram as delicias de muitos leitores, transformando-a numa das séries carismáticas do Cavaleiro Andante, ou o exemplo perfeito de uma BD mais apoiada no argumento do que nos desenhos;

Jerry Spring (1954), por Joseph Gillain (Jijé) — a obra-prima de um pioneiro da BD franco-belga e grande especialista do "western", com quem Jean Giraud aprendeu todos os segredos do oficio;

Matt Marriott (1955) por Tony Weare — um "western" adulto, com personagens verosímeis e de grande espessura psicológica;
Gun Law (1956), por Harry Bishop — com Matt Dillon, o famoso "marshall" de Dodge City e astro da série televisiva Gunsmoke;  

Wes Slade (1960) por George Stokes — outro vigoroso "western" inglês, embora mais tradicional na sua concepção do que Matt Marriott;
Tenente Blueberry (1963) por Gir e Charlier— a mais célebre saga do Oeste à escala mundial, concebida por dois dos maiores autores do género, com personagens indeléveis, de pitoresco recorte, e um ritmo e uma montagem que remetem claramente para os "westerns" de Ford, Hawks e Leone;

Sargento Kirk, por Hector Oesterheld e Hugo Pratt — um militar rebelde que toma o partido dos índios, criado na Argentina em 1953, dez anos antes da saga de Forte Navajo se estrear no Pilote, e que deu o título a uma revista célebre, onde as criações de Pratt e de outros artistas italianos foram largamente divulgadas a partir de 1967. Da colaboração entre Pratt e Oesterheld nasceram também duas grandes epopeias, com a guerra entre franceses e ingleses como pano de fundo: Ticonderoga (l957) e Fort Wheeling (1962), demonstrando a vitalidade da escola argentina, que teve em Oesterheld, escritor versátil e de espírito abertamente progressista, um dos seus maiores expoentes;
Storia del West (1967), por Gino d'Antonio, Renzo Calegari, Sérgio Tarquínio e outros — a mais longa saga até hoje escrita e desenhada sobre o Oeste americano, e uma das mais perfeitas no plano artístico e narrativo, acompanhando a vida e atribulações de uma família de pioneiros, num fluxo contínuo assinalado pelos principais acontecimentos da história da colonização, desde a queda do Álamo e a marcha para o Oeste ao extermínio dos índios e ao crepúsculo dos pistoleiros;
Comanche (1969), por Hermann e Greg — um dos melhores "westerns" europeus, fiel também aos cânones de Hollywood, que poderia ter rivalizado com Blueberry se Hermann não tivesse seguido outros caminhos;
Sunday (1970), por Vitor Mora e Vitor de la Fuente — um lacónico e soturno aventureiro que carrega lembranças amargas, numa errância solitária onde se cruza com personagens tão atormentadas como ele;
Manos Kelly (1970), por António Hernandez Palácios — obra-prima do "western" hispânico, cujo estilo barroco se expande pelas tonalidades ardentes e o ritmo dolente da narrativa;
I Protagonisti (1971), por Rino Albertarelli — o estilo minucioso de um veterano da BD italiana, numa obra rigorosamente documental com as biografias verídicas de alguns dos principais protagonistas da história do Oeste: Billy the Kid, Custer, Gerónimo, Wyatt Earp, Wild Bild Hicock, etc;
Buddy Longway (1972) e Celui qui est né deux fois (1981), por Derib —dois "westerns" de cariz ecológico, onde se respira a largos haustos a comunhão com a natureza. Em 1988, Derib iniciou uma nova série com o mesmo tema, Red Road, centrada sobre a actualidade e o difícil desafio que constitui para os índios americanos a integração num mundo que repudia o seu espírito panteísta;
Jonathan Cartland (1974), por Blanc-Dumont e Laurence Harlé — um dos mais originais "westerns" europeus, que explora a profundidade dos grandes espaços, os abismos da mente humana e o misticismo das crenças primitivas, afastando-se abertamente de outros expoentes do género;
Mac Coy (1974), por Gourmelen e Palácios — a mais fiel aproximação aos tiques e convenções dos heróis do "western", depois de Blueberry;
Os Peles-Vermelhas (1974), por Hans Kresse — uma longa saga sobre as tribos índias do sudoeste americano, por um desenhador holandês de traço firme e expressivo com um sólido fundo documental e histórico;
Grandes Mitos del Oeste (1975), por José Toutain e José Ortiz — outra série excelentemente documentada sobre os heróis célebres (alguns de triste memória) da epopeia do Oeste, que tem a valorizá-la o traço vigoroso e expressionista de um dos maiores desenhadores espanhóis da sua geração;
West (1975), por Eleuteri Serpieri — as figuras lendárias de Custer, Sitting Bull, Crazy Horse e outros mitos do Oeste recriadas, num estilo barroco e sumptuoso, pelo famoso autor de Druuna, que ao fascínio do erotismo alia a paixão do "western";
Jim Cutlass (1976), por Charlier, Giraud e Rossi — curioso exercício à margem de Blueberry, explorando caminhos mais exóticos, num estilo gráfico desenvolto que Rossi se esforçou por manter;
L'Indien Français (1977), por Ramaioli e Durand — um dos mais estranhos "westerns" da B D europeia, que revive, num estilo influenciado por Gir e Jijé, o genocídio da raça índia, aliando o fantástico e a magia ao realismo dos cenários e das personagens;
Ken Parker (1977), por Berardi, Milazzo, Calegari e outros — excelente exemplo da maturidade do "western" italiano, com todos os ingredientes do género vertidos num guião inventivo e inteligente, que o traço fluido e dinâmico de Milazzo valoriza ainda mais;
Welcome to Springville (1977), por Berardi, Calegari e Milazzo — a história de uma cidade e do destino individual dos seus habitantes, em que se entrelaçam habilmente humor, drama e aventura.
Los Gringos (1979), por Charlier, Guy Vidal e Vitor de la Fuente — um "western" terminal, no cenário da guerra civil mexicana, onde surge, a páginas tantas, um Blueberry gasto e envelhecido, à beira da reforma;
Durango (1981), por Yves Swolfs — a atmosfera do "western-spaghetti" numa série dura e violenta que veio dar novo fôlego à BD "western" de expressão francesa;
Les Pionniers du Nouveau Monde (1982), por Jean-François Charles e Ersel — uma romântica e telúrica epopeia, que prima pela veracidade histórica, no quadro da guerra colonial entre as duas maiores potências europeias da época;
Verão Índio (1983), por Pratt e Manara —o fôlego épico de um mestre da aventura e a envolvente sensualidade de um mestre do erotismo, num grande fresco histórico em que o desejo, a luxúria, o ciúme e o ódio provocam -ma série de acontecimentos trágicos; História do Far-West (1985), por Marcello, Serpieri, Frisano, Buzzelli, Bielsa, d'Antonio e outros — obra repartida por diversos episódios, publicados em fascículos pela conceituada Larousse, contando a história factual do Oeste americano, com a colaboração de excelentes artistas;
Trent (1988), por Rodolph e Leo — o inesperado regresso da BD a um tema que parecia mergulhado num profundo letargo: as aventuras da Polícia Montada.
Outra obras — embora de menor fôlego e, nalguns casos, sem um herói titular, destinadas maioritariamente ao mercado das revistas, numa época em que ainda não proliferavam os álbuns — merecem também especial referência: TeddyBill (1950), por Le Rallic; As Grandes Águas (1951), por Roudolph e Giovannini: Lobo Branco (1953), por Gellardini e Polese; Dakota Jim (1954), por Caprioli; O Forte do Huron (1956), por Gino d'Antonio; O Tambor do Regimento (1957), por Ron Embleton; Billy James (1962), por Milani e Pratt; Wapi (1962), por Paul Cuvelier; Teddy Ted (1963), por Lecureux e Forton; Ringo (1965), por Acar e Vance; Los Guerrilleros (1968), por Jesus Blasco; Loup Noir (1969), por Ollivier e Kline; Larry Yuma (1970), por Nizzi e Boscarato; Go West (1971), por Derib; A Saga do Grizzly (1971), por Auclair; Nevada Hill (1973), por Buzzelli; Amargo (1975), por Mora e La Fuente ; Ayak, o Lobo Branco (1979), por Ollivier e E. T. Coelho; Jesuite Joe (1980), por Hugo Pratt; Quatro Dedos, o Homem de Papel (1982), por Manara; A Índia Branca (1983), por Serpieri; Irigo (1985), por Dufaux e José Pires.

DA PARÓDIA AO NOVO REALISMO


Mas falar da BD "western" europeia sem referir também as séries humorísticas é esquecer uma parte importante e significativa da sua produção, tanto mais que os artistas europeus foram aparentemente tão férteis, nesse domínio como os seus congéneres americanos.
Lucky Luke, criado por Morris em 1946, é a personagem emblemática do "western" humorístico e a sua popularidade conseguiu igualar a de Tintin e Astérix em muitos países, acabando também por conquistar o relutante mercado anglo-saxónico. Depois da sacramental passagem ao cinema de animação, o "cow-boy" que dispara duas vezes mais depressa do que a própria sombra foi também vedeta do grande ecrã em 1991, por intermédio de Terence Hill, num filme mal recebido pelo público e pela crítica.
Outras hilariantes criações, como Chapéus Negros (1950), de Franquin, uma aventura de Spirou, incansável "globe-trotter" e "groom" para todo o serviço; Blondin e Cirage no México (1951), de Jijé; Chick Bill (1953), de Tibet; Coco Bill (1957), do grande
desenhador italiano Benito Jacovitti; Oumpah Pah (1958), de Goscinny e Uderzo; Whamoka (1963), de Devos e Salvé; Les Tuniques Bleues (1968), de Cauvin e Lambil; Zorry Kid (1968), de Jacovitti; Piccolo Dente (1970), de Lino Landolfi; Yakari (1970), de Derib e Job; Capitão Rogers (1981), de Cavazzano; Smith & Wesson (1983), de Tranchand; Cotton Kid (1999), de Pearce e Leturgie —, traçaram o percurso do "western" humorístico na BD europeia, paralelament à evolução do seu irmão mais velho, o "western" realista, de que foi sempre um reflexo irresistivelmente paródico.

A renovação da BD "western" nos anos 90, em França, originou um caudal de séries criadas por artistas jovens, mas já de grande maturidade gráfica, sem qualquer parentesco, na maioria dos casos, com o universo do "western" tradicional (leia-se, a propósito, o artigo de João Lameiras: O "western" na BD Contemporânea, publicado nas SBD nº 27). – Nota: Em breve o blogue do Tex, também apresentará este texto.

A singularidade de tais experiências, com propostas por vezes arrojadas e inovadoras, tanto formal como tematicamente, teve um impacto considerável e a BD "western" voltou a conquistar a preferência de largas camadas de público. Em Itália, séries de assinalável longevidade, como Tex e Zagor, continuam de pedra e cal como "bestl-sellers", embora a produção de "westerns" italianos tlenha estagnado e obras como River Crossing (1996), de Renzo Calegari, Magico Vento (1997), de José Ortiz, e Cheyenne (1998) de Renato Polese, sejam hoje casos isolados.

JORGE MAGALHÃES

Copyright: © 2001 "Selecções BD nº 29"; Jorge Magalhães


 

[1] Editor, autor de banda desenhada (argumentista), autor de numerosos textos de estudo, análise e história da BD, em livros, revistas, jornais e fanzines e também leitor e coleccionador de Tex Willer.

 

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As imagens deste artigo foram enviadas pelo jornalista João Miguel Lameiras.

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